Duelo de hesitantes


É um mecanismo rápido e escandaloso. A porta se abre sem a menor cerimônia, deixando à mostra um retângulo vertical e escuro. Lá de dentro, uma imagem vai ganhando forma conforme se aproxima da luz exterior. Bermuda, regata, sandálias de couro, o sujeito desce os três degraus escorando-se nas alças de metal grudadas cada qual em uma metade da porta retraída. Ao pousar um dos pés no chão, ele se desequilibra, a queda não é espalhafatosa, o homem vai ao chão como se estivesse deitando para dormir.

Qualquer um sabe que nesta vida é toda hora que se cai, mesmo assim ele está boquiaberto de surpresa, o que o faz vasculhar, ainda no chão, a causa do incidente, não demorando a constatar que o ônibus parou com as rodas traseiras bem em cima da curvatura de um quebra-molas. Ao se levantar, o homem olha para os lados e se depara com duas testemunhas da cena estapafúrdia, aí é que, além de embasbacado, ele também fica constrangido, e o constrangimento, chave de uma porta infernal que abate os sensíveis e inflama os furiosos, parece ter acendido nele a necessidade de protestar. Viram o que esse cara fez?, pergunta às duas testemunhas, buscando apoio para a sua causa de rebaixado ao raso do chão. Em seguida, posiciona-se na direção em que avista a parte da frente do ônibus. Ao erguer os braços com as palmas das mãos viradas para cima, faz questão de se mostrar reivindicador de alguma satisfação, de algum pedido de desculpas, o que poderiam dizer dele se não desse vazão à revolta?

Desde a queda até agora, é provável que o motorista esteja assistindo a tudo pelo retrovisor. Pois então este é o momento em que ele sai da porta dianteira do ônibus para inspecionar a situação. Enquanto caminha, suspende a calça social de um jeito que é como se o cinto fracassasse em sua função de evitar a frouxidão. Ele se põe a caminhar com movimentos calculados. A princípio, mantém-se inexpressivo, mas isso até quando lhe é atirada uma descompostura: não tem cuidado com os outros?, questiona o homem recém-estabacado.

Eis mais uma vez o danado do constrangimento agora muito visível no comportamento de quem acabou de ter o profissionalismo contestado. O motorista fecha a cara e continua a andar na direção de seu contendor, que também caminha rumo ao confronto. O plano de fundo é o ônibus parado com a traseira levemente inclinada para cima, suas janelas de vidro fumê escondem os passageiros certamente apreensivos sobre o que está para acontecer aqui do lado de fora.

Quando estão muito próximos, cara a cara, ambos param ao mesmo tempo, é como se algum obstáculo se erguesse à frente de cada um dos dois. Por efeito de algum acordo implícito, eles então dão meia volta e se afastam. Após darem dez passos, em vez de se virarem um contra o outro, seguem cada qual seu rumo. Um duelo não é feito por oponentes que decidem relevar.

Raíssa, um flashmob e Getúlio Vargas


O que vai preencher as linhas desta crônica também poderia ser narrado por Getúlio Vargas. Ambos estamos na praça, frente a frente, eu de um lado da cena e ele do outro. Mas, considerando as restrições comuns à imobilidade das peças de bronze, fica impossível saber as impressões causadas a tão inanimada testemunha e por isso não vai ter jeito de a cena ser conhecida senão por meio de uma única versão daquele entre nós dois que, a despeito de não ser ilustre, ainda não saiu da vida.

A praça está ocupada por muitos jovens, é provável que ninguém ali tenha alcançado os quatorze ou quinze anos. O rádio de dimensões oitentacentistas está em destaque sobre uma mesa. As caixas de som plugadas a ele propagam músicas dançantes ao longo das quais os vocais agudos espocam falsetes vibrantes, tudo muito ao gosto dos que têm no corpo reservatório entupido de energia e disponibilidade emocional. Os curiosos vêm se aproximando e agora é só deixar a cargo de um deles a tarefa investigativa, dito e feito, uma senhora pergunta a uma das integrantes do grupo sobre o que se trata a movimentação. É um flashmob, responde a garota. Adivinhando a falta de entendimento da senhora, ela complementa: É uma coreografia que muitas pessoas fazem no meio da rua.

A mesma garota que esclareceu o conceito de flashmob agora está aflita e, puxando o braço de sua amiga, começa a gritar: Vem, Raíssa, vem. Raíssa, porém, titubeia, não vai, fica parada assistindo à amiga que, depois de soltar-lhe o braço, corre para chegar a tempo de participar da coreografia. Ao que parece, Raíssa está dominada por um ataque de timidez. E é uma pena, porque o gorro, as calças largas, a camiseta cortada ao meio e o tênis confortável certamente foram pensados para favorecer estética e funcionalmente a dança.

A coreografia é feita de movimentos vigorosos, todos os rostos reagem com exatidão às sensações expressas pela música: os semblantes simulam ora tristeza, ora raiva e ora contentamento radiante conforme os trechos da letra variam entre o drama amoroso, a decepção e, enfim, o encontro apaixonado. Braços cruzados na frente do peito, Raíssa deixa transparecer a frustração de ser apenas espectadora. Enquanto observa os outros jovens dançarem, lança olhares rápidos para o próprio corpo, e essa alternação a faz murchar cada vez que seu olhar se volta para si mesma. 

A boa notícia é que, depois de um pequeno intervalo, outra coreografia está para começar, e desta vez Raíssa não dá chances à hesitação, atirando-se rumo ao meio do grupo, onde volta a se juntar à amiga com a qual entoa gritinhos de comemoração, quem só agora as vê assim poderia imaginar que este reencontro se dá depois de muitíssimo tempo. Raíssa se posiciona com ares de concentração absoluta. De repente, desdobra-se em movimentos bruscos para acompanhar a música que começa agitada. Ao longo da coreografia, seus passos de dança não são exatamente iguais aos dos outros. Em especial, Raíssa também não é igual aos outros quando sorri durante os trechos da música que expressam drama, decepção. É que Raíssa sorri o tempo inteiro.  

Ao sentenciar que entraria na História, Getúlio Vargas talvez já soubesse que essa coisa de ser memorável também haveria de incluir a pasmaceira eterna de estar imóvel em praças e coretos, expondo-se ao pouso dos pombos que lhe sujam a cabeça, os ombros. Ao menos hoje, porém, congelado na pose em que uma das mãos está enfiada no bolso e a outra está erguida como se segurando um charuto, teve o privilégio de presenciar a história de uma pequena vitória.



Assalto e outras impertinências


Certa vez ouvi dizer que Bob Dylan, em turnê por São Paulo, recrutara o chefe de sua segurança para acompanhá-lo durante uma pequena extravagância: caminhar, madrugada afora, de uma ponta à outra da Avenida Paulista.

Confesso que também já fui de dar meus passeios pela madrugada na ingenuidade de querer testemunhar a cidade disfarçada por uma versão mais intrigante de si mesma. Mas é de se presumir que eu, não sendo Bob Dylan e muito menos contando com um aparato de segurança pessoal, sofresse as consequências de andar por aí numa espécie de expedição ao lado oculto da lua.

Portas descidas pela metade, os bares expulsavam seus últimos frequentadores. Havia silêncio só interrompido pelo estardalhaço de uma ou outra moto acelerando ao longe. Fazia frio, o que explica em parte o casaco trajado pelo homem de mochila que aguardava a minha aproximação para pedir ajuda em favor do sustento da família. Neguei por achar imprudente sacar minha carteira naquelas circunstâncias. E dobrei a esquina.

Enquanto andava, percebi que, paralelo a mim, o homem de mochila me acompanhava do outro lado da rua (agora me veio à mente uma cena do filme De olhos bem fechados, de Stanley Kubrick). Éramos as únicas pessoas que vagavam pelas intermitências de claro e escuro formadas conforme percorríamos as distâncias entre os postes. Lembro ter pensado alguma maneira de recusar outro provável pedido de dinheiro quando então o homem de mochila, numa manobra imperceptível, surgiu à minha frente e com uma das mãos agarrou muito rapidamente a gola da minha blusa de frio, olhos brilhando na penumbra. Acabou a brincadeira, me dá o dinheiro, ele esbravejou enquanto mexia a outra mão encoberta pelo casaco. Por ter acabado a brincadeira, entendi, claro, que agora entregar o dinheiro não admitia alternativa consensual. Tive ainda o espírito de tirar todas as notas da carteira para depois devolvê-la ao bolso de trás da calça. Ao pegar as notas de dinheiro, o atacante precisou me largar e foi aí que aproveitei para correr, ocasião em que escutei ele gritar: Peraí, me dá o celular também. Não obedeci, continuei correndo até quando achei que deveria me virar para conferir. Nenhum sinal dele. Sempre tive quase certeza que a mão por debaixo do casaco não segurava arma alguma. Às vezes prefiro achar que não. Às vezes prefiro achar que sim.

Uma história puxa a outra e agora me lembro da vez em que, saindo da rodoviária, fui surpreendido por um rapaz que se ajoelhou aos meus pés e, com a agilidade de um mecânico que troca os pneus de um carro de corrida, começou a esfregar um produto cremoso nos meus sapatos, ignorando os apelos de que eu não queria o serviço, de que eu estava com pressa, de que não havia razão para que meus sapatos rotos fossem engraxados. Cheguei a ensaiar uma retirada brusca, mas o rapaz, prevenido para esse tipo de reação, gritou de um jeito que parecia que eu era um trambiqueiro disposto a não honrar a dívida.

Ele, enfim, terminou o trabalho indesejado e se postou à minha frente. Estendi uma nota de cinco reais como sinal de rendição. Ele então negou, dizendo que seu serviço custava vinte reais, contestei, discutimos. Mais uma vez cedi e lhe entreguei uma nota de vinte reais. Ele pegou o dinheiro, mas, com cara de impaciência, me advertiu que o preço era vinte reais cada sapato. Tornava-se cada vez mais indignante me demorar naquela situação, ainda mais porque outro rapaz, também carregando apetrechos de engraxate, aproximou-se de nós e, reforçando o coro do colega, passou a me repreender seguidas vezes: anda, dá o dinheiro do cara, é o trabalho dele. Eis o ardil da coisa, qualquer um que testemunhasse a cena naquela altura me teria como inadimplente arrogante. Pois bem, entreguei quase todo o meu dinheiro como passaporte que me pudesse fazer escapar e por fim vi os rapazes se afastarem enquanto nos despedíamos com saudações impublicáveis.

De fato, isso de uma história puxar a outra, de um assunto ter a ver com outro, leva à recordação dos tempos em que, conferindo o extrato de cobrança de um empréstimo, constatei que os juros praticados pelos bancos brasileiros são abissalmente maiores do que a média mundial.



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Perspectivas de um peixinho dourado


A feira é livre, mas essa lógica não serve para os peixinhos dourados que nadam – melhor dizer movimentam-se – nos poucos centímetros cúbicos de água embalada em sacos plásticos pendurados ao longo da barraca.

Olhando de perto, a combinação entre transparência da água, transparência do saco plástico, luz do sol, cor e imagem ilusoriamente deformada do peixe provoca visual digno de exposição em museu de arte moderna. Ainda assim, para além de impressões de luz e cor, o que se sobreleva são questões existenciais ligadas a estas criaturas ensacadas individualmente.

Os peixinhos dourados também devem ter lá os seus sonhos, talvez anseiem por conhecer os oceanos, talvez a condição de estarem solitários em cada um dos seus sacos os faça invejar as espécies de peixe que compõem cardumes, daqueles imensos e populosos que lá no fundo do mar vão se movendo como se dançassem uma coreografia frenética. Pode ser até que desejem só mesmo a tranquilidade de viver em algum aquário ornamentado e com vista para a sala de estar de uma família cuidadosa em salpicar na água, com regularidade de medicação, a comida a base de proteína de plantas aquáticas.

Ao meu lado, um cliente em potencial consulta a vendedora sobre outro tipo de peixe, cuja presença ali eu ainda não havia notado. São peixes também ensacados individualmente e que se destacam pela cor azul-escura e pelas barbatanas imensas, algo carnavalescas. Querendo agradar a garotinha com quem está de mãos dadas, ele revela sua intenção de levar muitos peixinhos, juntando vários de cada espécie. Mas a vendedora, pondo-se acima de qualquer vantagem comercial, troveja uma advertência severa, dizendo que, se colocados juntos, o peixe de barbatanas exóticas, sem dó nem piedade, irá matar o peixe dourado. De imediato a expressão da garotinha vai da euforia à desolação. A vendedora percebe o susto no rosto dela e, tentando aliviar o que a informação trouxe de aterrorizante, faz um gracejo: sabe, é que o peixe Betta é meio encrenqueiro. Mas aí já é tarde. Ao que tudo indica, pai e filha estão desiludidos a respeito da expectativa de criarem uma fauna encantada, a selvageria está mesmo em quase tudo.

Volto a olhar para um dos peixinhos dourados. Agora é ele quem parece fazer análises sobre mim. Posso jurar que me acha ingênuo e é como se sua boca abrindo e fechando sem parar me aplicasse uma lição. Se estar misturado aos seus é a morte, então o melhor dos mundos é estar como ele está.




Ressurreição


Antes árvore, agora sol na tua cara. É o que estava pichado em vermelho no muro branco. Vasculhei o arredor e me alegrei por ter entendido o sentido da frase, orgulho besta parecido ao de quem desvenda uma charada.

A julgar pelo calibre do tronco cortado quase ao rés do chão, a árvore tinha porte suficiente para sombrear um terço da rua, incluindo o muro pichado que agora, exposto, recebia a incidência do sol abrasador. No canteiro onde estavam os despojos da árvore, pequenas flores coloridas haviam se espalhado feito aqueles minúsculos insetos que orbitam a banana passada, e isso, associado ao que estava escrito no muro, legítimo e retumbante epitáfio, dava ao cenário contornos de funeral.

Por dias me auto pressionei com a pergunta intermitente: por que não fotografei? Pois então retornei à rua onde enquadrei com a tela do celular vários ângulos do que a partir de então estava devidamente registrado no catálogo de fenômenos da dinamicidade urbana. E foi sorte.

Digo sorte porque poucos dias depois, como se por efeito de um ato profanador de memórias, o muro foi pintado pela metade, restando do epitáfio as palavras “sol na tua cara”, que, remanescentes e desconexas com o contexto geral da cena, foram reduzidas a um grito incompleto sem força de eloquência. Quem quer que tenha pintado o muro também quis deixar algum recado: seja sobre estender um pouco mais o mísero pedaço da homenagem, seja simplesmente sobre dar mostra da incompetência da zeladoria pública. Ocorre que, na semana seguinte, o muro foi pintado por completo e as florezinhas que coloriam o sepulcro arbóreo foram todas elas ceifadas.

Quis a coincidência, dessas que nos iludem ou, o que talvez dê no mesmo, amenizam nossa desilusão, que neste domingo de Páscoa, 21 de abril de 2019 (os céticos do futuro conferirão no calendário), eu estivesse na rua em que tudo se passou. Não há nada mais que se refira ao memorial da árvore abatida. Só que, sobrevindo ao epitáfio, às flores e ao registro da fotografia de celular, há um ramo que eclodiu do meio do cotoco de tronco ressequido. É ainda fino, frágil, verde, mas aponta na direção do céu.


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Uma obra devagar


A obra na fachada da casa era em tudo avessa ao manual de produtividade frenética dos dias de hoje, nem tanto porque quase nunca se notava avanço significativo da quantidade de azulejos estampados em figuras geométricas que revestiam a parede, mas mais por causa do que os pedreiros faziam em concomitância com o trabalho, já havia presenciado animados debates sobre política e futebol, já os havia ouvido cantar em coro uma música gospel de refrão tocante e até já os havia visto dançar, nem mesmo os montes de areia, pedra e cimento espalhados pelo chão atrapalhavam a evolução da coreografia malemolente. Mas que isso não seja interpretado como procrastinação, ao menos não uma procrastinação clandestina, afinal o próprio dono da casa não raro também participava desses acontecimento de, digamos assim, distração entrelaboral.

Em determinado período, ao passar em frente à obra, eu me deparava sempre com o mesmo pedreiro que, recostado junto à fachada em reforma, segurava um copo americano com café pela metade (como eu sei que não se tratava de um refrigerante de cola? – aqui uso esse termo esquisito, de modo a deixar claro que não faço propaganda, que audácia!, para o maior conglomerado de bebidas do mundo – Bem, primeiro porque ninguém que beba refrigerante recorreria àqueles movimentos circulares tão tipicamente praticados para misturar o açúcar acumulado no fundo do copo. Segundo, porque ninguém que beba refrigerante recorreria àqueles movimentos circulares tão tipicamente praticados para esfriar o líquido preto). A coisa se tornou tão frequente que até começamos a nos cumprimentar, o maneio de cabeça representava o fato de que nos conhecíamos pelo tempo daqueles três segundos diários. E então houve a ocasião em que, diferente do habitual, ao me ver, ele reagiu erguendo bem alto o copo de café, o que entendi ser um brinde aos trâmites desapressados, à divagação em meio ao caos, ao intervalo contemplativo. É como se, ao levantar aquele copo, me advertisse do mesmo jeito como um dia já o fizera o escritor Ambrose Bierce: Companheiro, a pressa é o ritmo dos trapalhões.

Faz muito tempo que não passo pela rua que é endereço da casa cuja fachada está em reforma. Pois então hoje, um domingo, decido conferir se a obra enfim terminou. Ao dar de cara com a casa, constato que na parede ainda há espaço para encaixar muitos azulejos, há montinhos de pedra, areia e cimento num canto e também há um andaime instalado na parte alta da fachada. Ainda bem.


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Papel de vida e morte


Para além de determinado ponto, só passa quem for autorizado. Responsável pela triagem, o segurança não transmite ares de agente autoritário, aliás, está tão assustado quanto as pessoas que se aproximam para se inteirar do ocorrido.  

Atrás do segurança, a variedade de uniformes é indicativo de calamidade, há socorristas, bombeiros, policiais, e é rápido perceber entre eles o elemento destoante, um homem que, em cima da mureta da estação, atrai a soma de todas as apreensões. Questionado por alguém, um jovem ao meu lado é peremptório ao explicar a cena: o cara ali tá tentando se matar. De fato, lá para baixo a queda será definitiva. Camisa preta, calças jeans, cabelos penteados para trás, uma das mãos está enganchada na pilastra, é ela a chave entre vida e morte, enquanto a outra segura um papel dobrado.

Nessas ocasiões, convencer alguém a optar pela vida é tarefa delicada, muitas vezes porque a própria vida dificulta os termos da argumentação. Mas o negociador, bombeiro de farda folgada e mãos cruzadas nas costas, mantém a expressão plácida dos otimistas. É mais que método. Talvez, pela experiência, ele já tenha previsto que o homem não vai pular. Eu mesmo, leigo em percepções psicológicas, acho muito significativo que o homem se segure na pilastra com tamanha firmeza.

Enfim, entre o infinito e o inconstante, o homem opta pela boa e velha precariedade da vida, ele desce com cuidado, entregando-se ao amparo de muitos braços. Estranho é perceber certa decepção em algumas pessoas que até então permaneciam atentas ao desenrolar da situação, a elas, porém, não faltará o tanto de tragédias que pululam a cada esquina, são fartas, são diversas.

O homem ainda segura o papel dobrado. É impossível saber sobre o seu teor. Sabe-se, contudo, do seu uso. Serve agora de lenço para secar o rosto inundado pelo choro compulsivo.


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Dor suspensa


Raio-x. Ultrassom. Mamografia. Palavras em tipografia. Letras metálicas e justapostas na fachada de um muro, de trás do qual a moça surge aos saltos, no estilo Saci-Pererê, um dos pés – pendente, descalço e inchado – é a causa da careta de dor, não uma dor qualquer que caiba em algum relatório anatômico, falo de uma dor mais apropriada a abordagens poéticas e, sendo assim, tomando emprestado o que já disse o poeta, esta é a dor que deveras sente.

Um braço a envolve pela cintura. Quem exerce a função de muleta de carne e osso é um homem mais velho e mais baixo que ela, talvez o gesto funcione como solidariedade, mas na prática demonstra pouca serventia, a moça continua a ter dificuldades para se movimentar, só o que conseguiu avançar aos pulinhos foram míseros metros a custa do esforço estampado no rosto contorcido de padecimento. Aí então acontece a surpresa. Impulsionado por uma ideia providencial, o homem ajusta o corpo e num movimento de muita agilidade pega a moça nos braços e passa a carregá-la, sem que ela, descontado o constrangimento inicial, se oponha à iniciativa.

Ao tomar para si uma missão tão vistosamente hercúlea, ele não transparece incômodo algum, não bufa de cansaço, não cora de acanhamento, o que parece sentir é uma espécie de regozijo heroico. E a composição à la Pietá vai abrindo alas entre a curiosidade das pessoas, que diminuem a marcha, sendo fácil adivinhar que muitos já têm os dedos coçando de vontade de deitar o celular na posição em que a cena inusitada possa ser enquadrada, mais um tema para alimentar o trânsito faminto de redes e grupos.

Eles vão se afastando em direção aos fundos de uma rua. Quando estão na iminência de sumir de vista, ela recosta a cabeça nos ombros dele e chega a fechar os olhos. Quem quer que consiga de algum modo gravar este instante, seja na memória de um celular ou na boa e velha memória da cabeça, tem amostra de como funcionam os dias, esses emaranhados de tempo intercalados de períodos de suspensão da dor, a dor que ela deveras sentiu, sente e sentirá, mas não agora.


Crônicas anteriores: 

O ato de enxugar as lágrimas com o dorso da mão

Sobrecarga

Honra ao Mérito




O ato de enxugar as lágrimas com o dorso das mãos


Só ela está sentada. Ele está de pé ao lado dela, embora ao redor da mesa cadeiras vermelhas com emblemas da Cola-cola estejam disponíveis. Na perspectiva da posição mantida entre os dois, as palavras ditas por ele caem sobre ela, melhor dizer que desabam, e desabam porque têm o peso de um bloco de pedra, o peso e também o potencial de machucar.

À medida que ele fala, as feições dela se contraem, travam luta inútil contra o choro, tentar evitá-lo é, ao contrário, acender sua sanha e assim, por efeito de represa rompida, o rosto é invadido por lágrimas, soluços, baba. O choro desenfreado não o comove, parece, sim, irritá-lo, ele acelera a velocidade da fala e aumenta a variedade de gestos. No redor, as mesas dispostas no calçadão estão ocupadas por pessoas sorridentes que disputam entre si qual delas tem a mais alta tonalidade de voz. Outra coisa que fazem é fingir. Por discrição, fingem não perceber o que se passa na mesa em que paira sobre o casal uma crise, ao que tudo indica, fatal. É claro que eles têm plena noção do que acontece, cada olhar de soslaio, cada viradinha para chamar o garçom, cada ida ao banheiro, todas são alternativas para atualizar como vai o andamento do imbróglio sentimental.

De uma forma ou de outra, todos estão perfeitamente cientes, por exemplo, sobre o que agora ele diz em voz de trovão:

– Se não vai conversar, eu vou embora!

E ele vai. Cabelos cortados conforme a moda das laterais raspadas em degradê, óculos emoldurados por uma armação vermelha, ou talvez seja vinho, ou talvez bordô, bolsa de papelão daquelas em que se carregam roupas recém-compradas, ele caminha resoluto, nem sequer ameaça olhar pra trás, um desfile que para ela é difícil suportar, a cabeça tomba para dentro dos braços enroscados sobre a mesa, menos pela vergonha e mais para interromper a visão daquele afastamento irremediável. E nesse jeito em que a cabeça está afundada no meio dos braços, os detalhes de seu penteado ficam à mostra, o que ela terá pensado enquanto em frente ao espelho modelava o coque ainda caprichosamente intacto? 

Quando levanta a cabeça, nota na mesa a pequenina poça formada a partir de sua tragédia particular, impondo-lhe a medida urgente de levar o dorso da mão aos olhos, pronto, golpe baixo, isto aqui que era para ser apenas um relato, uma descrição fria sobre o cotidiano e suas ocorrências, agora é puro compadecimento, porque, especialmente se levado em conta o jeito como tantas crianças choram, pouca coisa merece mais compadecimento do que o ato de enxugar as lágrimas com o dorso das mãos. Em seguida recorre ao celular, instrumento que além de todas as suas serventias usuais também é muleta para situações constrangedoras. Lança um olhar vazio para a tela, faz uma ligação e depois bate em retirada tão rápido que é como se conseguisse desaparecer.

Munido de pano e borrifador, o garçom se apressa em limpar a mesa de modo a poder acomodar os próximos clientes. Esfrega uma parte dela até se deparar com a mancha úmida. Suspende a tarefa imediatamente. Decide então deixar de secar aquele resquício de drama. Ao que parece, não se mete a querer interferir na missão que só ao tempo incumbe.

Sobrecarga


Tiago, um pão na chapa, grita a moça do caixa sem olhar para trás e enquanto manuseia o troco. Tiago, pão com ovo, grita quase ao mesmo tempo a moça do balcão e é também do balcão que outro atendente cobra: Tiago, o pão na chapa já tá pronto? Adianta um suco de laranja pra mim. Se você se considera uma pessoa atribulada, tente então se colocar no lugar do Tiago, chapeiro de padaria lançado às feras famintas que às sete da manhã espumam o máximo de impaciência por estarem em estado de jejum.

Tiago é magro e muito alto de um jeito que, para manusear a chapa, sua coluna se enverga na altura do pescoço. O bigode fino e ralo é próprio da puberdade, evidenciando que a idade não passa dos dezoito. Depois de ajeitar o boné com a mão encapsulada numa luva de plástico transparente, ele diz: Peraí, gente, vocês têm que organizar melhor isso aí. E é mesmo assim, desde que o mundo é mundo a balança da vida pende para comprimir aqueles cujo fardo é pesado. Não à toa que, em Mateus, tão discípulo quanto o xará do nosso valente chapeiro, é feito o convite: Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei, talvez mais tarde, porque neste exato momento Tiago esfrega com um pano molhado toda a extensão do balcão enquanto deixa os pães, ovos e queijos fritando na chapa.

Uma das atendentes é Cida, sabe-se o nome dela porque Tiago a consulta a todo tempo para esclarecer detalhes sobre os pedidos. Cida, é pão francês ou de forma? Ela tem a ideia de anotar o nome dos fregueses nas respectivas comandas. Qual o seu nome? Mas por que preciso falar meu nome? É pra te chamar quando estiver pronto. A desconfiança do freguês parece ter abalado Cida, que então retoma o velho método das comandas inominadas. O atendimento, agora feito com ar reservado, é fruto da decepção indisfarçável. Daqui pra frente, sem maiores pessoalidades.

Os pedidos continuam sendo anunciados em profusão, mas agora sem que alguém dê conta deles, adejam a ermo, alguma coisa não vai bem. É Cida quem olha para trás assustando-se ao perceber a chapa abandonada, cadê o Tiago? Todos os balconistas se entreolham apreensivos, a tensão vai crescendo conforme as comandas se acumulam irresolvidas. Quando tudo avança para o mais irremediável caos, lá nos fundos da padaria uma porta, daquelas que vão e vêm no estilo saloon do velho oeste, é aberta com estridência. Tiago acaba de atravessá-la abraçado a uma cesta enorme e abarrotada de pães. Antes mesmo que o questionem, ele se justifica: Não tinha ninguém pra ir buscar.