Um pônei sem preço


O tamanho que ela tem força a posição na pontinha dos pés. Desse jeito é que consegue observar a movimentação dos produtos submetidos ao leitor do código de barras. A uma criança, a repetição de apitos é mais orquestra e menos o mecanismo que atribui preço às coisas. E então os olhares das duas se desgovernam por um momento curto e disso resulta que uma encare a outra.

– Dá esse pônei pra mim? – propõe a operadora de caixa.

O rosto da menina é todo confusão, estende-se o dilema entre evitar a indelicadeza da recusa e preservar a posse do brinquedo. Depois de permanecer um tempo em silêncio, ela se sai assim:

– Dou. Mas é só pra olhar, não é?!

A operadora de caixa acaricia a crina lilás do pônei, descanso involuntário em meio ao manuseio ágil de tantas compras de final de ano.

– É lindo. E você é uma menina linda, sabia? – diz a operadora de caixa enquanto devolve o pônei.

– Você também é linda – reage a menina.

A julgar pela expressão de surpresa, não é comum que a operadora de caixa receba elogios. A menina percebe ter provocado um desconcerto de satisfação e acrescenta:

– É assim, gentileza gera gentileza.

– Que criança é essa, meu Deus?! – impressiona-se a operadora de caixa, ela se vira para trás, chama a atenção das outras operadoras de caixa, pergunta se alguma delas testemunhou a conversa que travou com a menina prodígio. Ninguém se manifesta, é dia de dar conta de filas intermináveis.

Até então coadjuvante, a mãe da menina recomenda discretamente que a filha se despeça. A operadora de caixa, num ato de subversão, mantém-se inerte pelo tempo em que observa as duas se afastarem, a cada qual o respectivo quinhão de sacolas de compras. Vem aí o próximo cliente, ele entrega um pacote de pão de forma que, diferente do pônei de crina lilás, faz o leitor de código de barras apitar.