Filipeta invulgar


A calçada é mundo de percursos caóticos, trajetos que se cruzam e é toda hora que alguém desvia de um encontrão, a calçada é território invadido por um andar destoante, na verdade não é propriamente um andar, é um desfile vagaroso que ziguezagueia entre a confusão de gente. Sandálias, short curto, dedos entrelaçando repetidas vezes os cabelos tingidos de loiro, os trejeitos voluptuosos compõem uma personagem de si mesma. Como se afagasse um hamster de estimação, ela acomoda nas mãos a pilha de filipetas, tem uma missão a cumprir.

Ela é meticulosa em distribuir os panfletos, a seletividade recai sobre homens e necessariamente homens que não se façam acompanhar por alguma presença feminina. Tem preferência pelos ambulantes de gêneros alimentícios, alvo fixo, provisão certa, o moço da banca de churros é gentil, tenta entabular diálogo, mas ela evita maiores aproximações, mantém o profissionalismo, já fez a divulgação e vai se afastando para retomar seu intento. Aliás, que fique bem claro que há nela um traço de timidez, nunca é dada a conferir as reações causadas pelo conteúdo dos panfletos.    

O vendedor de água de coco, disperso em seu intervalo de ociosidade, nem imagina o que daqui a alguns segundos reterá a atenção de seus olhos, a filipeta lhe é entregue, e é curioso assistir aos vários músculos do seu rosto se contraírem no que de início parece ser espanto, mas agora já é contentamento, passando pela expressão de quem alimentou fartamente o imaginário. Dois rapazes esperam a mulher loira se distanciar para então cair numa gargalhada ginasial, para eles é inusitado receber esse tipo de oferta à luz do dia, à vista de todos, e vão zombando da situação enquanto afundam os papéis nos bolsos das respectivas calças.  

Nesta altura, a jornada publicitária está em evidência, já são muitos olhares acumulados na direção da figura dela, e isso parece ser sinal de missão cumprida. Ela então se encaminha para onde encontra outras duas mulheres também munidas do que sobrou de suas filipetas. Certas de que a propaganda é a alma, e no caso, a carne de seus negócios, elas desaparecem, deixando o legado de ter espalhado rebuliço num perímetro em que costuma reinar a mais insossa das rotinas. Pelas próximas horas, por aqui não faltará assunto.

A distribuição de propaganda impressa é eficaz em fazer do chão vitrine rebaixada. Olha-se para baixo e lá estão o encarte de preços, o sorriso do candidato à presidência do sindicato dos aposentados, vote chapa um, o anúncio de dentistas populares, de videntes que são uma espécie de Sedex Dez do amor, de compradores de ouro. Mas hoje não: no chão nem sequer uma filipeta descartada.

Cartola falou comigo


Ele já está ali por muito tempo e eu demorei a perceber. Óculos escuros, cabeça esbranquiçada, rosto longilíneo, xicrinha de café levada à boca numa suspensão que vai durar para sempre. Uma das vantagens de se locomover sem carro que te carregue é poder descobrir Cartola à espreita, é poder se imaginar tomando café com ele. Ele observa tudo em silêncio, mesmo assim é como se cantasse mais alto que o barulho das betoneiras e do bate-estacas que por trás dos tapumes vai cavando o abismo aos pés da cidade.  

Agora é assim, todos os dias, de tormenta ou de bonança, deixo crescer a expectativa de encontrá-lo, e ele sempre está lá, presença assídua que conforta lacunas, solução para distrair inquietudes. Por uma dessas conexões misteriosas que rondam por aí forjando coincidências, sem mais nem menos calhou de eu me deparar com o documentário “Cartola – Música para os olhos”, já reparou que visita boa depende de como se cuida da porta? E a partir disso, sem sobrecarregar a benevolência que a aleatoriedade traz nessas ocasiões, eu mesmo tenho ido à procura de suas músicas, relembro clássicos e aprendo versos que nunca podia ter deixado de conhecer, veja se não é uma belezura: Fita meus olhos/Vê como eles falam/Não abuses por eu te confessar/Que nasceste só pra eu te amar/Gosto tanto tanto de você/Que meus olhos falam o que não veem.

Mas o tempo tem essa coisa de moer a resistência de tudo, venho notando Cartola se esvair aos poucos, a intempérie o tritura sem piedade. Já não vejo parte dos óculos escuros, a xicrinha sumiu por completo, o nariz e os cabelos estão insulados na superfície do tapume, não demora e tudo estará descolado, não restará o menor resquício de algum pedacinho do lambe-lambe. De mais a mais, é da própria natureza do tapume não se perpetuar por ali. Logo, o que fica é o recado dado. Sua bênção, Seu Angenor.

O derredor é farto em surpresas, é só se atentar ou às vezes nem isso, um olhar distraído para o lado e pronto. Grafite recém-terminado, pode ser que tenha vida longa se não cismarem de afogá-lo com rolo embebido de tinta monótona. Cabelos desgrenhados, óculos redondos, sorriso monalísico, recado iminente. Em determinado ponto do meu caminho lá está John Lennon à espreita.

Três minutos da sua atenção


Você já deve ter visto alguns deles no meio da calçada, estão sempre em grupo e identificados por coletes azul-bebê, vermelhos, verdes, cenouras, a cor varia conforme a causa a que se vinculam, agem como ciganas, com a diferença de não se interessarem pelas linhas da sua mão, e sim pelo quanto de colaboração mensal sua filantropia está disposta a desembolsar.

Primeiro, o sorriso largo, depois, a fala decorada, houve o tempo em que eu parava para ouvir o teor da proposta: sessenta reais por mês são só dois reais por dia, uma bagatela se considerada a obtenção imediata da paz de espírito, da consciência em tranquilidade, o problema é que me sentia mal ao recusar, de verdade. O sorriso da pessoa se apagava imediatamente, ela se afastava birrenta, e aí era preciso lidar com a culpa que me atacava. Estrategista desastrado, decidi nunca mais parar para ouvi-los, dizia estar com pressa e seguia em frente, tratamento rápido, indolor, mas o pior é que eles nunca se dão por satisfeitos, são treinados na cartilha da persistência irrestrita, e então logo me via acompanhado por quem passava a tecer sua persuasão itinerante, proponente a tiracolo. Passados uns cinquenta metros, a minha recusa. Simpatia desfeita, o mesmo muxoxo, a mesma pirraça. No rosto da pessoa, a expressão birrenta intensificada pela frustração de ter que caminhar de volta ao ponto de origem. E é por essas que hoje em dia atravesso a rua quando me deparo com eles.

Três minutinhos da sua atenção? Ela é mais rápida, me cerca, me aborda exatamente no instante em que me preparo para atravessar a rua, colete colorido, crachá, prancheta na mão. Eu me antecipo: Olha, desculpe, eu já contribuo, já faço minha doação. É surpresa ela não insistir, admite não gostar do que faz ali no meio da calçada e confessa que no meu lugar lançaria mão do mesmo argumento. Comenta coisas sobre os filhos, sobre o desânimo do mundo, pergunta minha opinião a respeito do futuro, aponta o dedo para uma cena engraçada. E diz ter um sonho. Diz estar juntando dinheiro para por em prática um plano. Interessante ter mencionado a palavra sonho para logo depois a substituir pela palavra plano numa pressa de corrigir o lapso, não a julgo, de desgosto em desgosto é que se aprende a oprimir o arroubo, a aparar a extravagância.

Interrompe a si mesma e se afasta, volta repentinamente ao lugar onde pululam as abordagens, e não é que agora eu é que faço birra, fiquei sem saber qual é o sonho, qual é o plano, eu poderia reivindicar o revide e também abordá-la para tirar a limpo a inconclusão. Pensando bem, mais importante é deixar que fique pairando no ar a demonstração de alguém que cumpriu a palavra empenhada. Minha atenção esteve ocupada por não mais que três minutos.

Sensibilidades


Tem jeito de forasteira, andarilha sem bússola, cabeça sem bússola. Debruça na cerca de ferro. Insensível às lanças, pele pressionada, pontas afiadas. Tem comida aí? Tem sobra do almoço? Aquele restinho de feijão, aquele restinho de arroz que fica na panela, tem? A pessoa destinatária lá dentro da casa, não dá pra saber, não dá pra ver. Arremate da súplica é dizer não ter lembrança de quando comeu por último, foi pão mofado ou foi banana sem graça, cabeça sem memória. Agora não diz mais nada, espera, mostra os dentes pra quem passa, não é sorriso, os braços de novo se acomodam em cima das pontas das lanças de ferro, não importa, não dói, não machuca, não sente. De dentro da casa o que será que vem? Pra ela não é suspense, é impaciência. Tá demorando muito, hein, fizeram banquete!? Da casa à cerca, pernas se arrastando em travessia lenta, velhinha de tudo, jeito de avó, é frágil, porém forte, recorrer a ela é boa sorte, tem autoridade de gente generosa, escapa fumaça de dentro do pote grande de margarina. Cuidado, tá quente. Também veio colher de plástico e até guardanapo de papel. Ela sai pela rua debelando a fome, dispensou a colher de plástico, come com a mão. Quer sentir. E vai sentindo o contato da comida grudando nos dedos. 

Flanador em transe


Faz do piso cama. A cabeça apagada de tanto álcool não distingue confortos. Orelhas escondidas por baixo do fone de ouvido, precaução contra a barulhada da feira livre, entorpecimento pesado, nem precisava tanto, pode ser gentileza de quem zela pelo descanso alheio e reconhece no sono a dádiva de fragmentar a vida em intervalos de escape, qualquer sono é digno de preservação também porque é ele que nos iguala em fragilidade e insignificância, mas pode ser que o fone de ouvido pertença ao próprio adormecido, apetrecho itinerante para ocasiões de apagamento.

Susto por despertar prematuramente, desnorteio de se perceber emergido num mar de gente, ele tira o fone de ouvido e o deixa enganchado no pescoço, caminha cambaleante para não sabe onde, e isso é um perigo, a avenida movimentada é logo ali, navegante à deriva seguindo direto para a queda d’água. O asfalto é terreno minado para quem a orientação de espaço é quase nula, ele o acessa, incauto, delirante, elemento intruso no corredor das pressas automotivas, aí vem o desastre, contagem regressiva para o atropelamento, mas as mãos no volante sabem muito bem girá-lo na intensidade precisa, tempo certo,  manobra perfeita, tremei piadistas, quem faz o desvio com destreza e elegância é uma motorista que dentro do carro vai balançando a cabeça negativamente enquanto segue o fluxo, ufa.

Atrasado, só agora identifica o risco, apressa os passos trôpegos e alcança o outro lado da avenida, ó trabalheira ao anjo que o guarda! Parece ter encontrado um rumo, segue para o memorial onde três mastros equidistantes elevam as bandeiras do município, do estado e do país, deita ali mesmo embaixo dos panos tremulantes, há muito ainda de entorpecimento para escoar pelo sono profundo, mas não demora e ele já está novamente de pé, talvez a cobertura cívica seja propícia a pesadelos.

Nômade frustrado, retorna ao ponto de origem, panorama de pernas e pés. Incomodado por estar desperto, altera posições numa revolta contra a insônia e é aí que se dá conta de um lapso, recorre então ao fone de ouvido, mergulha no silêncio e agora sim dorme. Sobre ele vão sendo despejados olhares de pena, de reprovação e de inveja, sim, inveja, afinal quem às vezes não se vê assaltado pela vontade de sumir?

Dança graciosa


Sei quem é ele, mas não sei se ele me reconhece, muitos rostos pela frente a quem já pediu cinco e cinquenta. A mim, já pediu várias vezes, me dá cinco e cinquenta, moço? É um mistério a estipulação do valor quebrado, por que não dois, cinco, dez? Por que faz questão dos cinquenta centavos? Curioso também nunca haver correções monetárias, nem mesmo a inflação é capaz de alterar o preço da caridade.

Certa vez se irritou comigo, dei punhado de moedas e era muito menos que cinco e cinquenta, isso é só o que eu tenho, justifiquei. Depois de contar as moedas ele fez cara feia, não sei bem se por causa do pequeno montante apurado ou por causa da mentira.

Sei quem ele é e acho que ele não me reconheceria e não reconheceria ninguém agora que se ocupa de dançar, passo pra frente, pro lado, pra trás, pro lado, pra frente, os pés delineando quadrado no chão, território só dele, é onde ele cabe, albergue da cadência compenetrada, leva muito a sério o jeito de movimentar o corpo conforme o rumo que a música dá.

Outros dançam ao redor, exibem coreografia ensaiada, alguns erram, tentam acompanhar e é sempre que vai ser essa coisa de topar por aí com gente buscando se enquadrar. E ele ali ao lado vai dançando por si mesmo, bailado aleatório. É inesperado que a música suma assim repentino, sequestro abrupto do som, problema com o equipamento, bateria esgotada, alguém comenta. O motor do corpo se desliga, dança interrompida, logo se nota a decepção no semblante dele, não quer ser devolvido a um mundo estático.

Ajustaram o equipamento, e a música ressurge feito notícia boa. Ele volta a dançar sem titubeio, a vibração do som é força que lhe incorpora. A Festa Charme ao ar livre é pra qualquer um, dança quem quiser e ele dança pelo tempo de não precisar pensar em pedir cinco e cinquenta, a graça da dança é que dançar não custa nada.

Conc(s)erto do dia


Sábado à tarde no centro é uma pasmaceira, dá gosto de sentir o vento solto, vai e volta sem risco de se chocar na cara sisuda, na lataria fedendo a óleo diesel. E é só na pasmaceira e é só quando as passadas se afrouxam, sem pressa, sem destino, é só assim que ainda é possível descobrir surpresas.

À frente, a fileira de crianças mais baixas. Atrás, as mais altas. Não, não é coro de natal, nada aqui invocará flocos de neve tampouco pinheirinhos cintilantes, a cantoria tem a ver com Lulu Santos, Tim Maia, uma luz azul me guia com a firmeza e os lampejos do farol. Tudo acontece na entrada de uma galeria, túnel de lojas fechadas. A afinação, coisa apurada, merece atenção, vai juntando grupinho de gente, mãos erguendo celulares na horizontal, uma placa de propaganda cai ali do lado, alguém corre e a levanta depressa. É mais gente que chega. Entre uma canção e outra, aplausos, assobios e até pedido de bis. 

Repare aquele ali de óculos, canta olhando para cima. Aquela ali, a pequenininha da ponta, domina a letra, o tom, ela também canta com a cabeça erguida. Bendita a professora que eleva as crianças, bendito o coral que faz as pessoas darem as costas para o traçado retilíneo da avenida. A placa de propaganda cai mais uma vez e logo alguém a levanta prontamente. A vida vem em ondas como um mar num indo e vindo infinito.

Maestrina de sonhos, a professora se apresenta, explica o projeto, braço esticado apontado para os pupilos, aí vêm os aplausos, ponto vibrante no centro ermo da cidade extenuada. A professora e as crianças agradecem, se despedem, avançam galeria adentro, camarim tão estreito para acomodar a soma de tantas esperanças. Tudo que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo. Na calçada, a placa de propaganda volta a cair, permanece caída, ninguém a levanta.

Apocalipse agora


Luz verde. Duas mulheres olham apreensivas para o semáforo, a troca das luzes lhes impõe uma missão. Luz amarela. É hora de se prepararem. Enfim, agora que o círculo vermelho acende, não perdem tempo em ocupar a avenida, postam-se à frente dos carros, segurando cada qual a ponta de uma faixa. Fazem isso sem qualquer entusiasmo, há no entorno delas uma evidente aura de constrangimento, ombros caídos, languidez nos olhos. Se ainda anunciassem o sonho da casa própria, algum saldão de ofertas ou as trinta e seis prestações que possibilitem a aquisição do mais arrojado dos automóveis SUV, mas o fato é que carregam o fardo pesado de terem que alertar a todos sobre questões apocalípticas.  

Você está preparado para o apocalipse? É o que está escrito na faixa. Os motoristas e os pedestres leem a interrogação e inicialmente são tomados pela reação de quem se põe a refletir, cada um vai formulando sua resposta interna, mas isso dura pouco e logo se vê que os semblantes já estão novamente tomados pela impaciência, pela pressa, pela ansiedade, não é difícil imaginar a enorme figura do relógio mental que os assombra ao piscar incessantemente avisos sobre o horário da consulta médica, sobre o horário da escola dos filhos. Antes do apocalipse, há ainda muitos compromissos e preocupações com os quais é preciso lidar.

Chinelos de dedo, calça social, camisa de linho, um senhor pedala sua bicicleta pelo canto da avenida, deixa de girar os pedais e vai diminuindo a velocidade até parar junto ao meio-fio, já faz tempo que observa o teor da faixa estendida à sua frente. Agora olha para a calçada e procura alguém que possa esclarecer uma curiosidade: vocês acreditam nisso? Sem se importar com o fato de ter sido ignorado, ele retoma as pedaladas não sem antes emitir uma declaração para se for o caso de alguém querer saber: já passei tanta coisa na vida que tudo o que vier é lucro.

Num cruzamento movimentado, o maior dos pecados é a lentidão. Por mínima que seja a percepção de que algum veículo atrasou o arranque, tem-se aí motivo para a aplicação de um castigo cruel, que é o berro uníssono de muitas trombetas infernais, se a buzina estridente é o grito dos perturbados, dos irascíveis, a cidade se tornou a orquestra da insensatez. E é em meio a esse som ambiente que as duas mulheres continuam estendendo a faixa, juntam-se a isso o calor, a poluição, a exposição, o desconforto de serem alvo de olhares zombeteiros. Pelo que tudo indica, já estão tratando de se preparar.

Viagem à fantasia


Do fundo do ônibus quase completamente vazio tenho o panorama de todas as fileiras de bancos e é numa delas, mais precisamente no lado esquerdo, que avisto algo insólito, orelhas enormes, tromba felpuda, cor cinzenta, olhos e sorrisos infantis. É hora de descer, percorro o corredor enquanto me equilibro entre alças e canos de ferro, passo ao lado do banco onde está sentado um velhinho que, ao perceber minha presença, me encara e começa a gargalhar, boca desfalcada de muitos dentes. Na cabeça veste um chapéu em formato de elefante, está orgulhoso por usá-lo, é dele que parece vir toda a alegria do mundo.

Quando embarquei, os três adolescentes já estavam no ônibus, dois rapazes, uma moça. A maquiagem de um dos rapazes já se desfez, sobraram apenas manchas, mas a peruca verde e o casaco arroxeado não deixam dúvida sobre ser aquela uma fantasia de Coringa, o outro rapaz fantasiou-se de Robin, há portanto aqui uma ausência notória, o que me faz concluir que o itinerário deste ônibus não passa pela Batcaverna. E se engana quem imagine que a moça esteja fantasiada de Mulher-gato, não mesmo, ela escolheu vestir-se de pijama, mangas cumpridas, calças largas, desenhos do Dumbo por toda a parte, as pantufas estão preservadas numa sacola plástica, o que dá conta de pisar o assoalho sujo do ônibus é o bom e velho tênis All Star.

Ao frescor da manhã recém-nascida, junta-se um leve aroma etílico, os três fazem um apanhado do que de melhor aconteceu na festa que ao terminar há pouco os devolveu para a realidade, cada lembrança, cada relato é motivo para a sincronia dos sorrisos. De repente, a moça abre a janela e é atingida por uma lufada de vento. Preocupados, os rapazes perguntam se ela se sente mal e ela responde que não, ao contrário, sente-se tão bem que é preciso achar espaço para deixar expandir a sensação que já não cabe nela. E os amigos continuam sorrindo, fazem troça entre si, conversam animadamente, pode ser que daqui a alguns anos os caminhos da vida os distanciem, talvez no futuro nunca mais se encontrem, nunca mais se vejam, mas durante esta viagem a amizade entre os três é nó que nada pode desatar.

Aproveitando-se que o ônibus está parado, o trocador sai com pressa e corre para longe, desaparece e isso dificulta qualquer investigação sobre a razão da escapatória. Da janela, vejo que ele agora retorna ainda mais apressado. Sapato, calça, barriga avantajada, surpreende que desenvolva tamanha velocidade. Quando próximo à janela do motorista, encerra a corrida e imita a pose que Usain Bolt costuma fazer após cada uma de suas vitórias, a fantasia lhe cai muito bem. Vasculho o redor para me certificar se mais alguém presenciou a cena, os três adolescentes estão distraídos entre eles, certamente não viram, mas há um homem sorrindo do outro lado do ônibus, nós dois trocamos gestos de cumplicidade por reconhecermos um ao outro como testemunhas privilegiadas.

É o fim da viagem para o trio de amigos. Acionam o sinal, seguem pelo corredor em direção à saída. A moça vai por último, fica para trás porque alguém sentado num dos bancos prende-lhe a atenção, simpatia recíproca. Ela então retira da cabeça o chapéu em formato de elefante e o entrega ao velhinho desdentado que aceita a oferta no ato, leva à cabeça a transmissão de toda a alegria do mundo.

Antes fosse poda


– Ela está condenada – diz o homem paramentado com equipamentos de segurança ao mesmo tempo em que olha para o alto, rosto inundado de luz e sombra.

O quarteirão foi interditado, e as pessoas começam a se aglomerar para além dos cones alaranjados, das fitas amarelas, aquelas normalmente usadas para delimitar a cena de um crime, essas são providências necessárias à precaução e, por que não?, servem sobretudo como forma de respeito aos últimos instantes de uma moribunda.      

Ela é centenária, vem sendo testemunha de tudo quanto é mudança nesta cidade, não há exagero em dizer que o seu redor já foi cenário para o desfile de calhambeques e moças vestidas com chapéu cloche em forma de sino. Ao longo do século, tem amenizado o calor, purificado o ambiente, embelezado a paisagem, acolhido inúmeras gerações de pássaros das mais diferentes espécies, por tanto tempo de serviços prestados, não seria então o caso de lhe conceder um último pedido? Mas qual seria o último pedido de uma árvore? Um balde de água fresca que lhe regue as entranhas subterrâneas? Talvez uma lufada de vento, porque desse jeito, enraizada terra adentro, é só pelo vento que uma árvore consegue dançar.

É poda, diz uma mulher, titubeando entre o otimismo e a ilusão. Mas não é, antes fosse. Uma criança tampa os ouvidos com os dedos minúsculos, há mesmo sons cruéis de se ouvir. O barulho da motosserra rasga o ambiente e faz as pessoas balançarem a cabeça em sinal de lamento. Cada vez que os dentes metálicos dilaceram o caule, uma chuva de farelo esvoaçante flutua no ar, derradeiros goles de gás carbônico, derradeiros suspiros de oxigênio. Amarrados por cordas, lá de cima começam a descer muitos galhos e pedaços de tronco, as folhas ainda estão verdes, risonhas, serelepes, o mais difícil é saber que logo estarão ressecadas, descoloridas, desnutridas, mortas. Já não existe o todo, e as partes que restaram se acumulam numa caçamba enferrujada, nunca estamos suficientemente preparados para aceitar a inglória do fim.            

No dia seguinte, vejo que o que sobrou dela é menos que um toco. A árvore sempre esteve ali, o que alimenta a saudade é a paisagem que muda. É mais um vazio com o qual preciso me acostumar.