Chapa quente, cuca fresca


Pendurado na parede, o retrato mostra o perfil de um jovem de bigode e cabelos escuros. Fora o fato de serem a mesma pessoa, o jovem do retrato e o velho no caixa do bar nada têm em comum, o tempo é um escultor de ruínas. Enquanto as mãos manuseiam dinheiro, os olhos se levantam por cima dos óculos, supervisionam o vai e vem dos garçons. É hora do almoço, que se erga o cheiro de fritura.

O prato fumegante pousa ao lado do encarte de supermercados, fazendo com que o casal interrompa o exame dos preços. Ele e ela trocam expressões de surpresa. Imediatamente, ela aperta o botão do celular, e o brilho da tela lhe transmite uma informação.

– Menos de nove minutos – ela fala alto.

A julgar pela risada, o garçom encara aquilo como um elogio, ele se retira apressado, há ainda na bandeja dois pratos para servir. Antes, porém, aproxima-se do chapeiro e lhe cochicha um comentário, os dois acham graça, isso dura poucos segundos, ambos já estão de volta às suas respectivas ocupações, a descontração fugaz se dissipou mais rápido do que a fumaça expelida pela chapa.

O chapeiro usa um chapéu de palha com extravagantes abas largas, está sempre em movimento, é muito ágil em virar e revirar os ovos, os pedaços de frango e linguiça. Para ele, as espátulas são tão íntimas quanto as mãos de tesouras são para Edward. Vigilante ao seu posto de trabalho, está quase sempre de costas, flagra-se agora a exceção em que dois meninos sentados junto ao balcão o fazem dispersar, ele se vira, rosto umedecido, parece haver um plano em andamento. O chapeiro volta-se para a chapa e, dominando algum procedimento de alquimia, provoca a erupção de uma labareda enorme e instantânea. Os meninos levam as mãos aos rostos em gestos simultâneos, estão extasiados, isso é pura mágica. Promover o encantamento infantil é um feito que deixa o chapeiro orgulhoso, seu semblante não disfarça certa vaidade ingênua. Do canto da boca sai um sorriso que é como uma piscadela de quem compartilha um segredo de travessura. Na condição de estar sempre imerso em atmosfera abrasadora, o chapeiro vai inventando intervalos de refrigério.

À noite, de volta ao bar.  Ao redor da única mesa do lado de fora, há ainda a reminiscência de poucos fregueses que conversam num tom acima da sobriedade. É entrar e, quase irreconhecível sem o chapéu de abas largas, lá está o chapeiro às voltas com o zíper indomável da mochila fechada pela metade. Com gás ou sem gás? Solícito, ele para o que faz para atender a um pedido intempestivo, traz a garrafa de água mineral na presteza que lhe é peculiar. A boa disposição contrasta com os olhos avermelhados de cansaço. Já faz muito tempo desde a hora do almoço. Mais de nove horas. 

Ser ou não ser


A padaria é um marasmo só, a lentidão com a qual o ruidoso ventilador de teto demora a completar uma volta dá o tom na tarde quente e preguiçosa. Tem-se aqui um desânimo dotado de propriedades contagiosas, isso se nota pela prostração das atendentes, todas debruçadas no balcão, e pela indisposição generalizada da clientela. Eis então que uma aparição repentina – dessas comparáveis à chegada do cowboy ao sallon de um filme de bangue-bangue – vem destinada a suspender a pasmaceira.

Impossível ignorar os cabelos há tempos sem corte e sem lavagem, os andrajos cobrindo o corpo mirrado, a mochila bojuda, que muito provavelmente é seu guarda-roupa portátil. Contudo, não é o caso em que o figurino roto mereça maior destaque. Como já dito em algum manual de comportamento corporativo, o homem é a soma de suas atitudes.

Há muitas formas de impor a própria presença. No mínimo, duas delas se manifestam assim que ele adentra o recinto. Primeiro, ele levanta os dois braços como se quisesse iniciar a regência de uma orquestra. Depois, apela para um recurso arrebatador: o grito.

– Me respeitem que eu sou o prefeito, eu sou o prefeito.

Ninguém contesta, as pessoas se entreolham caladas, fazem silêncio solidário à insanidade alheia. Outro grito explode em reforço. Mais conciso, traz uma rima aparentemente pensada para favorecer o bom entendimento.

– Quero respeito, eu sou o prefeito.

Satisfeito ou não, o homem se retira, levando embora seu repertório de gestos escandalosos. Dentro da padaria, não se vê repercussão sobre o ocorrido, todos já estão de volta ao enfado de antes, também pudera, viesse o messias, viesse Napoleão Bonaparte, mas o prefeito?! Houve tempo em que a loucura apresentava-se com mais ambição.

A missão não acabou. Do lado de fora, alonga-se a peregrinação a favor de que uma informação esteja ao alcance de todos, a cada um que passa é anunciada a identidade do chefe do poder executivo municipal. Sim, as pessoas vão sendo, aos gritos, devidamente avisadas, em especial o homem baixo, calvo, paciência curta, gaiatice aguçada, ele estica o braço, aponta o dedo e diz:

– Pois então siga naquele caminho, trate logo de ir pra lá trabalhar.

O suposto prefeito se aquieta, permanece parado por alguns segundos. Ajeita a mochila nas costas, recomeça a andar, atravessa a rua, vai se distanciando. E segue caminho na direção contrária à prefeitura.

Escolta


A feira acontece ao rés do chão. Ao longo da calçada estendem-se toalhas, sobre as quais as mercadorias estão expostas. É um comércio rasteiro (na acepção literal da palavra).

Pulseiras e cordões com referência à Jamaica, brincos artesanais, pedras coloridas, porta-incensos, estatuetas de corujas, gatos, elefantes, gnomos simpáticos, tudo isso está à venda, mas o fato é que os mesmos produtos repetem-se em todas as toalhas, não há variedade que diferencie umas das outras. É talvez por esse motivo que um dos vendedores tenha inventado maneira de ganhar destaque.

Sentado em posição de Meio Lótus, ele equilibra na cabeça uma bola azul de plástico, é impossível não lhe dedicar alguma atenção, nem tanto pela habilidade matreira, mas em especial porque as gargalhadas lhe saem fácil, vão sendo despejadas num ambiente inóspito ao entusiasmo, são vibrações sonoras deslocadas no domínio das expressões emburradas que vão e vêm. Qualquer coisa é razão para um sorriso, qualquer coisa mesmo, inclusive as duas armas que, pela esquerda e pela direita, passam rente a cada uma das orelhas.

A cabeça mantém-se imóvel, é preciso preservar o equilíbrio da bola azul, já os olhos, como se entretidos numa partida de tênis, vão de um lado ao outro, acompanham a movimentação ao redor. E ainda que um pouco menos extravagante, lá está o sorriso, ele agora assume a forma de ironia ao poderio dos instrumentos letais que chegam impondo presença ameaçadora, um hippie não se curva às truculências do mundo.      

Coturnos, trajes escuros, armas na cintura. Quando surgem os vigilantes de carro-forte, é inevitável que se instaure no ar uma tensão. Repare os dedos no gatilho, as mãos preparadas para o saque da arma, não é momento de esboçar qualquer atitude brusca, a prudência recomenda cabeça baixa, distância, se possível convém deixar claro: sou pessoa comportada. Mas nem poderia ser diferente, está em jogo o mais perseguido dos anseios, não é com flores ou gentilezas que se defende o objeto de obsessões seculares.

Estão de volta, vindos do shopping ou talvez de algum banco, alguma rede de fast food. As bolsas parecem pesadas, dia de boa produtividade. Sem dúvida, o trabalho é feito com diligência, é como se o dinheiro recebesse tratamento de monarca bem protegido, de celebridade a salvo da histeria. O cortejo vem trazendo a carga preciosa até o carro-forte estacionado logo ali atrás de onde o hippie, sentado, ainda equilibra a bola azul sobre a cabeça, eis aí o sorriso infalível, o hippie observa a cena, continua a sorrir, acha muita graça de tudo isso, afinal o patrimônio que lhe é mais caro, a alegria, não requer escolta. 

Nos vagões da vida, o show deve continuar


O casal entra sorrateiramente no vagão, parece em curso uma missão clandestina. No semblante dos dois está aquele destemor ingênuo só possível aos jovens, a inexperiência tem braços muito longos a quererem dar conta de envolver o mundo num abraço sem fim. O que será que carregam dentro das bolsas de pano? O que merece manuseio tão cuidadoso? O mistério não se prolonga, cada um deles revela seu respectivo objeto. A moça: um clarinete. O rapaz: uma sanfona.

É uma canção francesa, um jazz parisiense, quem explica é a moça do clarinete. Cabelos longos e alvoroçados, vestido encardido, unhas descoloridas, é muito nova, não passa dos dezoito, a julgar pela habilidade musical, provavelmente as partituras lhe são íntimas desde a infância. Ela retoma o concerto, isso de soprar melodias pelo ar é como mágica.

Antes de cada música, os dois combinam alguma coisa aos cochichos, acerto particular. A participação interativa do rapaz não vai muito além disso, ele se limita a tocar a sanfona sem maiores manifestações, não olha para os lados, não sorri, aceita bem o papel de coadjuvante que lhe cabe. Pois então é a moça que vai anunciando as músicas e detalhando informações. Para ela, contudo, a tarefa revela-se um grande obstáculo, falar em público não se equipara ao seu talento musical, a voz gagueja, sai baixinha, quase um sussurro, há nas palavras um entusiasmo artificial. Que mal há nisso? Nenhum. Aliás, a própria audiência é tomada pela timidez, os aplausos são contidos e curtos. Eu mesmo poderia gritar “vivas”, “bravo”, mas, espectador acomodado, nem sequer aplaudo, restrinjo-me à minha contemplação acanhada.  

Não se vê um chapéu virado, não se vê, aberto, o estojo de algum instrumento musical, nada há no piso do vagão que possa servir de receptáculo para notas e moedas. Durante toda a apresentação, nenhum apelo, nenhuma solicitação, nada se pede em troca. Por que eles continuam a tocar com disposição inabalável? Pelo reconhecimento? Não, os aplausos já cessaram faz tempo, as pessoas estão de volta à distração de seus celulares, conversam entre si, a mistura sonora entre clarinete e sanfona transformou-se em mero som ambiente. Mas então por que continuam? De Milton Nascimento a Freddie Mercury, as canções versejam a resposta: todo o artista tem de ir aonde o povo está, porque o show deve continuar.

Desço do vagão, ele se distancia, lá dentro ainda estão a dupla de músicos e também os meus aplausos contidos. 

O seguro não comoveu o velho


As penugens negras fogem das orelhas aos tufos, é mais ou menos o que também acontece com a cabeleira branca que escapa por debaixo do boné. O bigode transformou-se no emaranhado de fios acinzentados e crescidos em direções aleatórias, tapa parte do rosto e da boca. Os olhos estão escondidos atrás dos óculos escuros Ray Ban, a camiseta branca com listras beges mergulha para dentro da bermuda xadrez de cor verde-oliva. Tênis de corrida, meia de algodão, pernas cruzadas, ele demora a perceber o panfleto que lhe pousa no colo.   

Quem entregou o panfleto não é menos vistoso, cabelos e bigode tingidos de preto, cordinha presa nas hastes dos óculos. Blusa mostarda, calça marrom-escuro, ambas, muito largas, cobrem um corpo esquálido. É um vendedor de voz cativante.

– Alarmes, monitoramento 24 horas, cercas eletrificadas, é só ligar pra esse telefone aí embaixo, a gente faz um desconto especial pro senhor.

Todos sabem que o homem de óculos escuros e pernas cruzadas não vai ligar, mas ele ao menos ensaia uma pequena espécie de elegância:

– Tá bem, tá bem, pode deixar.

O vendedor se retira, tem uma pilha de panfletos a distribuir, ele está distanciado quando, postura plácida, o homem de óculos escuros e pernas cruzadas aproveita para se pronunciar. É como se pensasse alto, a fala tanto pode se destinar a ninguém ou a todos:

– Velho não precisa de segurança, precisa de médico.

Depois, põe-se a dobrar o panfleto, disso resultando o aviãozinho de papel Off-set, que não é colocado a prova, fica exposto no banco, mostruário de uma habilidade singela. O homem de óculos escuros já não tem as pernas cruzadas, vai levantando devagar, mistura-se à pequena fila das pessoas ávidas pela abertura da porta dianteira do ônibus.

Quem está de volta é o vendedor de apetrechos de segurança, algo lhe chama a atenção. De imediato, recorre aos óculos e identifica a natureza do aviãozinho de papel. Segue-se uma restauração, o vendedor desfaz pacientemente as dobras do panfleto, devolvendo-o, mesmo amassado, à pilha agora bem diminuída. Não demonstra estar decepcionado, não há em seu semblante qualquer traço de aborrecimento. Antes de partir, retira os óculos das orelhas e os larga ao sabor da gravidade, é uma queda de tempo curto, milesimal, socorro providente, a cordinha atada às hastes dos óculos não os deixa cair. Os óculos estão seguros.  

As imprecisões de um legado


Se já não é bom sinal que uma ambulância vermelha esteja bloqueando o trânsito da avenida, que dirá agora que, de mais próximo, é possível ver que são duas. 

Nessas ocasiões, a curiosidade, animal sem rédeas, arrasta nossa atenção para o meio dos escombros. Quase como autômatos, vamos farejando os detalhes do caos, de maneira a encontrar o que nos faça, em seguida, virar o rosto em reação de choque, isso faz parte da nossa natureza contraditória. É pagar pra ver e também pra deixar de ver.

Esta aqui é uma cena sem carros destroçados, sem cadáveres cobertos por lona, sem sangue acumulado em poça, nada há de matéria-prima para disseminação entre celulares. Mesmo assim não é o caso de subestimar o seu potencial de provocar abalos, esta aqui é uma cena em que o impressionante está nas sutilezas.

A garotinha rechonchuda tem todas as partes do rosto tomadas por um brilho úmido, fez-se ali profusão de lágrimas, alagamento de aflições. Já não chora, os olhos miram o nada, demoram-se bem abertos numa paralisia de hipnose, ela até talvez ignore o que a socorrista lhe sussurra ao ouvido. Mais ao lado, uma das ambulâncias está com as portas de trás escancaradas. Feito pedaço de língua saltado da boca, uma pequena parte da maca avança para fora, deixando ver sobre ela as pernas de alguém, aparentemente uma mulher idosa. Não, não deve ter sido atropelamento, isso tem mais a ver com mal súbito. Como se vê, de curiosos a peritos em investigação, vamos num pulo.

De volta à garotinha. Os cabelos dela mergulham em forma de cachos tão bem definidos que mais parecem esculpidos um a um. De fato, não foi tarefa daquelas concluídas em dois tempos, inclusive porque a tonalidade rósea do lacinho na cabeça combina muito graciosamente com o vermelho-claro do vestido e com o vermelho-escuro das sandálias nas quais se espalham carinhas da Minnie, degradê bem pensado, daí pressupondo o apuro afetuoso, o zelo em cuidar, o jeito aplicado de apresentar uma criança ao mundo.  
A cena vai ficando para trás, por lá muitas dúvidas insatisfeitas, ocorrência inconclusa, nada resta senão torcer, ainda que a torcida, para o bem ou para o mal, seja quase sempre inútil, mentalização com efeito placebo. E assim, provavelmente inócua, a torcida persiste para além da próxima avenida. Que o penteado feito à custa do cuidado em demora não se consuma como um último legado. 

Madrugada complacente


Corro o risco de anunciar o óbvio, de trazer constatação requentada, mas mesmo assim preciso dizer que a madrugada é terreno fértil para flagrantes inusitados. Sei bem o que é isso, sou frequentador contumaz dessa paisagem vertiginosamente insólita. Nos períodos de maior insônia, minha janela se torna camarote com vista para situações as mais pitorescas. Eis mais uma.

A calçada é o camarim, as folhas das árvores formam a cortina que vai se abrindo por obra de uma rajada de vento providencial. Ouve-se o pio de algum pardal também insone, aí está a sineta que anuncia o início da apresentação, que comece o espetáculo!     
Ele desponta vagaroso, capricha no jeito de caminhar, passos meticulosos, cada um deles somente se inicia depois que o antecessor já se completou em definitivo. Na madrugada, a soberania dos carros é posta abaixo: o meio da rua deserta serve de palco para um desfile. E há nisso uma surpresa só revelada agora que ele se aproxima. 

Não usa camisa, e a bermuda está arriada, vai descendo pelas pernas à medida que a cadência dos movimentos avança. Pois bem, as criaturas noturnas, aí incluídos os morcegos, os grilos, a brisa fresca, as estrelas menos recatadas, todas são convocadas ao testemunho de uma desinibição, o homem desnudo passa deixando rastro de desprendimento.

Há pela frente um poste apagado, e é sem qualquer cerimônia que o homem desnudo o abraça, pele e concreto em contato muito íntimo. O abraço se desfaz, e o que resta do afago inicial é a mão alisando a superfície cilíndrica, ela percorre uma volta inteira e mais outras, a velocidade aumenta, o braço se estica, o corpo gira em torno do poste, Fred Astaire descompensado.

Clarão repentino. Incomodado pelo assédio, o poste se acende, artifício muito prejudicial às pretensões performáticas do homem desnudo, que se assusta feito vampiro em derrota, passos para trás enquanto suspende a bermuda. Depois de vestido é que vem a inibição, constrangimento às avessas, ele foge, se afasta da luz, vai para onde não lhe possam notar as decepções, os medos, as fraquezas, o vício ou até, quem sabe, a eventual insuficiência de alegria.         

Agora que a escuridão lhe dá acolhida, ele volta a abaixar a bermuda, caminha lento e elegante, o desfile recomeça e pode até ser que dure pelo tempo em que o amanhecer não dê as caras. O homem desnudo está à vontade. Se toda nudez será castigada, a madrugada é seu salvo-conduto. 

Os pombos e os gols


É um abandono, faz tempo não cuidam do campo. Houvesse ali um jogador de futebol, a grama encobriria suas canelas, tão alta que alcançaria os joelhos. Seja como for, hoje o espetáculo não tem a ver com bola rolando nem com dribles desconcertantes, mas sim com o que acontece numa das traves.

A fileira de pombos faz do travessão um poleiro, eles estão espremidos lado a lado de modo a não haver mais espaço vazio, ocupação completa. São de muitas diversidades: azul-pavão, cinzento, branco da paz, branco malhado, uns estropiados, outros vigorosos. Peitos estufados como de costume, todos estão virados para a direção em que se avista a descida de um avião, procedimento de pouso. A luz do sol incide sobre a fuselagem branca, centelha de brilho que dura o tempo de um flash. O que será que os pombos confabulam sobre o avião? Será o gigante metálico dos céus uma espécie de deus das aves?

Como não pensei nisso antes? A cena dá uma foto e tanto. A depender do ângulo certo, posso até me passar por fotógrafo de enquadramentos sensíveis. E depois ornamentar a fotografia, brincar de artesão da imagem, moldar matizes, testar efeitos: sépia, turquesa e – o mais elegante – preto e branco. Ao final, ampliar a fotografia e escolher a moldura.

Devaneio fatal. Enquanto planejo os detalhes do meu vão ensaio fotográfico, os pombos alçam voo, um a um desfazem a cena, parecem ter adivinhado a minha intenção, esses são bichos ariscos que não admitem serem capturados nem sequer nas balizas de uma fotografia.  

A esta altura, o avião já pousou, quem sabe até tenha voltado a decolar, foi feito para estar nas alturas. Os pombos se dispersaram, cada qual a ciscar em algum telhado, numa praça qualquer. A trave repousa abandonada em meio à grama alta, ao menos por um tempo está livre das boladas disparadas por chutes sem mira. 

É uma pena não haver fotografia daquela reunião que não se sabe quando e se será presenciada outra vez. É a imagem portadora de veracidade inconteste, reveladora de detalhes em abundância, causadora de impressões imediatas, mas em sua falta, este relato, desajeitado e insípido que seja, também serve de registro. Que os pombos não se sintam ressabiados, aqui estão livres para fazerem o que quiserem.      

Exibimos filmes pornográficos


Espalhados pelo centro, alguns cinemas eróticos não se deixam ver com tanto alarde, têm seus sinais, seus códigos; os frequentadores sabem identificar o significado da cortina vermelha, dos cartazes e seus títulos maliciosos, mas há também os que dispensam comunicações incógnitas, são apressados em dar explicação sobre sua serventia, como é o caso deste aqui, atrás da Cinelândia, ele não titubeia: “Exibimos filmes pornográficos”.

O letreiro ocupa quase a fachada inteira que é para não haver dúvida sobre a natureza do entretenimento. Claro, os horários também estão muito bem divulgados. Inclusive, daqui a quinze minutos começa uma sessão, aí está a oportunidade para bisbilhotar a audiência do lugar. Eu sei, é quase uma invasão de privacidade, mas prometo não ir muito além da observação superficial, não sou de devassar costumes nem expor ninguém a revelações. Aliás, eu é que me revelo um espião fajuto, vem se aproximando alguém já conhecedor da minha curiosidade, cabelos brancos penteados para o lado, barriga perfeitamente arredondada, parece carregar por dentro da camisa uma bexiga de ar inflada até quase a última consequência do estouro, o sujeito é do tipo conversador:

– Lá dentro o bicho pega.

Sorrio com cara de interrogação como se querendo me passar por desentendido.

– Ali só passa filme repetido, aquilo é um engana-trouxa – ele continua.

Já que não sustento a conversa, o sujeito não fala mais nada, apenas permanece ao meu lado, é mais um a exercitar a contemplação infame.  Vemos quando a porta se abre e agora, como se surgidos de algum esconderijo, os espectadores, em grupo, irrompem pela entrada do cinema, neles se destaca uma faceta impossível de ignorar: todos são velhos, alguns muito velhos, dois dos quais não conseguem se deslocar sem o amparo de suas muletas. Apesar de tudo, não se pode deixar de reconhecer que ali vigora certa áurea de serenidade, eles estão silenciosos, compenetrados, comportam-se como prestes a entrar num concerto de ópera. Por estranho que pareça, há ali alguma pureza.

Uma garota e dois garotos passam em frente ao cinema, os três olham ao mesmo tempo para o letreiro e então começam a rir, vão fazendo comentários zombeteiros enquanto se afastam. São jovens, não compreendem que ali dentro está sendo travada uma batalha dramática em que se opõem o homem e o tempo. É provável que aqueles velhos, reclusos em suas debilidades, encontrem na tela uma forma de driblar a distância até os remotos dias de pujança funcional. Quem sabe deleguem aos atores de desempenhos frenéticos, de frêmitos extravagantes, de peles firmes a tarefa de reativar memórias, de reacender algum entusiasmo perdido na pilha de décadas acumuladas, se por um momento, um instante ínfimo que seja, sentirem-se novamente tomados pelo regozijo da mocidade, aí então já será uma boa desforra contra o tempo que lhes roubou o vigor. Lá dentro, a sala escura talvez não seja só um parque de salientes diversões, também é onde se pratica um ato de resistência à decrepitude.

Todos parecem ter entrado na sala, a sessão vai começar. É aí que, num ímpeto, o sujeito ao meu lado atravessa a rua e, apressado, adentra o cinema. Não disse nada, não se despediu, está certo, não me devia satisfações. Sim, está certo, o trouxa que se deixa enganar é na verdade um perseverante, um otimista incorrigível.        

A vida é um sorvete derretido


Quanto sabor! Que deleite! Está tudo muito bem, mas aí cai a primeira gota, muitas outras se sucedem, agora já é o caldo alagando o dorso da mão, a avalanche cremosa desce devagar até invadir as riscas entre os dedinhos. A menina vai da alegria ao susto, esbugalha os pequenos olhos, desespera-se por ter perdido o controle da situação. O rosto se ergue em direção a quem de praxe lhe resolve as encrencas, resta a ela o socorro da mãe.  

A mãe, porém, não toma qualquer atitude. Ponta do nariz, boca, queixo lambuzados, a menina se impacienta e ameaça chorar, mas ainda assim a mãe permanece impassível. É prematuro estranhar essa reação, certamente ali está em curso a aplicação de uma lição sutil, é como se a mãe, mantendo os olhos compenetrados na menina, dissesse a ela: é assim mesmo, minha filha, vá se preparando para lidar com essa mistura de prazer e percalços, de euforia e incômodo, de gosto e desgosto. A menina se aquieta, parece ter se curvado à sabedoria materna e só o que lhe importa é aproveitar o pouco que ainda não derreteu. Agora sim é hora de agir, a mãe retira da bolsa uma toalhinha cor de rosa e a esfrega nas mãos e no rosto da menina, é uma brutalidade carinhosa que logo faz restaurar a aparência de criança asseada.            

Isso faz lembrar um programa de entrevistas, ao final do qual Antônio Abujamra, invariavelmente e em tom grave, encurralava o entrevistado com a pergunta “o que é a vida?” Havia silêncios constrangedores, contorcionismos filosóficos, definições interessantes, nada, contudo, demovia o entrevistador de, também invariavelmente, insistir na pergunta: o que é a vida? Talvez a repetição fosse menos por empáfia ou insatisfação e mais porque a resposta não se esgota, requer renovação, aprofundamento indefinido. Hoje, só hoje, arrisco a seguinte resposta: a vida é um sorvete derretido. Nem sou eu quem a formulou, ela veio dessa força da natureza, que é a comunhão entre mãe e filha.