Um amor de sandálias


Às vezes o peso das coisas faz a cabeça tombar. Nisso não há demérito, perceba como ao redor é normal encontrar quem também carregue os olhos caídos, os ombros pressionados por um fardo invisível. Andar por aí de cabeça baixa é inclusive a chance de descobrir os quase sempre despercebidos acontecimentos que se dão na altura do chão.

Elas vêm arrastadas, o atrito com a calçada produz efeito sonoro parecido com o riscar de palitos de fósforos. Na dianteira, trazem dedos espremidos, nas unhas há resquícios de esmalte vermelho, pintura desgastada. Não são sandálias comuns, elas também servem à exibição de uma mensagem: na sandália da direita está grafada a sílaba “LO” e na da esquerda a sílaba “VE”, grandes, gritantes, coloridas.

Mesmo em linguagem mercadológica, é um modo muito simpático de afirmar a itinerância do amor, é traçar relação com as distâncias percorridas, com os obstáculos vencidos, e a dureza desses obstáculos encontra farta comparação no desnível das calçadas, na topada em pedra pontiaguda, nas poças de água barrenta, nos dejetos de cães – ai das sandálias se houver uma mínima esbarradinha. As pernas são o motriz que alternam a divulgação da palavra benfazeja, e aqui se enxerga outra missão que é a de atribuir ao amor a interação, não se ama sem o outro, nem sem que haja o revezamento de cooperações, e então por isso o amor é o ponto comum que une a esquerda e a direita – me refiro às pernas. Pode ser que algum desiludido descubra nessas sandálias a maneira de confirmar que o amor é coisa rasteira, e também há quem talvez atribua a elas o significado oculto do amor sensual. Claro, por que não?, isso de ter que juntar as sílabas remete a um quebra-cabeças erótico, ao encaixe dos amantes, mas aí já é assunto que pode se alongar e agora é preciso não perder de vista a pessoa que traz nos pés a matéria-prima do que se tem feito de melhor e pior neste mundo.     

Levanto os olhos e só então a vejo de corpo inteiro. A mão direita segura a alça de uma sacola de compras, que é leve, daí não ser em razão dela que a coluna verga, talvez escoliose. O acúmulo dos muitos anos de vida marca presença em cada articulação emperrada, em cada movimento cuidadoso, nota-se um permanente receio de cair, mas aí estão as sandálias para a manterem firme, já sei que nisso desponta mais outra – a derradeira – forma de interpretação, é o amor sustento, suporte, arrimo, condução, força de reboque, amparo indicado para prevenir tropeços e quedas.   

Lá vai ela por cima das suas sandálias afetivas. Feito Camões, vai andando por aí a querer espalhar metáforas sobre o amor. E, pelo que tenho percebido, ela tem um jeito especial de andar, anda com a cabeça reta e os olhos para frente.

A leitora


Em uma das margens da rodovia, a rampa coberta de grama estende-se até bem alto, arquibancada com vista para o frenesi dos carros, dos ônibus, das motos. Imperceptível aos olhares sempre transitórios, hoje é possível notar que ali é lugar acolhedor a deleitamentos, isso quem demonstra é a moça entretida com o livro acomodado no colo.

Isolada quase no topo da rampa, envolta pelo verde do chão inclinado, ela concebeu um piquenique literário sem convidados visíveis. Os cabelos longos descem até muito perto do papel, as pontas de alguns fios haverão de beijar palavras, sublinhar suavemente uma frase qualquer, quem sabe um aforismo a perdurar na memória pela vida inteira. Os olhos foram capturados pelas páginas e já não há meios de se dispersarem, nada os tira dali. É um anzol de letras, quem é que a fisgou de maneira a deixá-la em transe? Que história tem o poder de mantê-la hipnotizada? Para saber, é preciso muita paciência, a curiosidade impõe vigilância demorada. E, enfim, a prolongada inércia do corpo causa à moça incômodo oportuno à investigação. Ao ajeitar a posição das pernas, ela ergue o livro, cuja capa agora está à mostra, movimento rápido, exibição instantânea, mas o suficiente para a identificação. Dostoiévski.

Como algumas revelações são esclarecedoras! O céu se fecha depressa, frente fria em andamento. Vem vindo aí um vento gelado que sopra em todas as direções, vai puxando para baixo a temperatura. Muito provavelmente a moça agora esteja cercada por uma sensação congelante, dá pra adivinhar seus músculos todos contraídos. Fosse possível colocar-se no lugar dela, aí então a cabeça e os ombros estariam salpicados de flocos em derretimento, seria visível o derredor verde embranquecer-se de neve.

Forma-se um grande engarrafamento ao longo da rodovia. As buzinas devolvem calor à cena, elas são acionadas por motoristas que avistaram a leitora e agora querem roubar-lhe a atenção, instinto rudimentar, tem sido assim desde os tacapes. As buzinas continuam ecoando, e isso é uma persistência inútil. Em destaque, a leitora é avistada por todos, mas não avista ninguém. Ninguém que não esteja em trajes russos.

A postiça festa dos urubus


Não é o tipo de chuva que encharque tanto. Basta apressar o passo, ir alternando o trajeto de modo a caminhar por baixo das marquises, das copas das árvores, e então logo se chega ao destino sem que nas roupas e nos cabelos haja mais do que uma fina camada de umidade que se resolve com o simples espanar das mãos.

No caso, o destino é onde convivem harmoniosamente o político corrupto da vez, o artilheiro da rodada, o saradão da revista fitness, a mulher em pose erótica, Mônica, sua turma e também, descidos direto do olimpo da sabedoria para os fascículos da coleção de Filosofia, Platão, Aristóteles, Kant, Shoppenhauer, Nietzsche, qualquer banca de jornal é sem dúvida um santuário das variedades. Ali em frente, a rua, banhada há horas sem parar, começa a dar sinais de estrago, é o bueiro que entupiu, é a bagunça que os ônibus fazem com as poças d’água. Se isso vai melhorar ou piorar, é natural, quase automático, que eu, meteorologista diletante, olhe para cima. Surpresa.   

O céu branco está pincelado de traços negros, tantos riscos esvoaçantes congestionam os ares a ponto de não caberem todos no enquadramento delimitado pelos prédios. Desço os olhos e eles aterrissam no grupo de três pessoas, uma delas folheia um guia turístico, todos usam capas de chuva, baita exagero, é que o turista deve aproveitar ao máximo a experiência de cada ocasião. Questão de tempo, pouco tempo, um deles descobre o que se passa lá em cima, ele faz o alerta e pronto, três celulares já estão erguidos em busca do ângulo mais favorável.  

Nossa, uma invasão, parece aquele filme do Woody Allen, diz o homem alto, magro, dono de uma simpatia desengonçada. É Hitchcock, corrige a mulher, jeito debochado, o homem sorri, não se leva a sério, e a coisa fica engraçada. Até então calado, o terceiro turista, jovem, sisudo, tatuagem indecifrável no pescoço, inaugura as hipóteses sobre as causas do fenômeno aéreo, é algum bicho morto por perto, a partir daí se instaura um debate especulativo, aqui no meio da cidade acho difícil ser um bicho, tipo boi, vaca, difícil ser um bicho grande que atraia tantos assim, então pode ser que seja corpo de gente, a carne humana é mais atrativa que as dos bichos, cruzes, alguém assassinado ou atropelado, acho mais provável alguém assassinado, sim, corpo desovado, tem razão, aliás pode ser até que sejam muitos, chacina na madrugada.       

Os turistas avançam pela garoa, vão desbravar a cidade, quem sabe esbarrem com algum corpo em decomposição, com algumas carcaças que lhes esclareçam quem dos três melhor conhece sobre assuntos de putrefação. Vindo de dentro da banca de jornais, o jornaleiro traz uma informação importante. Braços para trás, olhos no céu, ele diz: aquilo não é urubu, é fragata, e fragata só come peixe. Repare, é só quando o trio está longe que o jornaleiro, discreto, decide fazer a divulgação. Bem se vê que não é um estraga prazeres.

Chapa quente, cuca fresca


Pendurado na parede, o retrato mostra o perfil de um jovem de bigode e cabelos escuros. Fora o fato de serem a mesma pessoa, o jovem do retrato e o velho no caixa do bar nada têm em comum, o tempo é um escultor de ruínas. Enquanto as mãos manuseiam dinheiro, os olhos se levantam por cima dos óculos, supervisionam o vai e vem dos garçons. É hora do almoço, que se erga o cheiro de fritura.

O prato fumegante pousa ao lado do encarte de supermercados, fazendo com que o casal interrompa o exame dos preços. Ele e ela trocam expressões de surpresa. Imediatamente, ela aperta o botão do celular, e o brilho da tela lhe transmite uma informação.

– Menos de nove minutos – ela fala alto.

A julgar pela risada, o garçom encara aquilo como um elogio, ele se retira apressado, há ainda na bandeja dois pratos para servir. Antes, porém, aproxima-se do chapeiro e lhe cochicha um comentário, os dois acham graça, isso dura poucos segundos, ambos já estão de volta às suas respectivas ocupações, a descontração fugaz se dissipou mais rápido do que a fumaça expelida pela chapa.

O chapeiro usa um chapéu de palha com extravagantes abas largas, está sempre em movimento, é muito ágil em virar e revirar os ovos, os pedaços de frango e linguiça. Para ele, as espátulas são tão íntimas quanto as mãos de tesouras são para Edward. Vigilante ao seu posto de trabalho, está quase sempre de costas, flagra-se agora a exceção em que dois meninos sentados junto ao balcão o fazem dispersar, ele se vira, rosto umedecido, parece haver um plano em andamento. O chapeiro volta-se para a chapa e, dominando algum procedimento de alquimia, provoca a erupção de uma labareda enorme e instantânea. Os meninos levam as mãos aos rostos em gestos simultâneos, estão extasiados, isso é pura mágica. Promover o encantamento infantil é um feito que deixa o chapeiro orgulhoso, seu semblante não disfarça certa vaidade ingênua. Do canto da boca sai um sorriso que é como uma piscadela de quem compartilha um segredo de travessura. Na condição de estar sempre imerso em atmosfera abrasadora, o chapeiro vai inventando intervalos de refrigério.

À noite, de volta ao bar.  Ao redor da única mesa do lado de fora, há ainda a reminiscência de poucos fregueses que conversam num tom acima da sobriedade. É entrar e, quase irreconhecível sem o chapéu de abas largas, lá está o chapeiro às voltas com o zíper indomável da mochila fechada pela metade. Com gás ou sem gás? Solícito, ele para o que faz para atender a um pedido intempestivo, traz a garrafa de água mineral na presteza que lhe é peculiar. A boa disposição contrasta com os olhos avermelhados de cansaço. Já faz muito tempo desde a hora do almoço. Mais de nove horas. 

Ser ou não ser


A padaria é um marasmo só, a lentidão com a qual o ruidoso ventilador de teto demora a completar uma volta dá o tom na tarde quente e preguiçosa. Tem-se aqui um desânimo dotado de propriedades contagiosas, isso se nota pela prostração das atendentes, todas debruçadas no balcão, e pela indisposição generalizada da clientela. Eis então que uma aparição repentina – dessas comparáveis à chegada do cowboy ao sallon de um filme de bangue-bangue – vem destinada a suspender a pasmaceira.

Impossível ignorar os cabelos há tempos sem corte e sem lavagem, os andrajos cobrindo o corpo mirrado, a mochila bojuda, que muito provavelmente é seu guarda-roupa portátil. Contudo, não é o caso em que o figurino roto mereça maior destaque. Como já dito em algum manual de comportamento corporativo, o homem é a soma de suas atitudes.

Há muitas formas de impor a própria presença. No mínimo, duas delas se manifestam assim que ele adentra o recinto. Primeiro, ele levanta os dois braços como se quisesse iniciar a regência de uma orquestra. Depois, apela para um recurso arrebatador: o grito.

– Me respeitem que eu sou o prefeito, eu sou o prefeito.

Ninguém contesta, as pessoas se entreolham caladas, fazem silêncio solidário à insanidade alheia. Outro grito explode em reforço. Mais conciso, traz uma rima aparentemente pensada para favorecer o bom entendimento.

– Quero respeito, eu sou o prefeito.

Satisfeito ou não, o homem se retira, levando embora seu repertório de gestos escandalosos. Dentro da padaria, não se vê repercussão sobre o ocorrido, todos já estão de volta ao enfado de antes, também pudera, viesse o messias, viesse Napoleão Bonaparte, mas o prefeito?! Houve tempo em que a loucura apresentava-se com mais ambição.

A missão não acabou. Do lado de fora, alonga-se a peregrinação a favor de que uma informação esteja ao alcance de todos, a cada um que passa é anunciada a identidade do chefe do poder executivo municipal. Sim, as pessoas vão sendo, aos gritos, devidamente avisadas, em especial o homem baixo, calvo, paciência curta, gaiatice aguçada, ele estica o braço, aponta o dedo e diz:

– Pois então siga naquele caminho, trate logo de ir pra lá trabalhar.

O suposto prefeito se aquieta, permanece parado por alguns segundos. Ajeita a mochila nas costas, recomeça a andar, atravessa a rua, vai se distanciando. E segue caminho na direção contrária à prefeitura.

Escolta


A feira acontece ao rés do chão. Ao longo da calçada estendem-se toalhas, sobre as quais as mercadorias estão expostas. É um comércio rasteiro (na acepção literal da palavra).

Pulseiras e cordões com referência à Jamaica, brincos artesanais, pedras coloridas, porta-incensos, estatuetas de corujas, gatos, elefantes, gnomos simpáticos, tudo isso está à venda, mas o fato é que os mesmos produtos repetem-se em todas as toalhas, não há variedade que diferencie umas das outras. É talvez por esse motivo que um dos vendedores tenha inventado maneira de ganhar destaque.

Sentado em posição de Meio Lótus, ele equilibra na cabeça uma bola azul de plástico, é impossível não lhe dedicar alguma atenção, nem tanto pela habilidade matreira, mas em especial porque as gargalhadas lhe saem fácil, vão sendo despejadas num ambiente inóspito ao entusiasmo, são vibrações sonoras deslocadas no domínio das expressões emburradas que vão e vêm. Qualquer coisa é razão para um sorriso, qualquer coisa mesmo, inclusive as duas armas que, pela esquerda e pela direita, passam rente a cada uma das orelhas.

A cabeça mantém-se imóvel, é preciso preservar o equilíbrio da bola azul, já os olhos, como se entretidos numa partida de tênis, vão de um lado ao outro, acompanham a movimentação ao redor. E ainda que um pouco menos extravagante, lá está o sorriso, ele agora assume a forma de ironia ao poderio dos instrumentos letais que chegam impondo presença ameaçadora, um hippie não se curva às truculências do mundo.      

Coturnos, trajes escuros, armas na cintura. Quando surgem os vigilantes de carro-forte, é inevitável que se instaure no ar uma tensão. Repare os dedos no gatilho, as mãos preparadas para o saque da arma, não é momento de esboçar qualquer atitude brusca, a prudência recomenda cabeça baixa, distância, se possível convém deixar claro: sou pessoa comportada. Mas nem poderia ser diferente, está em jogo o mais perseguido dos anseios, não é com flores ou gentilezas que se defende o objeto de obsessões seculares.

Estão de volta, vindos do shopping ou talvez de algum banco, alguma rede de fast food. As bolsas parecem pesadas, dia de boa produtividade. Sem dúvida, o trabalho é feito com diligência, é como se o dinheiro recebesse tratamento de monarca bem protegido, de celebridade a salvo da histeria. O cortejo vem trazendo a carga preciosa até o carro-forte estacionado logo ali atrás de onde o hippie, sentado, ainda equilibra a bola azul sobre a cabeça, eis aí o sorriso infalível, o hippie observa a cena, continua a sorrir, acha muita graça de tudo isso, afinal o patrimônio que lhe é mais caro, a alegria, não requer escolta. 

Nos vagões da vida, o show deve continuar


O casal entra sorrateiramente no vagão, parece em curso uma missão clandestina. No semblante dos dois está aquele destemor ingênuo só possível aos jovens, a inexperiência tem braços muito longos a quererem dar conta de envolver o mundo num abraço sem fim. O que será que carregam dentro das bolsas de pano? O que merece manuseio tão cuidadoso? O mistério não se prolonga, cada um deles revela seu respectivo objeto. A moça: um clarinete. O rapaz: uma sanfona.

É uma canção francesa, um jazz parisiense, quem explica é a moça do clarinete. Cabelos longos e alvoroçados, vestido encardido, unhas descoloridas, é muito nova, não passa dos dezoito, a julgar pela habilidade musical, provavelmente as partituras lhe são íntimas desde a infância. Ela retoma o concerto, isso de soprar melodias pelo ar é como mágica.

Antes de cada música, os dois combinam alguma coisa aos cochichos, acerto particular. A participação interativa do rapaz não vai muito além disso, ele se limita a tocar a sanfona sem maiores manifestações, não olha para os lados, não sorri, aceita bem o papel de coadjuvante que lhe cabe. Pois então é a moça que vai anunciando as músicas e detalhando informações. Para ela, contudo, a tarefa revela-se um grande obstáculo, falar em público não se equipara ao seu talento musical, a voz gagueja, sai baixinha, quase um sussurro, há nas palavras um entusiasmo artificial. Que mal há nisso? Nenhum. Aliás, a própria audiência é tomada pela timidez, os aplausos são contidos e curtos. Eu mesmo poderia gritar “vivas”, “bravo”, mas, espectador acomodado, nem sequer aplaudo, restrinjo-me à minha contemplação acanhada.  

Não se vê um chapéu virado, não se vê, aberto, o estojo de algum instrumento musical, nada há no piso do vagão que possa servir de receptáculo para notas e moedas. Durante toda a apresentação, nenhum apelo, nenhuma solicitação, nada se pede em troca. Por que eles continuam a tocar com disposição inabalável? Pelo reconhecimento? Não, os aplausos já cessaram faz tempo, as pessoas estão de volta à distração de seus celulares, conversam entre si, a mistura sonora entre clarinete e sanfona transformou-se em mero som ambiente. Mas então por que continuam? De Milton Nascimento a Freddie Mercury, as canções versejam a resposta: todo o artista tem de ir aonde o povo está, porque o show deve continuar.

Desço do vagão, ele se distancia, lá dentro ainda estão a dupla de músicos e também os meus aplausos contidos. 

O seguro não comoveu o velho


As penugens negras fogem das orelhas aos tufos, é mais ou menos o que também acontece com a cabeleira branca que escapa por debaixo do boné. O bigode transformou-se no emaranhado de fios acinzentados e crescidos em direções aleatórias, tapa parte do rosto e da boca. Os olhos estão escondidos atrás dos óculos escuros Ray Ban, a camiseta branca com listras beges mergulha para dentro da bermuda xadrez de cor verde-oliva. Tênis de corrida, meia de algodão, pernas cruzadas, ele demora a perceber o panfleto que lhe pousa no colo.   

Quem entregou o panfleto não é menos vistoso, cabelos e bigode tingidos de preto, cordinha presa nas hastes dos óculos. Blusa mostarda, calça marrom-escuro, ambas, muito largas, cobrem um corpo esquálido. É um vendedor de voz cativante.

– Alarmes, monitoramento 24 horas, cercas eletrificadas, é só ligar pra esse telefone aí embaixo, a gente faz um desconto especial pro senhor.

Todos sabem que o homem de óculos escuros e pernas cruzadas não vai ligar, mas ele ao menos ensaia uma pequena espécie de elegância:

– Tá bem, tá bem, pode deixar.

O vendedor se retira, tem uma pilha de panfletos a distribuir, ele está distanciado quando, postura plácida, o homem de óculos escuros e pernas cruzadas aproveita para se pronunciar. É como se pensasse alto, a fala tanto pode se destinar a ninguém ou a todos:

– Velho não precisa de segurança, precisa de médico.

Depois, põe-se a dobrar o panfleto, disso resultando o aviãozinho de papel Off-set, que não é colocado a prova, fica exposto no banco, mostruário de uma habilidade singela. O homem de óculos escuros já não tem as pernas cruzadas, vai levantando devagar, mistura-se à pequena fila das pessoas ávidas pela abertura da porta dianteira do ônibus.

Quem está de volta é o vendedor de apetrechos de segurança, algo lhe chama a atenção. De imediato, recorre aos óculos e identifica a natureza do aviãozinho de papel. Segue-se uma restauração, o vendedor desfaz pacientemente as dobras do panfleto, devolvendo-o, mesmo amassado, à pilha agora bem diminuída. Não demonstra estar decepcionado, não há em seu semblante qualquer traço de aborrecimento. Antes de partir, retira os óculos das orelhas e os larga ao sabor da gravidade, é uma queda de tempo curto, milesimal, socorro providente, a cordinha atada às hastes dos óculos não os deixa cair. Os óculos estão seguros.  

As imprecisões de um legado


Se já não é bom sinal que uma ambulância vermelha esteja bloqueando o trânsito da avenida, que dirá agora que, de mais próximo, é possível ver que são duas. 

Nessas ocasiões, a curiosidade, animal sem rédeas, arrasta nossa atenção para o meio dos escombros. Quase como autômatos, vamos farejando os detalhes do caos, de maneira a encontrar o que nos faça, em seguida, virar o rosto em reação de choque, isso faz parte da nossa natureza contraditória. É pagar pra ver e também pra deixar de ver.

Esta aqui é uma cena sem carros destroçados, sem cadáveres cobertos por lona, sem sangue acumulado em poça, nada há de matéria-prima para disseminação entre celulares. Mesmo assim não é o caso de subestimar o seu potencial de provocar abalos, esta aqui é uma cena em que o impressionante está nas sutilezas.

A garotinha rechonchuda tem todas as partes do rosto tomadas por um brilho úmido, fez-se ali profusão de lágrimas, alagamento de aflições. Já não chora, os olhos miram o nada, demoram-se bem abertos numa paralisia de hipnose, ela até talvez ignore o que a socorrista lhe sussurra ao ouvido. Mais ao lado, uma das ambulâncias está com as portas de trás escancaradas. Feito pedaço de língua saltado da boca, uma pequena parte da maca avança para fora, deixando ver sobre ela as pernas de alguém, aparentemente uma mulher idosa. Não, não deve ter sido atropelamento, isso tem mais a ver com mal súbito. Como se vê, de curiosos a peritos em investigação, vamos num pulo.

De volta à garotinha. Os cabelos dela mergulham em forma de cachos tão bem definidos que mais parecem esculpidos um a um. De fato, não foi tarefa daquelas concluídas em dois tempos, inclusive porque a tonalidade rósea do lacinho na cabeça combina muito graciosamente com o vermelho-claro do vestido e com o vermelho-escuro das sandálias nas quais se espalham carinhas da Minnie, degradê bem pensado, daí pressupondo o apuro afetuoso, o zelo em cuidar, o jeito aplicado de apresentar uma criança ao mundo.  
A cena vai ficando para trás, por lá muitas dúvidas insatisfeitas, ocorrência inconclusa, nada resta senão torcer, ainda que a torcida, para o bem ou para o mal, seja quase sempre inútil, mentalização com efeito placebo. E assim, provavelmente inócua, a torcida persiste para além da próxima avenida. Que o penteado feito à custa do cuidado em demora não se consuma como um último legado. 

Madrugada complacente


Corro o risco de anunciar o óbvio, de trazer constatação requentada, mas mesmo assim preciso dizer que a madrugada é terreno fértil para flagrantes inusitados. Sei bem o que é isso, sou frequentador contumaz dessa paisagem vertiginosamente insólita. Nos períodos de maior insônia, minha janela se torna camarote com vista para situações as mais pitorescas. Eis mais uma.

A calçada é o camarim, as folhas das árvores formam a cortina que vai se abrindo por obra de uma rajada de vento providencial. Ouve-se o pio de algum pardal também insone, aí está a sineta que anuncia o início da apresentação, que comece o espetáculo!     
Ele desponta vagaroso, capricha no jeito de caminhar, passos meticulosos, cada um deles somente se inicia depois que o antecessor já se completou em definitivo. Na madrugada, a soberania dos carros é posta abaixo: o meio da rua deserta serve de palco para um desfile. E há nisso uma surpresa só revelada agora que ele se aproxima. 

Não usa camisa, e a bermuda está arriada, vai descendo pelas pernas à medida que a cadência dos movimentos avança. Pois bem, as criaturas noturnas, aí incluídos os morcegos, os grilos, a brisa fresca, as estrelas menos recatadas, todas são convocadas ao testemunho de uma desinibição, o homem desnudo passa deixando rastro de desprendimento.

Há pela frente um poste apagado, e é sem qualquer cerimônia que o homem desnudo o abraça, pele e concreto em contato muito íntimo. O abraço se desfaz, e o que resta do afago inicial é a mão alisando a superfície cilíndrica, ela percorre uma volta inteira e mais outras, a velocidade aumenta, o braço se estica, o corpo gira em torno do poste, Fred Astaire descompensado.

Clarão repentino. Incomodado pelo assédio, o poste se acende, artifício muito prejudicial às pretensões performáticas do homem desnudo, que se assusta feito vampiro em derrota, passos para trás enquanto suspende a bermuda. Depois de vestido é que vem a inibição, constrangimento às avessas, ele foge, se afasta da luz, vai para onde não lhe possam notar as decepções, os medos, as fraquezas, o vício ou até, quem sabe, a eventual insuficiência de alegria.         

Agora que a escuridão lhe dá acolhida, ele volta a abaixar a bermuda, caminha lento e elegante, o desfile recomeça e pode até ser que dure pelo tempo em que o amanhecer não dê as caras. O homem desnudo está à vontade. Se toda nudez será castigada, a madrugada é seu salvo-conduto.