Antes fosse poda


– Ela está condenada – diz o homem paramentado com equipamentos de segurança ao mesmo tempo em que olha para o alto, rosto inundado de luz e sombra.

O quarteirão foi interditado, e as pessoas começam a se aglomerar para além dos cones alaranjados, das fitas amarelas, aquelas normalmente usadas para delimitar a cena de um crime, essas são providências necessárias à precaução e, por que não?, servem sobretudo como forma de respeito aos últimos instantes de uma moribunda.      

Ela é centenária, vem sendo testemunha de tudo quanto é mudança nesta cidade, não há exagero em dizer que o seu redor já foi cenário para o desfile de calhambeques e moças vestidas com chapéu cloche em forma de sino. Ao longo do século, tem amenizado o calor, purificado o ambiente, embelezado a paisagem, acolhido inúmeras gerações de pássaros das mais diferentes espécies, por tanto tempo de serviços prestados, não seria então o caso de lhe conceder um último pedido? Mas qual seria o último pedido de uma árvore? Um balde de água fresca que lhe regue as entranhas subterrâneas? Talvez uma lufada de vento, porque desse jeito, enraizada terra adentro, é só pelo vento que uma árvore consegue dançar.

É poda, diz uma mulher, titubeando entre o otimismo e a ilusão. Mas não é, antes fosse. Uma criança tampa os ouvidos com os dedos minúsculos, há mesmo sons cruéis de se ouvir. O barulho da motosserra rasga o ambiente e faz as pessoas balançarem a cabeça em sinal de lamento. Cada vez que os dentes metálicos dilaceram o caule, uma chuva de farelo esvoaçante flutua no ar, derradeiros goles de gás carbônico, derradeiros suspiros de oxigênio. Amarrados por cordas, lá de cima começam a descer muitos galhos e pedaços de tronco, as folhas ainda estão verdes, risonhas, serelepes, o mais difícil é saber que logo estarão ressecadas, descoloridas, desnutridas, mortas. Já não existe o todo, e as partes que restaram se acumulam numa caçamba enferrujada, nunca estamos suficientemente preparados para aceitar a inglória do fim.            

No dia seguinte, vejo que o que sobrou dela é menos que um toco. A árvore sempre esteve ali, o que alimenta a saudade é a paisagem que muda. É mais um vazio com o qual preciso me acostumar.        
          

Desenhos de Sísifo


São desenhos enormes feitos à vista de quem quiser testemunhar a obra em progressão. O traço espesso segue em linha reta e repentinamente altera seu curso, descrevendo agora uma trajetória curvilínea, curva longa e vagarosa que dá forma a um círculo. Tem-se o panorama da figura geometricamente abstrata ou talvez seja o resultado de uma concepção cubista.

O traço espesso é retomado a partir de outro ponto. Em determinado momento, ele deixa de ser contínuo e se subdivide em outros vários traços igualmente espessos e dessa vez executados com movimentos rápidos e curtos. O sol, até então encoberto, dá as caras e despeja no ambiente raios de luz que acrescentam brilho aos desenhos, revelação impressionista.

Sucessão de curvas, parábolas, grandes alternâncias de escala, a obra alcança o estágio de maior produtividade, os desenhos vão surgindo em profusão e servem a todos os gostos, a todos os tipos de classificações, pode ser que ali convivam marcas do simbolismo, do minimalismo, do surrealismo. De qualquer forma, não é bom que os palpites se demorem, é antes recomendável que a contemplação seja bem aproveitada, porque cada desenho tem o tempo de um sonho bom, nasce, embevece e logo se apaga.  

As pessoas atravessam o saguão. Entre elas, um rapaz diminui a marcha, confere o caminho percorrido até ali e constata ser autor de um rastro, ele levanta a sola dos sapatos e imediatamente tem reação de contrair todos os músculos do rosto numa careta de nojo.

Botas brancas, uniforme da prefeitura, cabelos bem presos num coque, tem aparência de estar próxima dos sessenta, mas o vigor é de moça adolescente. Ao avistar sua obra maculada, suspira e deixa os ombros caírem. O esfregão mergulha no balde e ao retornar encharcado faz despejar um jorro de líquido cinzento. Tudo outra vez. Enquanto ela esfrega o chão, vai experimentando novas formas de desenhar.

Expertise em gentileza


Ele pousa a bandeja na mesa e em seguida deixa-se cair para trás na confiança de que a cadeira o ampare, senta-se com a brusquidão de quem quer estourar uma bexiga que lhe ocupa o assento. Não parece ser bom sinal a agitação tempestuosa dos movimentos. O descaso de cada bebericada vai acumulando no pires uma poça de desperdício, ninguém em condições normais de placidez trata sua xícara de café com tamanha negligência. Uma, duas, três mordidas no croissant e então vem a pergunta explosiva:  

– Este croissant é de que mesmo?

– Queijo Minas e orégano.

A voz que responde tem a entonação serena dos diálogos praticados em mosteiros e afins, quem a emite está vestida de avental e boina, peças folgadas que cobrem uma magreza inacreditável, dentro da qual não é possível conceber que haja espaço para acomodar todos os órgãos componentes do corpo humano. A resposta, contudo, não aplaca a impetuosidade. Ao contrário, a agrava. O prato onde jaz o croissant abocanhado é atirado em cima do balcão de vidro, imagine o quanto de barulho há nisso, todas as atenções ao redor agora estão voltadas para a cena.

– Mas esse aí não tem queijo, quero outro. É por isso que o país não vai pra frente.  

A atendente não se altera e, valendo-se de seu abundante reservatório de suavidades, explica:

– É que o queijo derreteu e ficou misturado na massa, todos estão assim, mas o senhor pode pedir alguma coisa diferente.

– Então me vê um pão de queijo mesmo.

Os braços, mãos, dedos esqueléticos manuseiam o pegador, o guardanapo, o pão de queijo, o prato, e isso é feito com o cuidado que se dedica a um almoço dominical. Nesse momento de concentração ao ofício, não há ouvidos que ouçam a pirraça ainda em curso, mas eis que alguma coisa acontece na entrega do pão de queijo, faz-se aí também uma transmissão invisível, o que existe de pesado vai se amainando aos poucos até o ponto em que, consumido todo o pão de queijo sem objeções, a aproximação junto ao balcão já não seja feita aos berros, a manifestação é um pedido de desculpas rascunhado.

– Não é nada contra você não, viu?!

A atendente não sorri, nem poderia, e também não fecha a cara, comporta-se normalmente como se nada tivesse acontecido ou provavelmente esse seja um acontecimento reiterado que leva à conformação. Não sei o que ela tem a dizer sobre por que o país não vai pra frente, mas sei bem o que ela tem a demonstrar sobre como se dão os gestos de gentileza, especialmente aqueles que vergam a virulência.

Reviravoltas de um informante


Nunca falha. Não existe método mais simples, rápido e eficiente para elevar os níveis da autoestima alheia. Pergunte a alguém sobre alguma localização, sobre como chegar a determinado lugar, e se isso for de conhecimento do seu interlocutor, perceba como os olhos da pessoa começarão a brilhar de um modo diferente, provavelmente o peito se estufará e a coluna se ajeitará para a posição ereta, pose confiante de quem domina informações privilegiadas.

Digo por mim. Pode até soar arrogante, mas a verdade é que, por alguns segundos, tenho nas mãos o poder de decidir o destino do rapaz de mochila nas costas que acaba de me perguntar onde fica o centro de apoio social. A resposta demora por duas razões, a mais nobre se refere ao cuidado de indicar a direção bem pensada, imune a extravios, já a menos nobre tem a ver com uma inclinação irresistível que me leva a saborear o controle absoluto do ato de dar as cartas, para onde quer que eu aponte, é para lá que vai, obediente, o rapaz de mochila nas costas.   

– Tá vendo aquela placa de bar? É só um pouquinho depois.

Nessas ocasiões, gosto de conferir o sucesso da minha orientação, lá vai o rapaz seguindo pelo caminho certo, mas, quando já a alguma distância de mim, ele escolhe um passante aleatório e, ora veja só!, volta a pedir informação, quer a ajuda de outrem para ter um norte e isso é o atestado da minha incompetência informativa, é a maior das desmoralizações para um orientador dos rumos urbanos, ou melhor, a maior desmoralização vem agora que o novo informante aponta o dedo para o lado contrário àquele que eu indiquei. Da glória à decadência, resta a mim o constrangimento de bater em retirada, não cai bem ficar à vista na situação em que posso ser acusado de adulterar direções.

Como nunca é fácil prosseguir sob o peso das questões mal resolvidas, dou meia volta e me ponho a percorrer a trajetória da minha orientação, vai que eu não tenha me enganado. Mais à frente, a conferência é facilitada, porque está vindo aí o próprio rapaz de mochila nas costas.

– E aí, amigo, o caminho tava certo? – pergunto hesitante.  

E é assim, enquanto não diz a resposta, o rapaz da mochila nas costas é quem dá as cartas, tem nas mãos o poder de restituir ou não minha vaidade, a vaidade dos que pensam dominar roteiros. 

O gaitista da Praça XV


Em meio a camafeus encardidos, estatuetas de porcelana, coleções de leques, canetas e moedas, capacetes do exército, vitrolas munidas de gramofones, passo em revista as barracas que entre si formam um labirinto atemporal, distrito onde o espólio do antigamente une as pontas das épocas. Uma melodia viaja pelo entorno, subitamente me alcança e interrompe meu encantamento visual. No embate travado entre os sentidos, sou o mediador que dá a vitória à audição, e é menos por vontade própria e mais por me sentir hipnotizado que vou seguindo até a fonte de onde as notas e os acordes são aspergidos, garoa sonora em dia de tempo bom.

Como se guiadas pelo feitiço do flautista de Hamelin, as pessoas são atraídas até estarem próximas à gaita que, ao feitio do lugar, recita clássicos de Lupicínio, Pixinguinha, Cartola. Na feira de antiguidades da Praça XV, uma das barracas tem a vantagem de contar com a presença sedutora de um virtuose do sopro. Do chapéu ao sapato, passando pelas calças e blusa, todas as suas vestimentas são pretas, o bigode volumoso cobre parte da boca e também parte da gaita quando a exibição está em andamento. O gaitista da Praça XV é pitoresco.

Ao final da música, o aglomerado de gente aplaude e em resposta o gaitista curva o corpo, enquanto sorri contidamente. Quem não se contém é o dono da barraca, sobe-lhe uma empolgação daquelas que não medem a qualidade do gracejo: ele toca em aniversário, casamento, aceita tocar até em velório, diz como se assumisse as vezes de empresário do gaitista, que não se deixa abater pela falta de deferência, ele mesmo também tem seus momentos de galhofa, olha para a mulher que admira um dos cachimbos à venda e diz: esse aí foi usado por Van Gogh. O gaitista da Praça XV é pitoresco e parlapatão.

Mais uma música termina, irrompem os aplausos, mas agora alguma coisa incomoda o gaitista, ele chama o dono da barraca e aponta para a roda de samba que circunda a tabacaria do outro lado da praça. Aquele cara do violão não gosta de mim, não pode me ver tocar, já dei um abraço na mulher dele, ou melhor, ela é que me abraçou, não recusei, não sabia que ela era casada, ele diz isso em voz alta, não faz questão de resguardar suas confidências, o gaitista da Praça XV é pitoresco, parlapatão e boquirroto.

O anúncio é feito com entusiasmo, é chegada a hora de ouvir Ataulfo Alves. A careta e os olhos fechados do artista querem dizer que a música já o transportou para outra dimensão, agora só o que se tem do gaitista é a sua figura exótica, todo o resto flutua por lugares insondáveis. Enquanto isso, uma rajada de vento espalha a pilha de antigas cédulas de dinheiro, uma delas, a de cem cruzados, é arrastada para longe e vai parar no chão. O dono da barraca a recolhe, confere sua integridade, encara o rosto de Juscelino Kubitschek e diz: ele não gostou do show. O comentário certamente não perturbaria o gaitista, que ainda está em estado de transe musical. É uma rejeição sem valor.

Algum tempo mais tarde, volto a passar pela barraca quando ali já não há gaitista tampouco gente aglomerada. Sou testemunha de uma conversa, alguém acaba de expressar constatação: depois que ele foi embora, todo o mundo sumiu. Resignado, o dono da barraca balança a cabeça em sinal de concordância. O gaitista da Praça XV é pitoresco, parlapatão, boquirroto e indispensável.

Sol de inverno


Quando o anunciado aquecimento global chegar de verdade e estiver em sua potência máxima, aí então o sol terá se tornado um tirano a se divertir esturricando paisagens, evaporando mares e derretendo geleiras. O pior é que será impossível olhar para o céu, e mesmo se alguém com olhos biônicos conseguir a proeza de vencer o despotismo da luz, sentirá a frustração de constatar que o firmamento terá se descolorido. Lá em cima, a brancura de tudo não será o branco dos dias nublados, será o branco perpétuo que retratará o nada.

Mas enquanto isso não acontece, meu vizinho, que não é bobo nem nada, vai aproveitando as primeiras horas da manhã fria para se banhar de sol, o sol de julho é dócil, é carinhoso feito cãozinho domesticado, e o céu desta época do ano é de um azul mais forte, tinta extraída da paleta das estações, que ao inverno reserva as tonalidades mais carregadas. É por essa razão que meu vizinho não tira os olhos lá de cima enquanto entrega o corpo à incidência do abraço solar.

Na varanda da casa, a cadeira foi instalada na perfeita posição onde possa ser alvo da inundação morna dos raios de sol, fica ali abandonada na maior parte do dia, é preciso acordar cedo para vê-la ocupada pelo senhor esguio sempre de pernas cruzadas, sempre vestido com o mesmo pulôver listrado, nunca lê jornal, nunca conversa com alguém nem nunca pratica qualquer outra atividade que lhe distraia a atenção dedicada exclusivamente ao propósito de acalorar-se. E deixar-se aquecer pelo sol de inverno não é um deleite que demore tanto. Passados uns trinta minutos e meu vizinho já devolveu à cadeira a ociosidade.  

A cerração se dissipa, abrindo caminho para a chegada do astro rei. A luz e a temperatura já estão devidamente ajustadas para o perfeito banho de sol, mas meu vizinho, que nunca foi de atrasar, está mais uma vez ausente, faz alguns dias que é esse descaso com o assíduo e reluzente visitante. Vou a campo, pesquiso, recebo más notícias, a saúde do meu vizinho não anda bem, foi internado, a idade avançada avançou até onde foi se deparar com a armadilha da debilidade. Amanhece, e na varanda, a cadeira permanentemente desocupada é a partir de agora o único ponto aquecido pela convergência dos raios de calor.   

É domingo de manhã, atmosfera fresca e silenciosa. Para chegar à feira livre, atravesso a praça e, surpresa!, lá está ele sentado num banco escolhido estrategicamente por ser destino da incidência do sol. A figura do meu vizinho tem aspecto de miragem, de imagem ressuscitada, o danado arrumou melhor maneira de tomar banho de sol, agora tem à disposição da contemplação um punhado de possibilidades. Acomodado em seu camarote luzidio, vai assistindo ao cenário em que a cidade espreguiça, pulsa, respira, e faz isso de pernas cruzadas, vestido em seu pulôver listrado, uniforme da sorte. E deixar-se aquecer pelo sol de inverno continua a ser um deleite que não demora tanto, quando retorno da feira, o banco da praça já está desocupado.

O sol demora doze horas para iluminar cada metade da terra. E apenas trinta minutos para ir esticando uma vida.

Recreios


Tem sido frequente que eu ladeie as grades da escola justamente no horário do recreio, encontro marcado com a algazarra. É sempre um frenesi erguido ao pico dos decibéis, confluência de gritos em timbre de entusiasmo. O som emitido pela orquestra da empolgação é mais agudo nos dias em que as meninas jogam queimada, correria de lá pra cá, de cá pra lá. Nos outros dias em que os meninos jogam futebol sob a supervisão de um professor de apito na boca, os gritos são mais graves, vozes em transição emendadas pela puberdade.

E basta observar qualquer um dos alunos para perceber o quanto de ansiedade se acumulou até tocar a sineta do intervalo. É a folga o porto consolador que justifica o esforço da viagem, e de intervalo em intervalo vamos saltando sobre poças de agruras, vamos sobrevivendo à árida paisagem das obrigações cotidianas. O menino faz um gol e no rosto dele explode uma euforia imperturbável, crisálida pronta, a alegria não se abala nem com a proximidade da sineta que decretará o fim do intervalo, isso porque a melhor das alegrias é a que está para acabar.

“Hoje vai ter prova mas no final da aula acho que tem futebol”, diz a canção da Legião Urbana, uma canção póstuma, misteriosa, cantada aos sussurros. Ode às compensações do recreio, trata-se de verso pouco badalado, mas que, para mim, carrega um profundo poder  poético muito mais tocante que qualquer “é preciso amar” ou “temos nosso próprio tempo”. É um verso que me joga aos tempos de menino, quando então comprava barras de chocolate e planejava apreciá-las só depois de passado o período das provas. Tantos anos depois, o gosto daquele chocolate, assim como as madeleines de Proust, me faz reviver experiências e então consigo reconstituir como era doce a sensação de alívio e recompensa, breve sabor de vitória. Vou cantarolando o verso da música enquanto, no mesmo horário de sempre, passo em frente à escola, mas hoje a quadra está vazia e há silêncio espalhado por todos os cantos. Os alunos estão de férias.       
Sigo padaria adentro, é um dia cheio para mim e para muita gente em volta, veja aquele homem com o cigarro entre os dedos, ele se agarra ao toco incandescente como quem está pendurado à beira de um precipício e vai sugando até o mais ínfimo pedaço daquilo que certa vez o cronista Luís Henrique Pellanda chamou de feriado portátil. Na xícara ou no copo? Na xícara, e com pires. Espero o café esfriar e o bebo com calma, aproveito cada golada e faço pose de sommelier. Depois, confiro o fundo da xícara, lama formada de açúcar e resquício de café. Acabou.

A revolução dos desenamorados


Não foi distração, não foi negligência, não foi esquecimento. O arranjo de flores está abandonado no banco do ponto de ônibus por deliberado ato de desprezo. Quem o deixou ali teve a preocupação de posicioná-lo bem no meio do banco e também de alinhá-lo verticalmente de maneira a não permitir que ele seja visto em tortuosidade, é um recado sobre não se ter nada contra as flores, mas sim contra a pessoa que as ofereceu como presente.

São flores pequenas, a cor está entre o vermelho e um tom de rosa mais escuro, o vento balança as pétalas minúsculas, uma carícia sinistra que anuncia a iminência da morte. As pessoas se sentam nos outros bancos em respeito ao esvaecimento embalado em papel celofane, todos sabem que não é só o arranjo de flores que jaz agonizante naquele banco de ponto de ônibus, ali também definha uma história.

Confesso não ter dado tanta importância à cena, quase a deixei passar em branco não fosse, coincidência das coincidências, ter me deparado no mesmo dia com um buquê de flores estatelado em meio ao entulho de uma obra.

Oásis de beleza colorida cercado pelo caos, já faz tempo que o buquê está ali misturado entre cacos de tijolos, cascalho, montinhos de areia, sacos vazios de cimento. Desta vez o descarte foi feito sem qualquer delicadeza. Está muito claro que, não havendo lixeira à mão, alguém jogou as flores num lugar igualmente receptivo às coisas sem serventia e não é preciso perícia para saber que elas foram atiradas com a fúria dos passionalmente amargurados.

Tão outrora exuberantes, as margaridas vermelhas agora pendem de seus talos, tombam murchas, apodrecidas. As folhagens transformaram-se em aeroporto para pousos e decolagens dos mais variados insetos. E é só vasculhar o entorno para encontrar muitos pedaços de rosas espalhados por toda parte. Não se pode nem brincar com a possibilidade de o cravo ter brigado com a rosa, porque cravos ali não há. Olhando mais de perto é possível ler o nome, endereço e telefone da floricultura numa etiqueta que acumula as funções de divulgação e de adesivo que fixa o laço ao buquê, um laço já quase desfeito por completo.

Flagro dois meninos carregarem para longe o que restou do buquê, só a imaginação dá conta de especular qual tipo de brincadeira terá como objeto aquelas flores em frangalhos. Certo mesmo é que está em curso uma revolução e é bom que fiquem atentas as pessoas românticas, arrependidas, cafajestes, gratas, galanteadoras de toda a sorte. Vai se disseminando por aí a lição de que é preciso apurar a forma como se quer cativar o outro, flores já não bastam.

Bem-se-vê


Muito frequentemente sou testemunha de uma batalha ferrenha, inclemente mesmo. Tudo começa com um grito agudo, trombeta de guerra. É o sinal que anuncia o pouso do gavião no aro da antena parabólica. Aprumado, sua atenção é suscetível aos mais insignificantes movimentos, ele tem a exata noção do que está para acontecer.

Não demora quase nada e, vindo não se sabe de onde, o primeiro ataque chega em forma de rasante, o bem-te-vi arremete, alça voo até bem alto, manobra as asas com arrojo, faz a curva e depois se atira em direção ao gavião que, atordoado, olha para todos os lados na vã tentativa de se orientar sobre a ofensiva aérea. Cada vez mais próximos do alvo, os rasantes se intensificam e isso é um incômodo difícil de suportar. Por mais que tente resistir, o gavião invariavelmente se rende, decolando afugentado. Mas a contenda não para por aí, segue-se uma perseguição nas alturas, o bem-te-vi não se dá por satisfeito, vai despejando seu arsenal de rasantes até que tenha espantado seu rival para muito longe, e é lá de longe que ele canta vitória, entoa seu grito de guerra, o trinado que nomeia a espécie. Enfim, o resultado é sempre o mesmo, não há uma vez em que o bem-te-vi não bote o gavião pra correr, ou melhor, pra voar.

O bem-te-vi é, portanto, um bicho invocado. Em reforço a isso, a faixa escura que lhe esconde os olhos se assemelha à pintura do guerreiro e o faz parecer estar em permanente irritação. Não bastasse o relato mais acima, há outra situação que evidencia seu jeito arisco de ser.

De quando em quando, ouço um batucar na janela, abro as cortinas e lá está ele bicando o vidro com tamanha fúria que é sempre por pouco que tudo não se estilhaça pelo chão. Essa, aliás, é uma ocorrência comum que tenho visto acontecer em outras janelas por aí e que sempre me levou a questionar por que raios o bem-te-vi não percebe que a imagem no vidro é o seu próprio reflexo e não a figura de um invasor de territórios a merecer descompostura tão violenta.

Mas, para além de ser o infalível elevador das idades, o tempo também serve para mudar o ângulo das ideias e por isso de uns tempos pra cá percebo ter sido injusto com esse pássaro que é a própria animação da bravura, esse valente que, na defesa da prole, desafia e vence um adversário três ou quatro vezes maior que ele. Pensando bem, tenho pra mim que, na verdade, o bem-te-vi se choca insistentemente contra o vidro, não por estupidez. É que sua imagem aprisionada o ofende sobremaneira.

Cidade fria


Faz frio, e o homem em andrajos arrasta o lençol pelo chão como se quisesse varrer os males da cidade. Todas as articulações do corpo se movem em dissonância, o que lhe empresta aparência de robô em curto circuito. Vai para frente, volta para trás, é alguém sem rumo. Na calçada larga, as pessoas desviam dele, evitando o perímetro que o cerca. O seu derredor é uma ilha despovoada. Passos aprumados, ele segue em direção à entrada do shopping e isso logo acende o sinal de alerta no semblante do segurança, sorte dele que o homem do lençol em punho dá meia volta e desiste de entrar, lá dentro faz mais frio.

É o mesmo homem agora deitado na beirada do meio-fio. De volta à sua finalidade original, o lençol cobre o corpo magro e comprido, tão comprido que os pés estão de fora, são pés encardidos que acumulam poeiras das mais diversas proveniências, coletânea de fuligens, mostruário da sujeira disseminada por todos os cantos. Há ali um gesto de generosidade, afinal o lugar que escolheu para se deitar não atrapalha o vai e vem da multidão, e assim a ordem das coisas vai seguindo se cada um se ativer à sua parte. Os braços se cruzam por trás da cabeça e os olhos arregalados procuram o alto, o homem faz subir palavras aos céus, talvez agradeça pela vida ou talvez tire satisfações, de qualquer jeito é um momento íntimo em relação ao qual não prolongo a especulação.   

Pela terceira vez me deparo com ele. A novidade é que o lençol não é mais sua única carga. Ora, vejam só, não é que alguém de coração quente lhe deu uma quentinha. Acomoda-se no chão, faz da calçada sua sala de jantar com vista para um cruzamento movimentado. Faltam-lhe talheres, não se pode ter tudo, principalmente quem não tem nada. Mas ele resolve o problema comendo com a mão, come apressadamente, lambe os beiços, lambe o alumínio da quentinha com a fome dos insaciáveis ou com a insaciedade dos famintos. As pessoas agora desviam o olhar, por respeito, por pena, por náusea. Ao fim da refeição, ele se deita novamente sob o lençol fino e rasgado que agora se estica para cobrir os pés, deixando descoberta a área do peito. É um coração em desabrigo.

Anoitece e eu observo um painel à minha frente, são muitos desses espalhados pela cidade para difundirem informações e propagandas. São iluminados e coloridos a ponto de capturarem, feito tarrafas, um grande punhado de atenções. Notícia após notícia, uma delas parece se destacar das demais: esta será a madrugada mais fria do ano.