Pai e filho


A cabeça se encaixa no vão delimitado pelos braços que, sobre a mesa, dobram-se um em cima do outro para darem forma a um ninho. Da cabeça, só dá pra ver o cocuruto, cabelo raspado bem rente. Ali se desenvolve um cafuné lento e ritmado, o autor do afago é certamente o pai do homem cujo rosto se afunda para dentro do esconderijo forjado com os próprios braços.

Por que a certeza de serem pai e filho? Nem tanto pela diferença de idade, nem tanto pela aparente semelhança entre os dois, o fato é que os dedos já inteiramente enrugados vão percorrendo a superfície da cabeça, vão remexendo os fios curtos dos cabelos com a familiaridade só possível a quem repete o gesto desde o princípio. Enfim, no dia em que um cafuné de pai não puder ser identificado como tal, aí é que o sentido das coisas estará mesmo revirado do avesso, aí então é que teremos adentrado numa babel de significados indecifráveis. 

De volta à cena, pai e filho estão sentados à mesa de um café de rodoviária, o que pressupõe haver entre eles a iminência da despedida. Ao pé da mesa, estão estacionadas quatro malas, todas têm rodinhas, duas grandes, duas enormes, e o tamanho delas muito provavelmente equivalha à lonjura a ser percorrida, viagem custosa, talvez definitiva, não se sabe quando e se os dois terão um reencontro.

Agora me vem um pensamento infame: se o destino da viagem for o Espírito Santo, então este texto poderá ter um título instigante, daquele tipo ambíguo, cuja graça é dizer uma coisa e ao mesmo tempo dizer outra. Mas não vou falar sobre o que não sei, só faço invenções sobre a verdade do que vejo, e por isso, acatando a máxima de que alguns mistérios merecem preservação, renuncio a maiores investigações a respeito do lugar que, mãos inclementes, estão para arrancar do pai a companhia do filho.

A cabeça sobe como se erguida a partir de uma trincheira, há muitas batalhas pela frente. Tenho dúvidas sobre se os olhos inchados são de cansaço ou de choro, quem sabe a mistura dos dois. Uma mulher e um casal de crianças se aproximam da mesa. Como aparição de objetos santificados, fazem pai e filho levantarem de imediato. O pai percebe que é chegada a hora e então se aproxima do filho, movimentos lentos a quererem adiar o inevitável. É aí que viro o rosto, faço como se evitasse a cena aflitiva de um filme, não gosto de despedidas e além disso sou tocado por uma força interna que, ao menos por este instante, me manda parar de ser enxerido, a privacidade da ocasião não admite plateia, nem sequer a plateia de uma pessoa só.

O gracejo com as crianças é coisa típica de avô. Depois é a vez de abraçar a nora. Desfeito o abraço, ambos trocam sorrisos pretensamente reconfortantes. Por algum motivo a separação se dá ali mesmo, talvez seja pedir muito que alguém presencie filho e netos engolidos pela caixa de rodas apressadas que os levarão dali para longe. Pai e filho voltam a se entreolhar agora à distância, uma distância que aumenta aos poucos e cada vez mais reforça no pai a condição de estar só. Há contudo em seu semblante envelhecido um facho de resignação, a vida é mesmo isso de ter que passar o bastão para frente.

Pensando bem, o título deste texto, sem tirar nem pôr, apresenta a mais singela das adequações que poderia ter.