Os funcionários desembarcam da carroceria
do caminhão da prefeitura. São soldados da zeladoria, empunhando lanças com
pontas de broxas encharcadas de tinta branca. Não demora e os caules das
árvores, os meios-fios, as bordas de canteiros vazios são pintados, melhor dizer
que recebem um banho de tinta. A dosagem exagerada mancha as calçadas, faz
esvoaçar respingos no asfalto e deixa borradas as linhas traçadas para demarcar
vagas de estacionamento.
Dou de cara com um coelho enorme no
meio da praça. Enquanto não o aproveitam como decoração de Páscoa, ele fica ali
à vista de todos com ar abobalhado. Dois funcionários da prefeitura largam seus
instrumentos de trabalho e se aproximam do coelhão. Iniciam então a inspeção dos
elementos de praxe: as orelhas pontiagudas, o sorrisinho dentuço, os olhos
avermelhados. Especialmente quanto aos olhos, os dois não se contentam em
contemplá-los. Sacam os celulares, acionam as câmeras e passam a filmá-los por
um bom tempo. O que de curioso há naqueles olhos?
No dia seguinte, eu me aproximo do
orelhão abobalhado. De fato, ele me olha como se acabasse de me contar uma piada
sem graça. Tento descobrir qual o detalhe intrigante dos seus olhos. Decifro então
aquilo que tanto chamou a atenção dos funcionários da prefeitura no dia anterior:
um QR code.
Olho para todos os lados. Não quero
deixar a impressão de estar deslumbrado com um bicho decorativo tamanho família.
Certo de que ninguém me observa, aponto a câmera do celular para os olhos do
coelhão. O link gerado pelo QR code me conduz à loja virtual de uma marca de
chocolates.