Três minutos da sua atenção


Você já deve ter visto alguns deles no meio da calçada, estão sempre em grupo e identificados por coletes azul-bebê, vermelhos, verdes, cenouras, a cor varia conforme a causa a que se vinculam, agem como ciganas, com a diferença de não se interessarem pelas linhas da sua mão, e sim pelo quanto de colaboração mensal sua filantropia está disposta a desembolsar.

Primeiro, o sorriso largo, depois, a fala decorada, houve o tempo em que eu parava para ouvir o teor da proposta: sessenta reais por mês são só dois reais por dia, uma bagatela se considerada a obtenção imediata da paz de espírito, da consciência em tranquilidade, o problema é que me sentia mal ao recusar, de verdade. O sorriso da pessoa se apagava imediatamente, ela se afastava birrenta, e aí era preciso lidar com a culpa que me atacava. Estrategista desastrado, decidi nunca mais parar para ouvi-los, dizia estar com pressa e seguia em frente, tratamento rápido, indolor, mas o pior é que eles nunca se dão por satisfeitos, são treinados na cartilha da persistência irrestrita, e então logo me via acompanhado por quem passava a tecer sua persuasão itinerante, proponente a tiracolo. Passados uns cinquenta metros, a minha recusa. Simpatia desfeita, o mesmo muxoxo, a mesma pirraça. No rosto da pessoa, a expressão birrenta intensificada pela frustração de ter que caminhar de volta ao ponto de origem. E é por essas que hoje em dia atravesso a rua quando me deparo com eles.

Três minutinhos da sua atenção? Ela é mais rápida, me cerca, me aborda exatamente no instante em que me preparo para atravessar a rua, colete colorido, crachá, prancheta na mão. Eu me antecipo: Olha, desculpe, eu já contribuo, já faço minha doação. É surpresa ela não insistir, admite não gostar do que faz ali no meio da calçada e confessa que no meu lugar lançaria mão do mesmo argumento. Comenta coisas sobre os filhos, sobre o desânimo do mundo, pergunta minha opinião a respeito do futuro, aponta o dedo para uma cena engraçada. E diz ter um sonho. Diz estar juntando dinheiro para por em prática um plano. Interessante ter mencionado a palavra sonho para logo depois a substituir pela palavra plano numa pressa de corrigir o lapso, não a julgo, de desgosto em desgosto é que se aprende a oprimir o arroubo, a aparar a extravagância.

Interrompe a si mesma e se afasta, volta repentinamente ao lugar onde pululam as abordagens, e não é que agora eu é que faço birra, fiquei sem saber qual é o sonho, qual é o plano, eu poderia reivindicar o revide e também abordá-la para tirar a limpo a inconclusão. Pensando bem, mais importante é deixar que fique pairando no ar a demonstração de alguém que cumpriu a palavra empenhada. Minha atenção esteve ocupada por não mais que três minutos.