Cabeça de Mickey, coração de homem


Cabeça de Mickey, corpo de homem. As calças, o fraque, as luvas, tudo é um arremedo que desagradaria muito quem quer que seja responsável por zelar pelo padrão de qualidade da marca Disney. No feriado a avenida é interditada aos carros, trânsito livre para bicicletas, patins, pessoas a pé, aglomeração propícia a vendedores, músicos e prestadores de serviços irrelevantes.

O cartaz de papelão pregado no encosto de uma cadeira anuncia o preço, não custa caro, mas ninguém se interessa em tirar fotografia ao lado do Mickey. Não adianta acenar para as criancinhas, tampouco arriscar passos de uma dança desajeitada, o fracasso já se faz perceber bem evidente. O próprio Mickey dá sinais de desânimo, o sorriso encravado na cabeça de espuma não se harmoniza com o corpo agora curvado e inerte, atrás do qual os braços se cruzam em sinal de resignação, dá pena.

A coisa só piora neste exato instante em que uma banda de adolescentes começa a tocar bem ali ao lado, não há como enfrentar concorrência tão descolada que vai atraindo para si todas as atenções. Sentado na cadeira, ele nem sequer se importa em encobrir o anúncio de seu serviço de acompanhante exótico para fotografias non sense, talvez seja a hora de aperfeiçoar os negócios, pode ser que cogite mudar de ponto, pode ser que esteja refletindo sobre a necessidade de substituir a fantasia por uma de super-herói ou por alguma desses personagens infantis da moda. Mickey Mouse está obsoleto e só.

Ou melhor, não completamente só, há uma mulher que o assessora, ela vem trazendo um copinho de sorvete, prêmio de consolação em tempos frustrantes. Puxadas dedo a dedo, as luvas vão saindo para alívio das mãos sufocadas. O ritual de descaracterização continua agora que a cabeça de espuma é levantada, revelando os cabelos despenteados, o rosto suado, a angústia humana. Entre uma colherada e outra, o olhar mergulha num vazio profundo. Ao lado, a banda de adolescentes inicia os acordes de uma música de sucesso, difusão de gritinhos agudos. A fisionomia vai do estado de hipnose à tristeza, derrota assimilada, touché, xeque-mate. Mais acima, cabeça sobre cabeça, Mickey ainda sorri.