Passeio, passagem

 

Da minha janela estava acostumado a ver o passeio que acontecia duas vezes por dia. No início da manhã e no fim da tarde, caminhavam devagar, sempre mantendo certa distância entre eles. Sempre a mesma distância. Parecia medida à régua.

À frente ia o dono. Atrás, carregando sobre as quatro patas o peso de uma longa vida canina, o cachorro de pelo cor de fogo exibia um desfile desengonçado. Um dos primeiros choques de realidade que tive na vida foi descobrir que o andar com oscilação das ancas é característica comum em cães em estado terminal. Os cachorros que já tive não viveram até a fase senil, no entanto me lembro bem que o Joli, um vira-lata do vizinho, em determinado estágio de sua velhice só conseguia se locomover arrastando as patas traseiras. Essas memórias eram despertadas assim que, há até bem pouco tempo, eu parava o que estava fazendo para observar a dupla passar.



Um bisbilhoteiro das coisas do cotidiano vira e mexe se vê transtornado ao se dar pela falta do que lhe ocupava habitualmente momentos de observação. Por dias estranhei o fim dos passeios. A sorte é que os dois são daqui da vizinhança e por isso não demorei a me atualizar sobre as condições do cachorro ao vê-los interagindo entre eles no pequeno gramado que fica na parte da frente do prédio onde moram. A debilidade do cão cor de fogo tem feito com que seu dono precise levantá-lo pelo quadril para movimentá-lo. Certo dia o vi sendo carregado no colo para dentro da portaria.



Hoje em dia, toda vez que saio de casa, altero meu percurso usual de maneira a passar em frente ao prédio do cachorro de pelo cor de fogo. Ao me deparar com sua coloração em contraste com o verde da grama, analiso se as pernas traseiras ainda conseguem ter alguma mínima firmeza no chão. Chama a atenção o quanto elas tremem, fraqueza de decrepitude.



Nessas ocasiões, fico esperando que me olhe de volta, olhos negros e profundos, língua arfante. Quando ele me encara, simulo perguntas, quero saber dele se tem noção de sua finitude, se está preparado, se sente medo. Sua reação é sempre a mesma: desvia o olhar e vai cheirar a flor mais próxima que encontra.


Livros do autor: Viva Ludovico e A vida é um sorvete derretido