Sensibilidades


Tem jeito de forasteira, andarilha sem bússola, cabeça sem bússola. Debruça na cerca de ferro. Insensível às lanças, pele pressionada, pontas afiadas. Tem comida aí? Tem sobra do almoço? Aquele restinho de feijão, aquele restinho de arroz que fica na panela, tem? A pessoa destinatária lá dentro da casa, não dá pra saber, não dá pra ver. Arremate da súplica é dizer não ter lembrança de quando comeu por último, foi pão mofado ou foi banana sem graça, cabeça sem memória. Agora não diz mais nada, espera, mostra os dentes pra quem passa, não é sorriso, os braços de novo se acomodam em cima das pontas das lanças de ferro, não importa, não dói, não machuca, não sente. De dentro da casa o que será que vem? Pra ela não é suspense, é impaciência. Tá demorando muito, hein, fizeram banquete!? Da casa à cerca, pernas se arrastando em travessia lenta, velhinha de tudo, jeito de avó, é frágil, porém forte, recorrer a ela é boa sorte, tem autoridade de gente generosa, escapa fumaça de dentro do pote grande de margarina. Cuidado, tá quente. Também veio colher de plástico e até guardanapo de papel. Ela sai pela rua debelando a fome, dispensou a colher de plástico, come com a mão. Quer sentir. E vai sentindo o contato da comida grudando nos dedos.