Bem-se-vê


Muito frequentemente sou testemunha de uma batalha ferrenha, inclemente mesmo. Tudo começa com um grito agudo, trombeta de guerra. É o sinal que anuncia o pouso do gavião no aro da antena parabólica. Aprumado, sua atenção é suscetível aos mais insignificantes movimentos, ele tem a exata noção do que está para acontecer.

Não demora quase nada e, vindo não se sabe de onde, o primeiro ataque chega em forma de rasante, o bem-te-vi arremete, alça voo até bem alto, manobra as asas com arrojo, faz a curva e depois se atira em direção ao gavião que, atordoado, olha para todos os lados na vã tentativa de se orientar sobre a ofensiva aérea. Cada vez mais próximos do alvo, os rasantes se intensificam e isso é um incômodo difícil de suportar. Por mais que tente resistir, o gavião invariavelmente se rende, decolando afugentado. Mas a contenda não para por aí, segue-se uma perseguição nas alturas, o bem-te-vi não se dá por satisfeito, vai despejando seu arsenal de rasantes até que tenha espantado seu rival para muito longe, e é lá de longe que ele canta vitória, entoa seu grito de guerra, o trinado que nomeia a espécie. Enfim, o resultado é sempre o mesmo, não há uma vez em que o bem-te-vi não bote o gavião pra correr, ou melhor, pra voar.

O bem-te-vi é, portanto, um bicho invocado. Em reforço a isso, a faixa escura que lhe esconde os olhos se assemelha à pintura do guerreiro e o faz parecer estar em permanente irritação. Não bastasse o relato mais acima, há outra situação que evidencia seu jeito arisco de ser.

De quando em quando, ouço um batucar na janela, abro as cortinas e lá está ele bicando o vidro com tamanha fúria que é sempre por pouco que tudo não se estilhaça pelo chão. Essa, aliás, é uma ocorrência comum que tenho visto acontecer em outras janelas por aí e que sempre me levou a questionar por que raios o bem-te-vi não percebe que a imagem no vidro é o seu próprio reflexo e não a figura de um invasor de territórios a merecer descompostura tão violenta.

Mas, para além de ser o infalível elevador das idades, o tempo também serve para mudar o ângulo das ideias e por isso de uns tempos pra cá percebo ter sido injusto com esse pássaro que é a própria animação da bravura, esse valente que, na defesa da prole, desafia e vence um adversário três ou quatro vezes maior que ele. Pensando bem, tenho pra mim que, na verdade, o bem-te-vi se choca insistentemente contra o vidro, não por estupidez. É que sua imagem aprisionada o ofende sobremaneira.

Cidade fria


Faz frio, e o homem em andrajos arrasta o lençol pelo chão como se quisesse varrer os males da cidade. Todas as articulações do corpo se movem em dissonância, o que lhe empresta aparência de robô em curto circuito. Vai para frente, volta para trás, é alguém sem rumo. Na calçada larga, as pessoas desviam dele, evitando o perímetro que o cerca. O seu derredor é uma ilha despovoada. Passos aprumados, ele segue em direção à entrada do shopping e isso logo acende o sinal de alerta no semblante do segurança, sorte dele que o homem do lençol em punho dá meia volta e desiste de entrar, lá dentro faz mais frio.

É o mesmo homem agora deitado na beirada do meio-fio. De volta à sua finalidade original, o lençol cobre o corpo magro e comprido, tão comprido que os pés estão de fora, são pés encardidos que acumulam poeiras das mais diversas proveniências, coletânea de fuligens, mostruário da sujeira disseminada por todos os cantos. Há ali um gesto de generosidade, afinal o lugar que escolheu para se deitar não atrapalha o vai e vem da multidão, e assim a ordem das coisas vai seguindo se cada um se ativer à sua parte. Os braços se cruzam por trás da cabeça e os olhos arregalados procuram o alto, o homem faz subir palavras aos céus, talvez agradeça pela vida ou talvez tire satisfações, de qualquer jeito é um momento íntimo em relação ao qual não prolongo a especulação.   

Pela terceira vez me deparo com ele. A novidade é que o lençol não é mais sua única carga. Ora, vejam só, não é que alguém de coração quente lhe deu uma quentinha. Acomoda-se no chão, faz da calçada sua sala de jantar com vista para um cruzamento movimentado. Faltam-lhe talheres, não se pode ter tudo, principalmente quem não tem nada. Mas ele resolve o problema comendo com a mão, come apressadamente, lambe os beiços, lambe o alumínio da quentinha com a fome dos insaciáveis ou com a insaciedade dos famintos. As pessoas agora desviam o olhar, por respeito, por pena, por náusea. Ao fim da refeição, ele se deita novamente sob o lençol fino e rasgado que agora se estica para cobrir os pés, deixando descoberta a área do peito. É um coração em desabrigo.

Anoitece e eu observo um painel à minha frente, são muitos desses espalhados pela cidade para difundirem informações e propagandas. São iluminados e coloridos a ponto de capturarem, feito tarrafas, um grande punhado de atenções. Notícia após notícia, uma delas parece se destacar das demais: esta será a madrugada mais fria do ano.

Memorial dos espetáculos errantes


Vivi pra ver mais uma vez a lona se erguer agigantada em um terreno baldio, podia jurar tratar-se de evento já entregue ao escaninho das memórias esquecidas, ao arquivo morto dos acontecimentos irressuscitáveis. Mas eis aí o circo imerso pela pressa dos carros escandalosos, é uma teimosia só comparável à daquelas flores que brotam pelas fendas do asfalto.

Resolvo fazer uma visita fora de hora, é manhã e na manhã todas as fantasias recolhem-se adormecidas. Percorro a rua de trás para conferir a parafernália volante, vou passando em revista a fila de trailers e só num deles encontro uma janelinha que não esteja encoberta por toalhas e cortinas. Através dela vejo uma mulher que sorri para o céu, a ela imediatamente atribuo a suspeita de que seja uma bailarina dos ares. Agora se ocupa em pressionar seguidas vezes a parte de cima da garrafa térmica. Como se ordenhado, o café vai sendo despejado no copo em jatos irregulares. De repente, a mulher larga tudo e começa a ajeitar os cabelos, pretende prendê-los num rabo de cavalo. Ao mesmo tempo, lança novamente o olhar para fora da janelinha, observa fixamente um ponto qualquer, talvez registre na memória a paisagem que daqui a mais ou menos duas semanas não estará mais ao alcance de sua vista. Mais uma entre tantas.

Ouço vozes vindas de cima, vozes em galhofa. Quatro homens estão no topo da lona branca, cada um deles amarrado por cordas, não que precisassem de tanta segurança, tamanha a desenvoltura com que sobem e descem a inclinação volúvel, é que esses alpinistas destemidos estão de fato acostumados a enfrentar obstáculos ainda mais desafiadores: o perigo à espreita no globo da morte, a maneira ardilosa com que a gravidade atua durante as apresentações no trapézio, a frustração das noites de público minguado. Além de mim, outras poucas pessoas assistem à cena, os componentes do quarteto intrépido nos percebem cá embaixo e por isso começam a alternar pequenas acrobacias, amostra grátis de seus talentos. Para eles, todo público é respeitável. Que mirante incomparável! Eles avistam parte da cidade não de um edifício, não de uma torre, avistam parte da cidade do alto de uma lona de circo, a alegria que sentem é a alegria de passarinho. Daqui a mais ou menos duas semanas, terão na memória, à disposição de suas lembranças, o registro de uma visão panorâmica.

Estou a ponto de completar a volta inteira, analiso cabos, roldanas, ganchos, estacas, me interessa saber como se dá o contorno da lona. Daqui a mais ou menos duas semanas, quando a visão de um terreno baldio for devolvida ao cotidiano dos dias, quero ter na memória o lugar exato onde esteve montado o picadeiro.

Repórter do caos


Algo se agita dentro dele, quer sair, ganhar o mundo, propagar-se por grandes distâncias. O sujeito está inquieto, não dá mais conta de represar uma notícia.

– Ontem um carro capotou logo ali – ele diz apontando para a rua que passa nos fundos da padaria.

Preparado para abocanhar o pão com manteiga, o homem ao lado adia a mordida e rebate:

– Como alguém consegue capotar naquela rua?

É exatamente o que eu também me pergunto. A rua é reta, curta, estreita, de mão única, só se trafega nela a baixa velocidade. Mas ao portador da notícia não interessa debater sobre a causa e o sentido das coisas, já basta que tenha nas mãos um catálogo de comprovações.

Ele estende o celular de maneira a deixar a tela colada ao rosto do homem ao lado, que, forçando os olhos por detrás dos óculos, deixa escapar uma interjeição impublicável, e quanto mais se impressiona, maior a excitação do portador da notícia em arrastar o dedo pela tela, oferta farta de ângulos. O celular chega às mãos ansiosas da balconista, ela confere as fotos por conta própria, nova sequência de espantos. Com o cuidado com o qual se transfere um bebê de um colo ao outro, o celular é devolvido ao dono e ele me encara como se perguntasse, quer ver também? Quero sim, sou curioso, confesso, mas hesito e ao que parece não me mostro suficientemente empolgado, temos um impasse, o que me faz perder a vez, porque agora o portador da notícia se encaminha apressado para o lado de fora, vai ao encontro de uma mulher conhecida dele, nem mal se cumprimentam e a pergunta já está posta:

– Soube o que aconteceu ontem?

Ele está de volta, não desgruda os olhos esbugalhados da tela, é como se olhasse para um espelho mágico que lhe impõe reflexão. Pelo tempo em que permanece mais sossegado, faz um comentário dito em voz baixa, calma e ensimesmada, soa quase como uma advertência:

– Dizem que a pessoa foi tirada do carro com o celular na mão – uma careta de reprovação lhe domina o semblante. – Esse pessoal é fogo.   

O portador da notícia ressurge do transe num alvoroço só. Volta à carga, empunhando o celular na inadiável missão de difundir seu conteúdo. O homem ao lado prepara os óculos, ajusta o alcance dos olhos, a ele é explicada uma novidade:

– Olha o vídeo de quando os bombeiros desviraram o carro.

No prato deixado em cima do balcão, acomodado sobre a superfície forrada de guardanapos de papel, o pão com manteiga descansa ainda praticamente intacto.

Couve, catuaba, café


Faz tempo quero conhecer o lugar, um bar pequeno, pouco frequentado, do tipo tradicional que exibe na parede pôsteres de times campeões, são times de variados clubes que é pra não desagradar os fregueses mais enciumados. Percebo de imediato que o ambiente cheira a hortaliça, se entrasse de olhos fechados, poderia jurar que estou agora na feira livre, diante de uma banca de verduras, ou então no meio do setor de hortifrutigranjeiros de algum supermercado. Do outro lado do balcão, o dono do bar porta um facão com o qual vai fatiando um rolo de couve, isso em cima do feezer que faz as vezes de mesa. É um trabalho muito meticuloso, a postura é a de um chef de cozinha concentrado que vai produzindo tirinhas verdes de larguras tão perfeitamente iguais que é como se medidas a régua. É mais que um preparo, é uma arte.

No rótulo, homem e mulher em trajes mínimos compõem uma cena pretensamente – como dizer – estimulante. Já pela metade, a garrafa de Catuaba Selvagem expõe-se num canto do balcão, provavelmente está largada ali desde a noite passada. Peço um café. Velho, magro, camisa quadriculada nos moldes das toalhas de pizzaria italiana, o dono do bar faz que sim com a cabeça, mas não interrompe o trabalho de fatiar o rolo de couve. Não tenho pressa. Enquanto espero, olho para a garrafa de Catuaba Selvagem e me distraio com o rótulo de gosto duvidoso. Também observo a pia instalada abaixo do balcão, há nela vários copos por lavar, todos são copos de vidro, daqueles típicos dos bares, botecos e afins: copo americano, cuja marca registrada são os gomos alongados e de pequena protuberância que o envolvem por toda sua circunferência. Servem para tudo, a cachaça, a catuaba, a cerveja, o café, sim, meu café, enfim, é servido num deles, vem desacompanhado de açúcar e de colherzinha, mas não reclamo, já é muito que eu tenha desconcentrado o dono do bar, que, ligeiro, já está de volta ao rolo de couve, dedicação absoluta.

Pela primeira vez ouço a voz do dono do bar, é mansa, quase inaudível. Sem tirar os olhos de sua tarefa, informa o placar de um jogo. O autor da pergunta é um freguês que folheia o jornal no balcão oposto e cuja presença só agora noto. De repente, o dono do bar corta a conversa e mergulha novamente num silêncio de atenção. Como se deslocasse cristais delicados, ele pega um maço de tiras de couve e as leva até uma bacia branca, um ritual bonito de ver, cuidado extremo. Evito perguntar quanto é o café, é pra atrapalhar o mínimo que eu mesmo consulto a tabela de preços pendurada ao lado dos pôsteres de times. Um e cinquenta, aí está a oportunidade de esvaziar o bolso, esse depósito de trocos acumulados. Há pedacinhos de couve grudados em toda parte da palma da mão que se abre para receber as moedas. Sem conferi-las, o dono do bar as joga na gaveta da caixa registradora, o que lhe importa é estar de volta ao rolo de couve.   
Há um detalhe importante que só agora revelo. Desde quando entrei aqui, ouço um chiado insistente. No fundo do bar, a panela de pressão trabalha – aí vem um trocadilho irresistível – a todo vapor. É de lá que surge uma mulher de avental. Mão na cintura, ela lança um olhar de fiscalização, um olhar de dona-do-dono-do-bar, um olhar que explica muita coisa. Vou saindo e já na rua vejo que o quadro escrito a giz ainda não foi atualizado com o prato do dia. Eis um bar de variadas ofertas, o café não é dos melhores, mas a feijoada, a julgar pelo preparo da couve, é mesmo feita no capricho.

Um amor de sandálias


Às vezes o peso das coisas faz a cabeça tombar. Nisso não há demérito, perceba como ao redor é normal encontrar quem também carregue os olhos caídos, os ombros pressionados por um fardo invisível. Andar por aí de cabeça baixa é inclusive a chance de descobrir os quase sempre despercebidos acontecimentos que se dão na altura do chão.

Elas vêm arrastadas, o atrito com a calçada produz efeito sonoro parecido com o riscar de palitos de fósforos. Na dianteira, trazem dedos espremidos, nas unhas há resquícios de esmalte vermelho, pintura desgastada. Não são sandálias comuns, elas também servem à exibição de uma mensagem: na sandália da direita está grafada a sílaba “LO” e na da esquerda a sílaba “VE”, grandes, gritantes, coloridas.

Mesmo em linguagem mercadológica, é um modo muito simpático de afirmar a itinerância do amor, é traçar relação com as distâncias percorridas, com os obstáculos vencidos, e a dureza desses obstáculos encontra farta comparação no desnível das calçadas, na topada em pedra pontiaguda, nas poças de água barrenta, nos dejetos de cães – ai das sandálias se houver uma mínima esbarradinha. As pernas são o motriz que alternam a divulgação da palavra benfazeja, e aqui se enxerga outra missão que é a de atribuir ao amor a interação, não se ama sem o outro, nem sem que haja o revezamento de cooperações, e então por isso o amor é o ponto comum que une a esquerda e a direita – me refiro às pernas. Pode ser que algum desiludido descubra nessas sandálias a maneira de confirmar que o amor é coisa rasteira, e também há quem talvez atribua a elas o significado oculto do amor sensual. Claro, por que não?, isso de ter que juntar as sílabas remete a um quebra-cabeças erótico, ao encaixe dos amantes, mas aí já é assunto que pode se alongar e agora é preciso não perder de vista a pessoa que traz nos pés a matéria-prima do que se tem feito de melhor e pior neste mundo.     

Levanto os olhos e só então a vejo de corpo inteiro. A mão direita segura a alça de uma sacola de compras, que é leve, daí não ser em razão dela que a coluna verga, talvez escoliose. O acúmulo dos muitos anos de vida marca presença em cada articulação emperrada, em cada movimento cuidadoso, nota-se um permanente receio de cair, mas aí estão as sandálias para a manterem firme, já sei que nisso desponta mais outra – a derradeira – forma de interpretação, é o amor sustento, suporte, arrimo, condução, força de reboque, amparo indicado para prevenir tropeços e quedas.   

Lá vai ela por cima das suas sandálias afetivas. Feito Camões, vai andando por aí a querer espalhar metáforas sobre o amor. E, pelo que tenho percebido, ela tem um jeito especial de andar, anda com a cabeça reta e os olhos para frente.

A leitora


Em uma das margens da rodovia, a rampa coberta de grama estende-se até bem alto, arquibancada com vista para o frenesi dos carros, dos ônibus, das motos. Imperceptível aos olhares sempre transitórios, hoje é possível notar que ali é lugar acolhedor a deleitamentos, isso quem demonstra é a moça entretida com o livro acomodado no colo.

Isolada quase no topo da rampa, envolta pelo verde do chão inclinado, ela concebeu um piquenique literário sem convidados visíveis. Os cabelos longos descem até muito perto do papel, as pontas de alguns fios haverão de beijar palavras, sublinhar suavemente uma frase qualquer, quem sabe um aforismo a perdurar na memória pela vida inteira. Os olhos foram capturados pelas páginas e já não há meios de se dispersarem, nada os tira dali. É um anzol de letras, quem é que a fisgou de maneira a deixá-la em transe? Que história tem o poder de mantê-la hipnotizada? Para saber, é preciso muita paciência, a curiosidade impõe vigilância demorada. E, enfim, a prolongada inércia do corpo causa à moça incômodo oportuno à investigação. Ao ajeitar a posição das pernas, ela ergue o livro, cuja capa agora está à mostra, movimento rápido, exibição instantânea, mas o suficiente para a identificação. Dostoiévski.

Como algumas revelações são esclarecedoras! O céu se fecha depressa, frente fria em andamento. Vem vindo aí um vento gelado que sopra em todas as direções, vai puxando para baixo a temperatura. Muito provavelmente a moça agora esteja cercada por uma sensação congelante, dá pra adivinhar seus músculos todos contraídos. Fosse possível colocar-se no lugar dela, aí então a cabeça e os ombros estariam salpicados de flocos em derretimento, seria visível o derredor verde embranquecer-se de neve.

Forma-se um grande engarrafamento ao longo da rodovia. As buzinas devolvem calor à cena, elas são acionadas por motoristas que avistaram a leitora e agora querem roubar-lhe a atenção, instinto rudimentar, tem sido assim desde os tacapes. As buzinas continuam ecoando, e isso é uma persistência inútil. Em destaque, a leitora é avistada por todos, mas não avista ninguém. Ninguém que não esteja em trajes russos.

A postiça festa dos urubus


Não é o tipo de chuva que encharque tanto. Basta apressar o passo, ir alternando o trajeto de modo a caminhar por baixo das marquises, das copas das árvores, e então logo se chega ao destino sem que nas roupas e nos cabelos haja mais do que uma fina camada de umidade que se resolve com o simples espanar das mãos.

No caso, o destino é onde convivem harmoniosamente o político corrupto da vez, o artilheiro da rodada, o saradão da revista fitness, a mulher em pose erótica, Mônica, sua turma e também, descidos direto do olimpo da sabedoria para os fascículos da coleção de Filosofia, Platão, Aristóteles, Kant, Shoppenhauer, Nietzsche, qualquer banca de jornal é sem dúvida um santuário das variedades. Ali em frente, a rua, banhada há horas sem parar, começa a dar sinais de estrago, é o bueiro que entupiu, é a bagunça que os ônibus fazem com as poças d’água. Se isso vai melhorar ou piorar, é natural, quase automático, que eu, meteorologista diletante, olhe para cima. Surpresa.   

O céu branco está pincelado de traços negros, tantos riscos esvoaçantes congestionam os ares a ponto de não caberem todos no enquadramento delimitado pelos prédios. Desço os olhos e eles aterrissam no grupo de três pessoas, uma delas folheia um guia turístico, todos usam capas de chuva, baita exagero, é que o turista deve aproveitar ao máximo a experiência de cada ocasião. Questão de tempo, pouco tempo, um deles descobre o que se passa lá em cima, ele faz o alerta e pronto, três celulares já estão erguidos em busca do ângulo mais favorável.  

Nossa, uma invasão, parece aquele filme do Woody Allen, diz o homem alto, magro, dono de uma simpatia desengonçada. É Hitchcock, corrige a mulher, jeito debochado, o homem sorri, não se leva a sério, e a coisa fica engraçada. Até então calado, o terceiro turista, jovem, sisudo, tatuagem indecifrável no pescoço, inaugura as hipóteses sobre as causas do fenômeno aéreo, é algum bicho morto por perto, a partir daí se instaura um debate especulativo, aqui no meio da cidade acho difícil ser um bicho, tipo boi, vaca, difícil ser um bicho grande que atraia tantos assim, então pode ser que seja corpo de gente, a carne humana é mais atrativa que as dos bichos, cruzes, alguém assassinado ou atropelado, acho mais provável alguém assassinado, sim, corpo desovado, tem razão, aliás pode ser até que sejam muitos, chacina na madrugada.       

Os turistas avançam pela garoa, vão desbravar a cidade, quem sabe esbarrem com algum corpo em decomposição, com algumas carcaças que lhes esclareçam quem dos três melhor conhece sobre assuntos de putrefação. Vindo de dentro da banca de jornais, o jornaleiro traz uma informação importante. Braços para trás, olhos no céu, ele diz: aquilo não é urubu, é fragata, e fragata só come peixe. Repare, é só quando o trio está longe que o jornaleiro, discreto, decide fazer a divulgação. Bem se vê que não é um estraga prazeres.

Chapa quente, cuca fresca


Pendurado na parede, o retrato mostra o perfil de um jovem de bigode e cabelos escuros. Fora o fato de serem a mesma pessoa, o jovem do retrato e o velho no caixa do bar nada têm em comum, o tempo é um escultor de ruínas. Enquanto as mãos manuseiam dinheiro, os olhos se levantam por cima dos óculos, supervisionam o vai e vem dos garçons. É hora do almoço, que se erga o cheiro de fritura.

O prato fumegante pousa ao lado do encarte de supermercados, fazendo com que o casal interrompa o exame dos preços. Ele e ela trocam expressões de surpresa. Imediatamente, ela aperta o botão do celular, e o brilho da tela lhe transmite uma informação.

– Menos de nove minutos – ela fala alto.

A julgar pela risada, o garçom encara aquilo como um elogio, ele se retira apressado, há ainda na bandeja dois pratos para servir. Antes, porém, aproxima-se do chapeiro e lhe cochicha um comentário, os dois acham graça, isso dura poucos segundos, ambos já estão de volta às suas respectivas ocupações, a descontração fugaz se dissipou mais rápido do que a fumaça expelida pela chapa.

O chapeiro usa um chapéu de palha com extravagantes abas largas, está sempre em movimento, é muito ágil em virar e revirar os ovos, os pedaços de frango e linguiça. Para ele, as espátulas são tão íntimas quanto as mãos de tesouras são para Edward. Vigilante ao seu posto de trabalho, está quase sempre de costas, flagra-se agora a exceção em que dois meninos sentados junto ao balcão o fazem dispersar, ele se vira, rosto umedecido, parece haver um plano em andamento. O chapeiro volta-se para a chapa e, dominando algum procedimento de alquimia, provoca a erupção de uma labareda enorme e instantânea. Os meninos levam as mãos aos rostos em gestos simultâneos, estão extasiados, isso é pura mágica. Promover o encantamento infantil é um feito que deixa o chapeiro orgulhoso, seu semblante não disfarça certa vaidade ingênua. Do canto da boca sai um sorriso que é como uma piscadela de quem compartilha um segredo de travessura. Na condição de estar sempre imerso em atmosfera abrasadora, o chapeiro vai inventando intervalos de refrigério.

À noite, de volta ao bar.  Ao redor da única mesa do lado de fora, há ainda a reminiscência de poucos fregueses que conversam num tom acima da sobriedade. É entrar e, quase irreconhecível sem o chapéu de abas largas, lá está o chapeiro às voltas com o zíper indomável da mochila fechada pela metade. Com gás ou sem gás? Solícito, ele para o que faz para atender a um pedido intempestivo, traz a garrafa de água mineral na presteza que lhe é peculiar. A boa disposição contrasta com os olhos avermelhados de cansaço. Já faz muito tempo desde a hora do almoço. Mais de nove horas. 

Ser ou não ser


A padaria é um marasmo só, a lentidão com a qual o ruidoso ventilador de teto demora a completar uma volta dá o tom na tarde quente e preguiçosa. Tem-se aqui um desânimo dotado de propriedades contagiosas, isso se nota pela prostração das atendentes, todas debruçadas no balcão, e pela indisposição generalizada da clientela. Eis então que uma aparição repentina – dessas comparáveis à chegada do cowboy ao sallon de um filme de bangue-bangue – vem destinada a suspender a pasmaceira.

Impossível ignorar os cabelos há tempos sem corte e sem lavagem, os andrajos cobrindo o corpo mirrado, a mochila bojuda, que muito provavelmente é seu guarda-roupa portátil. Contudo, não é o caso em que o figurino roto mereça maior destaque. Como já dito em algum manual de comportamento corporativo, o homem é a soma de suas atitudes.

Há muitas formas de impor a própria presença. No mínimo, duas delas se manifestam assim que ele adentra o recinto. Primeiro, ele levanta os dois braços como se quisesse iniciar a regência de uma orquestra. Depois, apela para um recurso arrebatador: o grito.

– Me respeitem que eu sou o prefeito, eu sou o prefeito.

Ninguém contesta, as pessoas se entreolham caladas, fazem silêncio solidário à insanidade alheia. Outro grito explode em reforço. Mais conciso, traz uma rima aparentemente pensada para favorecer o bom entendimento.

– Quero respeito, eu sou o prefeito.

Satisfeito ou não, o homem se retira, levando embora seu repertório de gestos escandalosos. Dentro da padaria, não se vê repercussão sobre o ocorrido, todos já estão de volta ao enfado de antes, também pudera, viesse o messias, viesse Napoleão Bonaparte, mas o prefeito?! Houve tempo em que a loucura apresentava-se com mais ambição.

A missão não acabou. Do lado de fora, alonga-se a peregrinação a favor de que uma informação esteja ao alcance de todos, a cada um que passa é anunciada a identidade do chefe do poder executivo municipal. Sim, as pessoas vão sendo, aos gritos, devidamente avisadas, em especial o homem baixo, calvo, paciência curta, gaiatice aguçada, ele estica o braço, aponta o dedo e diz:

– Pois então siga naquele caminho, trate logo de ir pra lá trabalhar.

O suposto prefeito se aquieta, permanece parado por alguns segundos. Ajeita a mochila nas costas, recomeça a andar, atravessa a rua, vai se distanciando. E segue caminho na direção contrária à prefeitura.