A redenção dos bichos


O posto de rei das selvas precisava ser atualizado. Uma área descampada passou a servir de palco para os embates. Defendendo o seu reinado, o leão até então havia vencido todos os animais que ousaram enfrentá-lo, restando como último adversário um rinoceronte natural das savanas mais arbóreas ao sul. O leão achou que suas vitórias haviam sido muito fáceis e por isso queria uma luta final mais desafiadora. A solução foi transferi-la da área descampada para a paisagem de matagal, lugar com o qual seu oponente estava mais familiarizado. Mesmo com um pouco mais de dificuldade, o leão, enfim, venceu. Sua conquista foi menos entediante, e ele foi confirmado como rei das selvas, ao menos até o dia seguinte quando morreu vítima de um tipo de carrapato insaciável só encontrado em regiões de matagal. Por justiça, o carrapato foi então declarado o novo e legítimo rei das selvas.
Essa é uma fábula de arrogância, prepotência ou simplesmente de ingenuidade quanto a agarrar-se a uma condição de importância ilusória que se atribui a si mesmo. Há nela algo de Davi e Golias, algo de Cavalo de Troia e, mais especificamente quanto ao leão, há muito do homem.
O homem, essa criatura tão habituada a engaiolar passarinhos, a confinar bois e porcos, a envidraçar peixes, quem diria, agora está trancafiado porta adentro sem previsão de poder voltar a espalhar perturbação por aí. Ora, ora, pois então é a vez de os bichos irem à forra. Mais à vontade, sossegados e imunes, terão oportunidade de observar, do lado de fora, a aflição da humanidade enclausurada, talvez até se distraiam com o que poderia ser definido como um jardim zoológico às avessas.
Por essa razão, em pleno ambiente urbano, surgem tipos de bichos que em condições normais não costumam se expor ao temerário convívio com o homo sapiens. Da minha janela, já acompanhei a revoada de três tucanos que por alguns minutos fizeram escala em calhas e antenas parabólicas. Também já me deparei com um gavião rajado que se demorou em pose altiva na cumeeira de um telhado. São tempos em que passei a ouvir com frequência, vinda das árvores do entorno, a algazarra de miquinhos serelepes e histriônicos. Como se não bastasse, testemunhei a aparição de uma ave belíssima que até então eu desconhecia. Depois, em consulta ao google com os termos “ave, cara preta, peito branco, asas roxas”, descobri que se tratava de uma gralha-do-campo. E ainda quanto a toda essa desenvoltura dos bichos, quero falar sobre Orfeu.
Dei o nome de Orfeu a um gato que, ao longo da quarentena, se revelou muito afeito a passeios noturnos, honrando uma das mais inerentes tradições felinas. Sempre antes de dormir, quando me aproximava da janela para fechá-la, lá estava ele misturado à escuridão da rua, confortável em sua solidão, os movimentos camuflados pelo silêncio eram quase imperceptíveis. Por noites e noites, como se em obediência ao horário de um remédio, cumpri o ritual de observar a caminhada vagarosa e elegante de Orfeu. Mas houve a ocasião em que, desastrado, cometi o erro de fechar a janela com muita força. Orfeu se assustou e se virou abruptamente para a minha direção. Seus pequenos olhos brilhantes me encararam com desgosto. Antes de retomar a caminhada, deixou que seu olhar de fuzilamento exprimisse um tipo de bronca tão contundente que, embora direcionada a mim, serviria para qualquer outro ser da minha espécie. A partir de então, na hora de fechar a janela, nunca mais voltei a ver Orfeu. Quase nada é tão constrangedor quanto se perceber indesejado. É o sinal de uma derrota.


Livros do autor: 

A vida é um sorvete derretido




      
Viva Ludovico

Me solta


Foi-se o tempo em que o nariz entupido era uma insignificância, um incômodo banal. Foi-se o tempo em que uma dor de cabeça fraquinha era só uma dor de cabeça fraquinha. Nesse tempo, tossir quase sempre não passava de um ato involuntário, mecânico, imperceptível como um cacoete. Nesse tempo recente e também já distante, coçar os olhos, meter o dedo na boca, apertar distraidamente a mão de alguém não trazia à consciência o peso de ter cometido um pecado sem perdão. Nada disso hoje permanece indiferente ao alerta paranoico ou não da preocupação sobre sintomas e diagnósticos. Penso nesse tempo com saudade e enquanto engulo seco para testar a saúde da minha garganta, ouço um som peculiar que interrompe o silêncio lá fora.

É a buzina do motociclista pago pela associação de moradores para fazer a ronda noturna pelas ruas do bairro. Ao longo do percurso, vai cruzar com outros motociclistas portadores de mochilas cúbicas e multicoloridas a caminho de onde a fome dos confinados os aguarda. Aliás, nestes dias de trânsito reduzido, a orquestra formada pelos escapamentos das motos, em seus mais variados tons, domina o pouco que a cidade anestesiada produz de barulho. Por falar em barulhos e sons, é coincidência que logo agora eu ouça gritos, gritos de criança.

Vou até a janela e vejo lá fora a figura de um homem de cabelos brancos: um idoso, conforme linguajar técnico que define um dos componentes do grupo de risco. Ele está envolvido por uma áurea de descuido e teimosia. Primeiro, pelo simples fato de perambular pela rua. Segundo, porque está sem camisa, mesmo em meio a uma garoa fina que começa a se intensificar. E terceiro, porque desobedece aos gritos da criança que chama por ele. Sim, um menino, provavelmente neto do idoso, implora para que ele volte para a casa. Hipnotizado pela curiosidade, o idoso segue na direção de um outro foco de barulho, que logo identifico como uma briga.

Não consigo ver o lugar da rua onde a confusão se desenrola. Tenho a visão obstruída por um pequeno prédio em construção. O que me resta então é me orientar pelas informações sonoras. Há as vozes que vociferam insultos e também as que tentam esfriar os ânimos. Muitas são as pessoas envolvidas na briga, a julgar pela variedade dessas vozes. Uma delas é que me chama mais a atenção. Alguém, de um modo choroso, grita repetidas vezes: me solta, me solta, me solta. No meu campo de visão, surge uma mulher. Provavelmente filha do idoso, ela o puxa pelo braço como se o resgatasse de um ambiente radioativo. Enquanto isso, as vozes vindas da contenda continuam ecoando, especialmente aquela que grita: me solta, me solta, me solta.

E a briga ainda persiste por uma duração exageradamente anormal até para padrões de quem tenha quilômetros de diferenças a acertar. Os que participam dela ignoram a chuva, a aglomeração e o perigo do contágio. Talvez queiram prolongar a briga indefinidamente. Para sempre, se pudessem. Talvez a façam perdurar como meio de fingir que ainda estão livres, como meio de se agarrar desesperadamente a um jeito de viver que acabou. Vejo o motociclista vigilante parar a moto para observar o tumulto. De longe. E ouço mais algumas vezes a pessoa que grita chorosamente: me solta, me solta, me solta. Desconfio que há algum tempo já a deixaram de segurar.


Livros do autor:   Viva Ludovico    A vida é um sorvete derretido

O colorido do elefante branco


A cancela sobe aos trancos e quando desce faz um rangido que denuncia a manutenção precária. Enquanto esse mecanismo funciona só ainda por causa de algum tipo de teimosia das correias, sensores e fusíveis, ao lado, uma voz feminina dá boas vindas e é só o que se consegue entender, porque a partir daí a gravação embola como se por efeito de um disco arranhado, timbre eletrônico engasgado, quem foi que disse que os robôs também não gaguejam?

Quando alguém se aproxima, a porta deslizante parece reagir com preguiça. Pra pegar no tranco, é quase preciso que se encoste nela, um retrocesso e tanto para o avanço tecnológico que resguarda a comodidade dos clientes, e olha que já houve tempo em que bastava a pessoa aparecer a uns metros de distância para então a porta se arreganhar prontamente numa eficiência típica de funcionária do mês. O corredor é amplo, tem dimensões de túnel. Ao avançar por ele, é fácil perceber que a iluminação está mais fraca. É porque mais da metade das lojas fechou. Antes mesmo de ser erguido, este shopping, enorme construção horizontal aos moldes dos métodos arquitetônicos de vanguarda, era alardeado como empreendimento gerador de empregos, um combustível para o impulso da economia, hoje, no entanto, não é muito mais do que um definhante monumento às novidades que envelhecem mal.

Uma música quase inaudível embala o almoço de poucas pessoas a quem os restaurantes fast food de sempre não deixam faltar o pão com gergelim de cada dia. O lugar aonde quero chegar fica além da praça de alimentação. Avanço para os fundos do shopping, onde então atravesso outra porta deslizante. A perder de vista, o estacionamento se espalha pela área de muitos metros quadrados. Por todos os lados há retângulos demarcados no chão. Apenas duas filas de carros destoam entre centenas de vagas desocupadas. Por vezes, esse espaço ocioso tem servido à estadia de algum circo, que vem, fica e, conforme é de sua natureza, vai. Ninguém precisa se preocupar com os buracos que são feitos no concreto para sustentar a lona. Enfim, já passou da hora de dizer por que estou parado neste estacionamento vazio. Tenho na verdade um compromisso, que é quase um encontro.

Espero por duas pessoas que vêm sempre aqui. Com o tempo, constatei que é certeza aparecerem no início das tardes de sábado. O que não me deixa mentir é o fato de que, pontuais, aí estão eles. A mulher pedala uma daquelas bicicletas cuja parte da frente é adaptada para o carregamento de cargas. Só que no lugar da carga é um homem que vai sendo conduzido. Ele é velho, suas pernas balançam na frente do pneu, são pernas muito finas a ponto de passarem a impressão de que não são suficientemente firmes para fazer o homem andar normalmente.

As pedaladas vigorosas fazem a bicicleta ganhar grande velocidade, o percurso segue em zigue e zague, em linha reta e depois contorna todo o perímetro do estacionamento. Não há destino para onde se queira ir. O passeio é o próprio fim em si mesmo. Em alguns momentos, dá pra ouvir a mulher perguntar repetidas vezes: Tá gostando? É uma pergunta retórica, considerando os braços do velho, estendidos como se querendo abraçar o vento. Tudo dura por volta de quinze minutos, se é que nesta altura existe importância em mensurar o tempo.

A cancela está emperrada, não se sabe se ela parou ao subir ou ao descer. Isso, porém, não afeta o trajeto da bicicleta. Ela se move desenvolta e sai do estacionamento pelo pequeno vão entre a cancela e a calçada. Misturada ao trânsito da cidade, a dupla desaparece no ritmo de pedaladas de despedida. Olho para o estacionamento, há silêncio por toda a sua amplitude. Também olho para a fachada do shopping. É ou não é um empreendimento de sucesso?



Detalhes

Detalhes


Cinco estrelas


Aconteceu na rua apelidada de Estacionamento dos ubers. É onde vários motoristas costumam esperar dentro do carro o chamamento de seus clientes remotos. O chofer da nova era prescinde de trafegar por aí à cata de braços estendidos. A qualquer momento pode soar o sinalzinho sonoro dos celulares suspensos no apoio acoplado no interior dos vidros dianteiros e aí o coração acelera e os olhos ficam atentos na esperança de uma boa corrida. Como eu dizia, aconteceu na rua apelidada de Estacionamento dos ubers. Um dos motoristas saiu apressado do carro, apertou o botão da trava elétrica, pli pli, e depois caminhou até o outro lado da rua. Em pouco tempo, os demais motoristas também estariam no outro lado da rua ao redor de uma gaiola de lixo.

A gaiola de lixo estava vazia, ou melhor, estava vazia de lixo, porque dentro dela havia um cachorro de pelagem inteiramente preta, com aspecto de filhote e confuso a respeito da enrascada em que se metera. Alguém tomou a iniciativa de envolver o braço cuidadosamente ao longo da barriga do bicho, mas antes que o pudesse erguer, um grito agudo interrompeu o socorro. Uma das patas de trás estava presa num vão entre os ferros entortados da gaiola.

Não tem jeito, só com equipamento mesmo, concluiu algum experimentado em ferragens. A solução foi chamar os bombeiros. Não que eu esteja desdenhando da missão, longe disso, o fato é que eles chegaram paramentados como se estivessem preparados para apagar um incêndio florestal do nível australiano, nisso incluindo o porte de mangueiras e a presença de um caminhão-pipa. O bom é que também trouxeram uma espécie de alicate tamanho extra grande. Usá-lo para retorcer o ferro sem risco para a pata tão frágil do cachorrinho exigiu  habilidade de alguém que faz costuras sem o dedal. Quando enfim concluído o resgate, houve comemoração dos que testemunhavam a cena. Parecia a volta da luz depois de um apagão.

Todos se aquietaram quando o bombeiro advertiu que, largado na rua, o filhote não sobreviveria naquelas condições em que a pata machucada exigia cuidados. Olhares de sugestionamento logo convergiram para a única mulher entre o grupo de motoristas. Provavelmente era de conhecimento geral algum histórico de ações ditadas pelo coração molenga. Ela relutou, alegou falta de espaço, falta de dinheiro, falta de tempo, mesmo assim adianto que este é um caso de consagração aos que ainda são adeptos a finais felizes.

Sentado no banco do carona, o passageiro observava cada detalhe de um lugar que lhe era completamente estranho, curiosidade, expectativa, pata dolorida. Ao lado, desde que girou a chave na ignição até quando partiu com seu utilitário meia boca, a motorista nem sequer havia consultado o celular pendurado no interior do vidro dianteiro do carro.



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O mágico de rua


Há uma pequena barraca exposta em frente ao cinema. Quero acreditar que isso não seja mero acaso, afinal o que está escrito nela o mágico de rua parece ser uma alusão ao filme O mágico de Oz.
Nosso mágico de rua traja colete de feltro e chapéu de abas curtas, acessórios que dão a ele aparência de artista improvisado, um consultor mambembe de truques. Ainda assim, a impressão é que ele, ao se arrumar em frente ao espelho, tenha estufado o peito e dito a si mesmo: aí vai o melhor ilusionista de todos os tempos. Por isso é uma pena ninguém ainda ter se interessado em conhecer os baralhos especiais, os cartões em chama, a caneta flutuante e tantos outros artigos da mágica raiz.
Só mesmo depois de um tempo é que, guiado pela mão do pai em sua nuca, um menino se aproxima da pequena barraca. Ele então é convencido a prestar atenção aos ensinamentos do mágico de rua, mas não há nada que as cartas embaralhadas possam fazer para deixar a expressão de seus pequeninos olhos menos entediada, reação compreensível de quem certamente já se acostumou com os milagres cintilantes que espocam na tela de um tablet. Ao final da exibição, o mágico de rua se despede dos dois com um sorriso constrangido de frustração. É hora de desmontar a barraca. O mágico de rua recolhe na bolsa a mercadoria encalhada, ritual de um fracasso.
No filme, Dorothy, o espantalho, o homem de lata e o leão lançam-se ao desafio de encontrar o Mágico de Oz, precisam dele para que, por meio da magia, o desejo de cada um dos quatro seja realizado. Já no caso do mágico de rua, não houve nem sequer uma pessoa que recorresse às suas habilidades com coisas de fantasia e ilusão. Não são tempos que demandem encantos.



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Duelo de hesitantes


É um mecanismo rápido e escandaloso. A porta se abre sem a menor cerimônia, deixando à mostra um retângulo vertical e escuro. Lá de dentro, uma imagem vai ganhando forma conforme se aproxima da luz exterior. Bermuda, regata, sandálias de couro, o sujeito desce os três degraus escorando-se nas alças de metal grudadas cada qual em uma metade da porta retraída. Ao pousar um dos pés no chão, ele se desequilibra, a queda não é espalhafatosa, o homem vai ao chão como se estivesse deitando para dormir.

Qualquer um sabe que nesta vida é toda hora que se cai, mesmo assim ele está boquiaberto de surpresa, o que o faz vasculhar, ainda no chão, a causa do incidente, não demorando a constatar que o ônibus parou com as rodas traseiras bem em cima da curvatura de um quebra-molas. Ao se levantar, o homem olha para os lados e se depara com duas testemunhas da cena estapafúrdia, aí é que, além de embasbacado, ele também fica constrangido, e o constrangimento, chave de uma porta infernal que abate os sensíveis e inflama os furiosos, parece ter acendido nele a necessidade de protestar. Viram o que esse cara fez?, pergunta às duas testemunhas, buscando apoio para a sua causa de rebaixado ao raso do chão. Em seguida, posiciona-se na direção em que avista a parte da frente do ônibus. Ao erguer os braços com as palmas das mãos viradas para cima, faz questão de se mostrar reivindicador de alguma satisfação, de algum pedido de desculpas, o que poderiam dizer dele se não desse vazão à revolta?

Desde a queda até agora, é provável que o motorista esteja assistindo a tudo pelo retrovisor. Pois então este é o momento em que ele sai da porta dianteira do ônibus para inspecionar a situação. Enquanto caminha, suspende a calça social de um jeito que é como se o cinto fracassasse em sua função de evitar a frouxidão. Ele se põe a caminhar com movimentos calculados. A princípio, mantém-se inexpressivo, mas isso até quando lhe é atirada uma descompostura: não tem cuidado com os outros?, questiona o homem recém-estabacado.

Eis mais uma vez o danado do constrangimento agora muito visível no comportamento de quem acabou de ter o profissionalismo contestado. O motorista fecha a cara e continua a andar na direção de seu contendor, que também caminha rumo ao confronto. O plano de fundo é o ônibus parado com a traseira levemente inclinada para cima, suas janelas de vidro fumê escondem os passageiros certamente apreensivos sobre o que está para acontecer aqui do lado de fora.

Quando estão muito próximos, cara a cara, ambos param ao mesmo tempo, é como se algum obstáculo se erguesse à frente de cada um dos dois. Por efeito de algum acordo implícito, eles então dão meia volta e se afastam. Após darem dez passos, em vez de se virarem um contra o outro, seguem cada qual seu rumo. Um duelo não é feito por oponentes que decidem relevar.

Raíssa, um flashmob e Getúlio Vargas


O que vai preencher as linhas desta crônica também poderia ser narrado por Getúlio Vargas. Ambos estamos na praça, frente a frente, eu de um lado da cena e ele do outro. Mas, considerando as restrições comuns à imobilidade das peças de bronze, fica impossível saber as impressões causadas a tão inanimada testemunha e por isso não vai ter jeito de a cena ser conhecida senão por meio de uma única versão daquele entre nós dois que, a despeito de não ser ilustre, ainda não saiu da vida.

A praça está ocupada por muitos jovens, é provável que ninguém ali tenha alcançado os quatorze ou quinze anos. O rádio de dimensões oitentacentistas está em destaque sobre uma mesa. As caixas de som plugadas a ele propagam músicas dançantes ao longo das quais os vocais agudos espocam falsetes vibrantes, tudo muito ao gosto dos que têm no corpo reservatório entupido de energia e disponibilidade emocional. Os curiosos vêm se aproximando e agora é só deixar a cargo de um deles a tarefa investigativa, dito e feito, uma senhora pergunta a uma das integrantes do grupo sobre o que se trata a movimentação. É um flashmob, responde a garota. Adivinhando a falta de entendimento da senhora, ela complementa: É uma coreografia que muitas pessoas fazem no meio da rua.

A mesma garota que esclareceu o conceito de flashmob agora está aflita e, puxando o braço de sua amiga, começa a gritar: Vem, Raíssa, vem. Raíssa, porém, titubeia, não vai, fica parada assistindo à amiga que, depois de soltar-lhe o braço, corre para chegar a tempo de participar da coreografia. Ao que parece, Raíssa está dominada por um ataque de timidez. E é uma pena, porque o gorro, as calças largas, a camiseta cortada ao meio e o tênis confortável certamente foram pensados para favorecer estética e funcionalmente a dança.

A coreografia é feita de movimentos vigorosos, todos os rostos reagem com exatidão às sensações expressas pela música: os semblantes simulam ora tristeza, ora raiva e ora contentamento radiante conforme os trechos da letra variam entre o drama amoroso, a decepção e, enfim, o encontro apaixonado. Braços cruzados na frente do peito, Raíssa deixa transparecer a frustração de ser apenas espectadora. Enquanto observa os outros jovens dançarem, lança olhares rápidos para o próprio corpo, e essa alternação a faz murchar cada vez que seu olhar se volta para si mesma. 

A boa notícia é que, depois de um pequeno intervalo, outra coreografia está para começar, e desta vez Raíssa não dá chances à hesitação, atirando-se rumo ao meio do grupo, onde volta a se juntar à amiga com a qual entoa gritinhos de comemoração, quem só agora as vê assim poderia imaginar que este reencontro se dá depois de muitíssimo tempo. Raíssa se posiciona com ares de concentração absoluta. De repente, desdobra-se em movimentos bruscos para acompanhar a música que começa agitada. Ao longo da coreografia, seus passos de dança não são exatamente iguais aos dos outros. Em especial, Raíssa também não é igual aos outros quando sorri durante os trechos da música que expressam drama, decepção. É que Raíssa sorri o tempo inteiro.  
Ao sentenciar que entraria na História, Getúlio Vargas talvez já soubesse que essa coisa de ser memorável também haveria de incluir a pasmaceira eterna de estar imóvel em praças e coretos, expondo-se ao pouso dos pombos que lhe sujam a cabeça, os ombros. Ao menos hoje, porém, congelado na pose em que uma das mãos está enfiada no bolso e a outra está erguida como se segurando um charuto, teve o privilégio de presenciar a história de uma pequena vitória.

Livros do autor







Assalto e outras impertinências


Certa vez ouvi dizer que Bob Dylan, em turnê por São Paulo, recrutara o chefe de sua segurança para acompanhá-lo durante uma pequena extravagância: caminhar, madrugada afora, de uma ponta à outra da Avenida Paulista.

Confesso que também já fui de dar meus passeios pela madrugada na ingenuidade de querer testemunhar a cidade disfarçada por uma versão mais intrigante de si mesma. Mas é de se presumir que eu, não sendo Bob Dylan e muito menos contando com um aparato de segurança pessoal, sofresse as consequências de andar por aí numa espécie de expedição ao lado oculto da lua.

Portas descidas pela metade, os bares expulsavam seus últimos frequentadores. Havia silêncio só interrompido pelo estardalhaço de uma ou outra moto acelerando ao longe. Fazia frio, o que explica em parte o casaco trajado pelo homem de mochila que aguardava a minha aproximação para pedir ajuda em favor do sustento da família. Neguei por achar imprudente sacar minha carteira naquelas circunstâncias. E dobrei a esquina.

Enquanto andava, percebi que, paralelo a mim, o homem de mochila me acompanhava do outro lado da rua (agora me veio à mente uma cena do filme De olhos bem fechados, de Stanley Kubrick). Éramos as únicas pessoas que vagavam pelas intermitências de claro e escuro formadas conforme percorríamos as distâncias entre os postes. Lembro ter pensado alguma maneira de recusar outro provável pedido de dinheiro quando então o homem de mochila, numa manobra imperceptível, surgiu à minha frente e com uma das mãos agarrou muito rapidamente a gola da minha blusa de frio, olhos brilhando na penumbra. Acabou a brincadeira, me dá o dinheiro, ele esbravejou enquanto mexia a outra mão encoberta pelo casaco. Por ter acabado a brincadeira, entendi, claro, que agora entregar o dinheiro não admitia alternativa consensual. Tive ainda o espírito de tirar todas as notas da carteira para depois devolvê-la ao bolso de trás da calça. Ao pegar as notas de dinheiro, o atacante precisou me largar e foi aí que aproveitei para correr, ocasião em que escutei ele gritar: Peraí, me dá o celular também. Não obedeci, continuei correndo até quando achei que deveria me virar para conferir. Nenhum sinal dele. Sempre tive quase certeza que a mão por debaixo do casaco não segurava arma alguma. Às vezes prefiro achar que não. Às vezes prefiro achar que sim.

Uma história puxa a outra e agora me lembro da vez em que, saindo da rodoviária, fui surpreendido por um rapaz que se ajoelhou aos meus pés e, com a agilidade de um mecânico que troca os pneus de um carro de corrida, começou a esfregar um produto cremoso nos meus sapatos, ignorando os apelos de que eu não queria o serviço, de que eu estava com pressa, de que não havia razão para que meus sapatos rotos fossem engraxados. Cheguei a ensaiar uma retirada brusca, mas o rapaz, prevenido para esse tipo de reação, gritou de um jeito que parecia que eu era um trambiqueiro disposto a não honrar a dívida.

Ele, enfim, terminou o trabalho indesejado e se postou à minha frente. Estendi uma nota de cinco reais como sinal de rendição. Ele então negou, dizendo que seu serviço custava vinte reais, contestei, discutimos. Mais uma vez cedi e lhe entreguei uma nota de vinte reais. Ele pegou o dinheiro, mas, com cara de impaciência, me advertiu que o preço era vinte reais cada sapato. Tornava-se cada vez mais indignante me demorar naquela situação, ainda mais porque outro rapaz, também carregando apetrechos de engraxate, aproximou-se de nós e, reforçando o coro do colega, passou a me repreender seguidas vezes: anda, dá o dinheiro do cara, é o trabalho dele. Eis o ardil da coisa, qualquer um que testemunhasse a cena naquela altura me teria como inadimplente arrogante. Pois bem, entreguei quase todo o meu dinheiro como passaporte que me pudesse fazer escapar e por fim vi os rapazes se afastarem enquanto nos despedíamos com saudações impublicáveis.

De fato, isso de uma história puxar a outra, de um assunto ter a ver com outro, leva à recordação dos tempos em que, conferindo o extrato de cobrança de um empréstimo, constatei que os juros praticados pelos bancos brasileiros são abissalmente maiores do que a média mundial.



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Perspectivas de um peixinho dourado


A feira é livre, mas essa lógica não serve para os peixinhos dourados que nadam – melhor dizer movimentam-se – nos poucos centímetros cúbicos de água embalada em sacos plásticos pendurados ao longo da barraca.

Olhando de perto, a combinação entre transparência da água, transparência do saco plástico, luz do sol, cor e imagem ilusoriamente deformada do peixe provoca visual digno de exposição em museu de arte moderna. Ainda assim, para além de impressões de luz e cor, o que se sobreleva são questões existenciais ligadas a estas criaturas ensacadas individualmente.

Os peixinhos dourados também devem ter lá os seus sonhos, talvez anseiem por conhecer os oceanos, talvez a condição de estarem solitários em cada um dos seus sacos os faça invejar as espécies de peixe que compõem cardumes, daqueles imensos e populosos que lá no fundo do mar vão se movendo como se dançassem uma coreografia frenética. Pode ser até que desejem só mesmo a tranquilidade de viver em algum aquário ornamentado e com vista para a sala de estar de uma família cuidadosa em salpicar na água, com regularidade de medicação, a comida a base de proteína de plantas aquáticas.

Ao meu lado, um cliente em potencial consulta a vendedora sobre outro tipo de peixe, cuja presença ali eu ainda não havia notado. São peixes também ensacados individualmente e que se destacam pela cor azul-escura e pelas barbatanas imensas, algo carnavalescas. Querendo agradar a garotinha com quem está de mãos dadas, ele revela sua intenção de levar muitos peixinhos, juntando vários de cada espécie. Mas a vendedora, pondo-se acima de qualquer vantagem comercial, troveja uma advertência severa, dizendo que, se colocados juntos, o peixe de barbatanas exóticas, sem dó nem piedade, irá matar o peixe dourado. De imediato a expressão da garotinha vai da euforia à desolação. A vendedora percebe o susto no rosto dela e, tentando aliviar o que a informação trouxe de aterrorizante, faz um gracejo: sabe, é que o peixe Betta é meio encrenqueiro. Mas aí já é tarde. Ao que tudo indica, pai e filha estão desiludidos a respeito da expectativa de criarem uma fauna encantada, a selvageria está mesmo em quase tudo.

Volto a olhar para um dos peixinhos dourados. Agora é ele quem parece fazer análises sobre mim. Posso jurar que me acha ingênuo e é como se sua boca abrindo e fechando sem parar me aplicasse uma lição. Se estar misturado aos seus é a morte, então o melhor dos mundos é estar como ele está.




Ressurreição


Antes árvore, agora sol na tua cara. É o que estava pichado em vermelho no muro branco. Vasculhei o arredor e me alegrei por ter entendido o sentido da frase, orgulho besta parecido ao de quem desvenda uma charada.

A julgar pelo calibre do tronco cortado quase ao rés do chão, a árvore tinha porte suficiente para sombrear um terço da rua, incluindo o muro pichado que agora, exposto, recebia a incidência do sol abrasador. No canteiro onde estavam os despojos da árvore, pequenas flores coloridas haviam se espalhado feito aqueles minúsculos insetos que orbitam a banana passada, e isso, associado ao que estava escrito no muro, legítimo e retumbante epitáfio, dava ao cenário contornos de funeral.

Por dias me auto pressionei com a pergunta intermitente: por que não fotografei? Pois então retornei à rua onde enquadrei com a tela do celular vários ângulos do que a partir de então estava devidamente registrado no catálogo de fenômenos da dinamicidade urbana. E foi sorte.

Digo sorte porque poucos dias depois, como se por efeito de um ato profanador de memórias, o muro foi pintado pela metade, restando do epitáfio as palavras “sol na tua cara”, que, remanescentes e desconexas com o contexto geral da cena, foram reduzidas a um grito incompleto sem força de eloquência. Quem quer que tenha pintado o muro também quis deixar algum recado: seja sobre estender um pouco mais o mísero pedaço da homenagem, seja simplesmente sobre dar mostra da incompetência da zeladoria pública. Ocorre que, na semana seguinte, o muro foi pintado por completo e as florezinhas que coloriam o sepulcro arbóreo foram todas elas ceifadas.

Quis a coincidência, dessas que nos iludem ou, o que talvez dê no mesmo, amenizam nossa desilusão, que neste domingo de Páscoa, 21 de abril de 2019 (os céticos do futuro conferirão no calendário), eu estivesse na rua em que tudo se passou. Não há nada mais que se refira ao memorial da árvore abatida. Só que, sobrevindo ao epitáfio, às flores e ao registro da fotografia de celular, há um ramo que eclodiu do meio do cotoco de tronco ressequido. É ainda fino, frágil, verde, mas aponta na direção do céu.


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