Passeio, passagem

 

Da minha janela estava acostumado a ver o passeio que acontecia duas vezes por dia. No início da manhã e no fim da tarde, caminhavam devagar, sempre mantendo certa distância entre eles. Sempre a mesma distância. Parecia medida à régua.

À frente ia o dono. Atrás, carregando sobre as quatro patas o peso de uma longa vida canina, o cachorro de pelo cor de fogo exibia um desfile desengonçado. Um dos primeiros choques de realidade que tive na vida foi descobrir que o andar com oscilação das ancas é característica comum em cães em estado terminal. Os cachorros que já tive não viveram até a fase senil, no entanto me lembro bem que o Joli, um vira-lata do vizinho, em determinado estágio de sua velhice só conseguia se locomover arrastando as patas traseiras. Essas memórias eram despertadas assim que, há até bem pouco tempo, eu parava o que estava fazendo para observar a dupla passar.



Um bisbilhoteiro das coisas do cotidiano vira e mexe se vê transtornado ao se dar pela falta do que lhe ocupava habitualmente momentos de observação. Por dias estranhei o fim dos passeios. A sorte é que os dois são daqui da vizinhança e por isso não demorei a me atualizar sobre as condições do cachorro ao vê-los interagindo entre eles no pequeno gramado que fica na parte da frente do prédio onde moram. A debilidade do cão cor de fogo tem feito com que seu dono precise levantá-lo pelo quadril para movimentá-lo. Certo dia o vi sendo carregado no colo para dentro da portaria.



Hoje em dia, toda vez que saio de casa, altero meu percurso usual de maneira a passar em frente ao prédio do cachorro de pelo cor de fogo. Ao me deparar com sua coloração em contraste com o verde da grama, analiso se as pernas traseiras ainda conseguem ter alguma mínima firmeza no chão. Chama a atenção o quanto elas tremem, fraqueza de decrepitude.



Nessas ocasiões, fico esperando que me olhe de volta, olhos negros e profundos, língua arfante. Quando ele me encara, simulo perguntas, quero saber dele se tem noção de sua finitude, se está preparado, se sente medo. Sua reação é sempre a mesma: desvia o olhar e vai cheirar a flor mais próxima que encontra.


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Abordagem

 

— O que é que tá escondendo aí?

Corri para a janela e a primeira coisa que vi foi um rapaz com os braços para o alto depois de ter saído de trás da árvore. Enquanto descia um pequeno barranco, obedeceu às ordens para abrir bem a boca e suspender a camiseta, deixando a cintura à vista. A voz que me havia atiçado a curiosidade voltou a trovejar:

— Tem droga dentro dessa bolsa?

Quepe, óculos escuros, a farda vestindo um corpo avantajado. O dono da voz, policial que poderia se passar perfeitamente por personagem caricato de um esquete do Porta dos fundos, estava parado ao lado da porta do carona recém-aberta. O azul claro das viaturas da polícia militar fluminense não tem o tom do azul da Guanabara nem do azul do céu do Corcovado. Suas luzes agitadas eram dispensáveis sob o sol do meio-dia. De costas para onde eu avistava a cena, havia outro policial parado ao lado da porta do motorista.

Negro, magro, camiseta branca em que se lia Nike air, bermuda, chinelos de dedo, o rapaz falava baixo, mas ao mesmo tempo se empenhava em afirmar a inocência. Dizia ser andarilho e que na bolsa largada no chão só havia roupas. Pró-ativo, levou-a até o policial que estava parado ao lado da porta do motorista, não se descuidando dos movimentos executados com extrema precaução.

O policial colocou a bolsa em cima do capô da viatura, abriu-a e começou a retirar dela roupa por roupa. Estavam todas bem dobradas, não resistindo, porém, à bruta inspeção. Logo já eram um punhado de tecidos amarfanhados. De repente, um objeto se destacou entre a pequena bagagem.

Após ajeitar o fuzil no ombro, o policial da porta do motorista entregou seu achado ao colega. Por trás dos óculos escuros, os olhos fixaram-se na carteira de trabalho. A mão estabanada folheou página por página, tendo se detido em uma delas. Em seguida, o policial da porta do carona aproximou-se do rapaz e lhe mostrou a carteira de trabalho aberta.

— Tu é esse aqui?

— Sou eu.

— Mas esse aqui tá gordo e tu tá na capa do Batman — concluiu o policial sem esperar justificativa — Usa crack?

— Não, não — duplicou os nãos o rapaz na tentativa de ser convincente.

— Tem passagem?

Como se quisesse espantar de si uma maldição, o rapaz balançou a cabeça negativamente.

E enfim não havia mais razão para o procedimento continuar. Um alívio para o rapaz, para mim e, quem sabe, também para os próprios policiais, que, ao saírem com a viatura, deixaram uma advertência enigmática:

 — Vai pra casa. Não fica na rua, não.

O rapaz foi acometido pela sensação de alheamento que sucede um episódio de trauma. Sentou-se em uma mureta baixa e com a expressão perdida se pôs a arrumar as roupas dentro da bolsa. Por várias vezes precisou ajeitar o volume dentro dela, de maneira a fazer correr o zíper. Depois, improvisou as alças da bolsa nos ombros, transformando-a em uma mochila. Ele então se levantou, olhando para os lados. Já desperto da apatia e com as mãos desocupadas, escalou o pequeno barranco, foi para trás da árvore e pegou do chão uma áurea, bojuda e portentosa jaca.

Carregava a jaca como se tivesse nos braços um bebê. Tinha pressa. Escolheu um banco da Praça Noel Rosa e se sentou. Usou as unhas para tentar romper a casca da fruta. Contudo, interrompeu o que fazia. Voltou a olhar para os lados. Parecia avaliar se sua atitude era suspeita ou não.


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A etiqueta do cão cor de barro

  

Na lista repleta de opções rasuradas, escolhi um x-burguer e pedi que ele viesse sem maionese e presunto. O garçom titubeou, transparecendo certa recriminação por eu ter simplesmente desmontado a combinação de ingredientes que alguém um dia elaborara com o intuito de oferecer uma caprichada experiência de sabor e saciedade. A tempo de revisar mentalmente o postulado de que os clientes – incluindo os que preferem levar desvantagem – têm razão, o garçom recobrou os modos diligentes e saiu apressado enquanto abanava o rosto com o cardápio, papel grandão, plastificado e com mais emendas que a Constituição da nossa República.

Depois da primeira abocanhada, virei-me e vi um cão que me observava com as orelhas em riste. Duas coisinhas sobre ele: seu pelo era amarronzado, um marrom que só consigo comparar ao barro feito de lama de terra clara. E o mais importante é que mantinha de mim uma distância respeitosa. Ele sabia que se ultrapasse determinado perímetro poderia se passar por inconveniente.      

Segundo o profeta (e as camisetas de souvenir), gentileza gera gentileza. E eu ouso acrescentar que compostura gera recompensa. Arranquei um pedaço do x-burger e o deixei no chão, próximo ao pé da mesinha instalada no calçadão. O cão avaliou minha atitude e se aproximou devagar, vencendo a desconfiança natural que se deve ter com um espécime humano. Depois de levar o pedaço para o exato lugar onde estava, saboreou com gosto a generosa porção de queijo derretido, o pão de hamburguer, a carne, os cubinhos de tomate. Tínhamos então estabelecido um trato silencioso. Repeti o gesto por umas três vezes e ele também fez tudo igual, recolheu o pedaço, levou para o lugar de costume, mastigou suave. Não é exagero dizer que dividimos meio a meio a refeição.

Há quem teorize que os cães são bajuladores sagazes. Fazem de um tudo para agradar as pessoas que os alimentam, questão bem calculada de sobrevivência. Não sei, talvez sim, talvez não. Na prática, o fato é que quando me restava o último pedaço do x-burguer, pensei em deixá-lo para o cão, mas já não mais o vi no lugar em que ele, em conformidade de como se desenvolveu nosso acordo implícito, havia pacientemente aguardado que seus outros quinhões fossem depositados sobre o chão. Pouco depois, enquanto caminhava pela rua, voltei a encontrá-lo. Ele dormia, mas acordou repentinamente. Fizemos contato visual e ele me ignorou. Sua memória canina nem sequer fez questão de preservar a minha imagem por alguns minutos. Até nisso aquele cão se mostrou elegante, evitando que crescesse em mim a vaidade de pensar que ele me devia alguma coisa.


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Janelas


Sempre que limpo a casa, estendo os tapetes na janela dos fundos. É onde o sol se apresenta mais generoso (ou mais inclemente, a depender da época do ano). Em várias dessas ocasiões, costumava dar de cara com a moradora do prédio que fica atrás do meu. Quando me via da sua janela, ela invariavelmente desviava o olhar, fingindo que alguma coisa ao redor lhe havia despertado a atenção. Com o tempo, desenvolvi a mesma técnica. Era como se ela não me visse estendendo o tapete e era como se eu não a visse contemplando a agitação da paisagem.

Não quer dizer que eu tenha deixado de perceber algumas coisas. Às vezes, ela murmurava. A impressão era a de que conversava baixinho consigo mesma. Depois, concluí que na verdade rezava, e isso pode ou não ter a ver com um adesivo verde colado no canto da janela, nele havendo a seguinte recomendação: “O acaso não existe. Leia Kardec.” Ela usava como indumentária permanente uma bandana colorida que enfeitava os cabelos formados por cachos modelados com perfeição. Para mim, aquela bandana de cores vivas era uma espécie de símbolo, uma marca registrada. Certa vez vi um rapaz que, após sair do prédio, acenava para ela. Lá da janela, a resposta foi econômica, uma indisposição para a despedida.

Por esses dias, no grupo do prédio onde moro, noticiaram que alguém do prédio de trás havia falecido. De início, não identifiquei de quem se tratava e a partir de então passei a fazer suposições. Pensei na senhorinha que de vez em quando passeia com a cachorrinha no colo, sem nunca permitir que o bicho estique as perninhas. Pensei na mulher que, da janela do seu apartamento no terceiro andar, costuma se mostrar muito preocupada toda vez que o jardineiro se aproxima das suas plantas, advertindo lá de cima para que ele não as arranque do gramado. Em seguida, as suspeitas se reduziram a uma pessoa, por causa de outra mensagem postada no grupo: “Que Deus possa confortar seu filho.”

Já era noite quando fui até a janela dos fundos. À frente, avistei o quarto iluminado. A janela e as cortinas escancaradas deixavam à mostra o filho, o mesmo rapaz do aceno. Ele e algumas pessoas esvaziavam o armário e faziam a divisão das roupas. Em pouco tempo, a luz estaria apagada, a cortina esticada e a janela fechada. E permaneceria fechada, ainda que lá fora a paisagem se agitasse. Por força de uma epifania me dei conta de que os cabelos formados por cachos modelados com perfeição eram na realidade uma peruca. Tenho vontade de saber qual terá sido a destinação dada à bandana de cores vivas.



Ainda bem que foi sonho

 

Peças de dominó de pé e na horizontal, uma atrás da outra. Na falta de comparação melhor, vai essa mesmo. É uma imagem fuleira para ilustrar o formato e a disposição de dez prédios que entre si formam ruas onde, aos sábados e domingos, uma combinação de sons anuncia a passagem do sorveteiro. Um assobio com notas desengonçadas, o barulho da buzina acoplada ao carrinho e o que parece ser um grito de guerra em língua estrangeira, tudo misturado, são a sua marca registrada.

É estranho que eu, marmanjo, seja provavelmente o único por aqui a dominar informações sobre o itinerário do sorveteiro. Nunca vi criança alguma cercá-lo, persegui-lo, chamá-lo, nenhuma delas puxando a mãe ou o pai pela mão para ir ao encontro dele, nenhum flagrante de pirraça feita em razão do picolé negado, vai ver eu e o próprio sorveteiro somos tipos antiquados que já não dão conta das atualizações frenéticas destes tempos que correm. Correm tanto que já começam a tropeçar nas próprias pernas.

Tarde de domingo. Ouço ao longe o sinal de que ele se aproxima. Resolvo então tomar as ruas que cercam o bloco de prédios. Estou na esquina  entre uma delas e a perpendicular. Lá na outra extremidade vejo passar o sorveteiro. Conheço outro dos seus métodos de trabalho: ele percorre as ruas em zigue-zague. É por isso que me adianto pela perpendicular, caminho paralelamente à lateral de um dos prédios e viro à direita. A parafernália sonora que o antecede vai se avolumando. Avanço pela rua, no final da qual, se estou certo, ele surgirá daqui a pouco. É o que acontece. A máscara vermelha amarrotada no pescoço dá a ele aspecto de elegância involuntária. Pelos meus cálculos vamos nos encontrar bem no meio da rua.

– Tem de leite condensado?

Os olhos dele se acendem. Provavelmente sou o primeiro freguês depois de muito tempo. A satisfação com que responde que, sim, ele traz em seu carrinho picolés de leite condensado é a expressão do reencontro com sua autoestima. Reconhecendo-se necessário, sente-se à vontade para uma confidência.

– Sabe que tive um sonho estranho essa noite? – comenta ele, interrompendo o ato de levantar a tampa do carrinho.

Eu então o encarei atento. Nunca se deve deixar de ouvir o sonho de alguém.

– Rapaz, sonhei que os picolés tinham virado água. Todo o mundo ficava zangado comigo, porque quando eu ia pegar o picolé, tudo era só água, e a água ficava mudando de cor, cor de uva, cor de abacaxi, cor de chocolate. Nossa, que humilhação danada! Ainda bem que foi sonho. O bom de sonhar coisa ruim é que você acorda e desfaz o susto. Em compensação, sonhar coisa boa às vezes te ilude. Você acorda e a coisa boa era só sonho.

Ele abre a tampa do carrinho, não sem antes fazer um pequeno gesto de hesitação. Constata, enfim, que os picolés estão intactos e sorri um sorriso menos de zombaria e mais de alívio. Enquanto lhe entrego a nota de dois reais, uma baforada gélida escapa e nos envolve, trazendo à memória a imagem do menino que se debruçava no refrigerador da padaria e mergulhava meio corpo no recipiente gelado com a missão de escolher muito rapidamente qual sabor de picolé compraria.

O sorveteiro me deseja um bom domingo e imediatamente reinicia a emissão sonora que lhe é tão própria. Segue seu percurso, vai se afastando. Quando perto de virar a esquina, ele passa a compor uma imagem digna de registro. Atrapalhado, acumulo nas duas mãos o picolé e, na posição horizontal, o celular com o qual pretendo tirar uma foto do sorveteiro inserido na atmosfera alaranjada do entardecer de inverno. Permaneço imóvel e concentrado. Estou prestes a captar o momento exato em que um raio de sol incidirá no carrinho. Não vai derreter. Vai brilhar.




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Desentendidos

 

Alguém podia ajudar ela aqui?

A mulher apontou para um corpo imóvel deitado no chão. Velha, agasalhada, olhos fechados, barriga para cima sobre a qual as duas mãos entrelaçavam os dedos, pose de defunta. Criou-se logo um pequeno tumulto.

Senhora, senhora. A senhora tá bem?

Clamava uma adolescente, enquanto ao lado a mulher que a acompanhava, provavelmente sua mãe, digitava a tela do celular.

Pra chamar ambulância é 192?

Quando todos já se convenciam de que se tratava de um caso perdido, os olhos da velha se abriram assustados. Ela usava toca e máscara. O rosto quase todo tampado deixava o olhar confuso em evidência. Passou então a esfregar as mãos pelo corpo, debatia-se como um bebê inábil em coordenar os movimentos dos braços e das pernas.

O que a senhora tá sentindo?

A velha se levantou sem dar atenção às vozes que chamavam por ela. O que lhe interessava era mirar o alto. Talvez já fosse íntima do céu sem estrelas. As pessoas ao redor ficaram chateadas. Logicamente, a primeira impressão era a de que elas estavam contrariadas pela perda de tempo. Mas tenho pra mim que o aborrecimento delas se devia à frustração de não terem conseguido cada qual sua medalha de benevolência. Ser bom e ser melhor têm muito mais a ver com o comparativo de superioridade do que nos ensina a gramática.

Enquanto todos se dispersavam, a velha mantinha um animado bate papo com o céu escuro, talvez o único interlocutor que conseguia decifrar sua linguagem formada por grunhidos e gargalhadas.

Tempos depois, uma ambulância surgiu apressada, gritando e emitindo luzes que pareciam refletidas a partir de um estroboscópio de discoteca. Deu três voltas no entorno de onde não havia sinal de que alguém precisasse dela e, por fim, foi embora. Devagar, silenciosa, apagada, triste.


Livros do autor: A vida é um sorvete derretido  e  Viva Ludovico


Ressurreição

 



Antes árvore, agora sol na tua cara. É o que estava pichado em vermelho no muro branco. Vasculhei o arredor e me alegrei por ter entendido o sentido da frase, orgulho besta parecido ao de quem desvenda uma charada.

A julgar pelo calibre do tronco cortado quase ao rés do chão, a árvore tinha porte suficiente para sombrear um terço da rua, incluindo o muro pichado que agora, exposto, recebia a incidência do sol abrasador. No canteiro onde estavam os despojos da árvore, pequenas flores coloridas haviam se espalhado feito aqueles minúsculos insetos que orbitam a banana passada, e isso, associado ao que estava escrito no muro, legítimo e retumbante epitáfio, dava ao cenário contornos de funeral.

Por dias me auto pressionei com a pergunta intermitente: por que não fotografei? Pois então retornei à rua onde enquadrei com a tela do celular vários ângulos do que a partir de então estava devidamente registrado no catálogo de fenômenos da dinamicidade urbana. E foi sorte.

Digo sorte porque poucos dias depois, como se por efeito de um ato profanador de memórias, o muro foi pintado pela metade, restando do epitáfio as palavras “sol na tua cara”, que, remanescentes e desconexas com o contexto geral da cena, foram reduzidas a um grito incompleto sem força de eloquência. Quem quer que tenha pintado o muro também quis deixar algum recado: seja sobre estender um pouco mais o mísero pedaço da homenagem, seja simplesmente sobre dar mostra da incompetência da zeladoria pública. Ocorre que, na semana seguinte, o muro foi pintado por completo e as florezinhas que coloriam o sepulcro arbóreo foram todas elas ceifadas.

Quis a coincidência, dessas que nos iludem ou, o que talvez dê no mesmo, amenizam nossa desilusão, que neste domingo de Páscoa, 21 de abril de 2019 (os céticos do futuro conferirão no calendário), eu estivesse na rua em que tudo se passou. Não há nada mais que se refira ao memorial da árvore abatida. Só que, sobrevindo ao epitáfio, às flores e ao registro da fotografia de celular, há um ramo que eclodiu do meio do cotoco de tronco ressequido. É ainda fino, frágil, verde, mas aponta na direção do céu.



Outras crônicas do autor no livro A vida é um sorvete derretido


Desmascarado


Fui com a cara, com a coragem, com a máscara e com o cabelo crescido, tão descontroladamente crescido que recebeu do barbeiro o seguinte diagnóstico: 

— É, já tava na hora, né!?

Barbeiro das antigas, sua altura, ou a falta dela, servia de inspiração para o apelido e para o nome do estabelecimento, Barbearia do baixinho. Pediu que eu me sentasse no cadeirão típico das barbearias e depois, num movimento parecido ao do pescador que joga sua tarrafa para bem longe, cobriu-me com uma capa branca, de mim só sendo visível o pescoço para cima.

Havia na barbearia outros barbeiros que cuidavam de seus respectivos clientes, todos mascarados, mas deixemos que eles fiquem na condição de meros figurantes da cena, importando destacar a mulher que entrou dividida entre carregar um bebê no colo e abrir a porta da barbearia. Ela usava uma máscara colorida com desenhos da galinha pintadinha, e o bebê, criaturinha portadora do passaporte especial dos imunizados, era o único no recinto com o rosto completamente à vista. Baixinho me pediu licença e foi até onde estavam os dois. Pelo que entendi, a mulher era sua filha, e o bebê, seu neto. Através do espelho, vi que ele fazia palhaçadas para tentar arrancar um sorriso da criança. Não conseguiu. Ao retomar o trabalho, estava visivelmente frustrado.  

Cortar, aparar, raspar são serviços quase sempre acompanhados pelo bônus consistente no que os barbeiros desenvolveram como elemento tradicional ao ofício: a conversa. Como se se dirigisse a um velho conhecido, Baixinho tratou de manifestar seu ponto de vista sobre a conjuntura da epidemia.

— O brasileiro não tem disciplina. Ninguém sabe usar direito a máscara.

Mal terminou de falar e teve um insight. Parou o que estava fazendo e quando olhou para o espelho deu de cara com seu reflexo a lhe mostrar que a máscara só tampava a boca, deixando de fora o nariz.

— Tá vendo só?

Ele disse isso não sabendo exatamente a reação escondida por detrás da minha máscara. Seu comportamento não era tanto de embaraço, mas mais de orgulho pelo fato de que sua tese havia se comprovado de imediato e bem à frente dos nossos olhos. Aí está o homem em demasia, acerta, erra, tem razão por estar certo de que está equivocado.

Um tempo depois e só o que restava sobre minha cabeça era uma camada de fios curtos, de um jeito que dava pra notar alguns pontos de clareira. Minha calvície não será do tipo que avança pelas entradas da testa, e sim daquelas em que o cabelo começa a minguar em áreas espalhadas do couro cabeludo. Para isso existe solução, pelo menos é o que Baixinho me assegurou, inclusive explicando como é o tratamento. Falou ainda sobre futebol, política, comportamento e religião, ocasião em que pegou uma bíblia guardada na gaveta abaixo do espelho. Ao encontrar uma página previamente marcada, anunciou o versículo e leu o seguinte trecho: “Agora, filho do homem, apanhe uma espada afiada e use-a como navalha de barbeiro para rapar a cabeça e a barba. Depois tome uma balança de pesos e reparta o cabelo.”

Sim, demorou, mas enfim o trabalho ficou pronto. Antes mesmo de me desvestir a capa branca, Baixinho se deslocou apressado até uma das cadeiras que serviam para a espera dos clientes, lá onde estava sentada sua filha com o neto no colo. Postou-se então na frente dos dois e retirou a máscara do rosto. O menino, até aquele momento amuado e manhoso, se iluminou por efeito de uma gargalhada contagiante, se é que esse seria o melhor adjetivo em tempos como estes. Foi bem rápido. Movido por um impulso de urgência, Baixinho recolocou a máscara, inclusive tampando o nariz. Ao voltar para perto de mim, estava visivelmente satisfeito.



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A redenção dos bichos


O posto de rei das selvas precisava ser atualizado. Uma área descampada passou a servir de palco para os embates. Defendendo o seu reinado, o leão até então havia vencido todos os animais que ousaram enfrentá-lo, restando como último adversário um rinoceronte natural das savanas mais arbóreas ao sul. O leão achou que suas vitórias haviam sido muito fáceis e por isso queria uma luta final mais desafiadora. A solução foi transferi-la da área descampada para a paisagem de matagal, lugar com o qual seu oponente estava mais familiarizado. Mesmo com um pouco mais de dificuldade, o leão, enfim, venceu. Sua conquista foi menos entediante, e ele foi confirmado como rei das selvas, ao menos até o dia seguinte quando morreu vítima de um tipo de carrapato insaciável só encontrado em regiões de matagal. Por justiça, o carrapato foi então declarado o novo e legítimo rei das selvas.
Essa é uma fábula de arrogância, prepotência ou simplesmente de ingenuidade quanto a agarrar-se a uma condição de importância ilusória que se atribui a si mesmo. Há nela algo de Davi e Golias, algo de Cavalo de Troia e, mais especificamente quanto ao leão, há muito do homem.
O homem, essa criatura tão habituada a engaiolar passarinhos, a confinar bois e porcos, a envidraçar peixes, quem diria, agora está trancafiado porta adentro sem previsão de poder voltar a espalhar perturbação por aí. Ora, ora, pois então é a vez de os bichos irem à forra. Mais à vontade, sossegados e imunes, terão oportunidade de observar, do lado de fora, a aflição da humanidade enclausurada, talvez até se distraiam com o que poderia ser definido como um jardim zoológico às avessas.
Por essa razão, em pleno ambiente urbano, surgem tipos de bichos que em condições normais não costumam se expor ao temerário convívio com o homo sapiens. Da minha janela, já acompanhei a revoada de três tucanos que por alguns minutos fizeram escala em calhas e antenas parabólicas. Também já me deparei com um gavião rajado que se demorou em pose altiva na cumeeira de um telhado. São tempos em que passei a ouvir com frequência, vinda das árvores do entorno, a algazarra de miquinhos serelepes e histriônicos. Como se não bastasse, testemunhei a aparição de uma ave belíssima que até então eu desconhecia. Depois, em consulta ao google com os termos “ave, cara preta, peito branco, asas roxas”, descobri que se tratava de uma gralha-do-campo. E ainda quanto a toda essa desenvoltura dos bichos, quero falar sobre Orfeu.
Dei o nome de Orfeu a um gato que, ao longo da quarentena, se revelou muito afeito a passeios noturnos, honrando uma das mais inerentes tradições felinas. Sempre antes de dormir, quando me aproximava da janela para fechá-la, lá estava ele misturado à escuridão da rua, confortável em sua solidão, os movimentos camuflados pelo silêncio eram quase imperceptíveis. Por noites e noites, como se em obediência ao horário de um remédio, cumpri o ritual de observar a caminhada vagarosa e elegante de Orfeu. Mas houve a ocasião em que, desastrado, cometi o erro de fechar a janela com muita força. Orfeu se assustou e se virou abruptamente para a minha direção. Seus pequenos olhos brilhantes me encararam com desgosto. Antes de retomar a caminhada, deixou que seu olhar de fuzilamento exprimisse um tipo de bronca tão contundente que, embora direcionada a mim, serviria para qualquer outro ser da minha espécie. A partir de então, na hora de fechar a janela, nunca mais voltei a ver Orfeu. Quase nada é tão constrangedor quanto se perceber indesejado. É o sinal de uma derrota.


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Me solta


Foi-se o tempo em que o nariz entupido era uma insignificância, um incômodo banal. Foi-se o tempo em que uma dor de cabeça fraquinha era só uma dor de cabeça fraquinha. Nesse tempo, tossir quase sempre não passava de um ato involuntário, mecânico, imperceptível como um cacoete. Nesse tempo recente e também já distante, coçar os olhos, meter o dedo na boca, apertar distraidamente a mão de alguém não trazia à consciência o peso de ter cometido um pecado sem perdão. Nada disso hoje permanece indiferente ao alerta paranoico ou não da preocupação sobre sintomas e diagnósticos. Penso nesse tempo com saudade e enquanto engulo seco para testar a saúde da minha garganta, ouço um som peculiar que interrompe o silêncio lá fora.

É a buzina do motociclista pago pela associação de moradores para fazer a ronda noturna pelas ruas do bairro. Ao longo do percurso, vai cruzar com outros motociclistas portadores de mochilas cúbicas e multicoloridas a caminho de onde a fome dos confinados os aguarda. Aliás, nestes dias de trânsito reduzido, a orquestra formada pelos escapamentos das motos, em seus mais variados tons, domina o pouco que a cidade anestesiada produz de barulho. Por falar em barulhos e sons, é coincidência que logo agora eu ouça gritos, gritos de criança.

Vou até a janela e vejo lá fora a figura de um homem de cabelos brancos: um idoso, conforme linguajar técnico que define um dos componentes do grupo de risco. Ele está envolvido por uma áurea de descuido e teimosia. Primeiro, pelo simples fato de perambular pela rua. Segundo, porque está sem camisa, mesmo em meio a uma garoa fina que começa a se intensificar. E terceiro, porque desobedece aos gritos da criança que chama por ele. Sim, um menino, provavelmente neto do idoso, implora para que ele volte para a casa. Hipnotizado pela curiosidade, o idoso segue na direção de um outro foco de barulho, que logo identifico como uma briga.

Não consigo ver o lugar da rua onde a confusão se desenrola. Tenho a visão obstruída por um pequeno prédio em construção. O que me resta então é me orientar pelas informações sonoras. Há as vozes que vociferam insultos e também as que tentam esfriar os ânimos. Muitas são as pessoas envolvidas na briga, a julgar pela variedade dessas vozes. Uma delas é que me chama mais a atenção. Alguém, de um modo choroso, grita repetidas vezes: me solta, me solta, me solta. No meu campo de visão, surge uma mulher. Provavelmente filha do idoso, ela o puxa pelo braço como se o resgatasse de um ambiente radioativo. Enquanto isso, as vozes vindas da contenda continuam ecoando, especialmente aquela que grita: me solta, me solta, me solta.

E a briga ainda persiste por uma duração exageradamente anormal até para padrões de quem tenha quilômetros de diferenças a acertar. Os que participam dela ignoram a chuva, a aglomeração e o perigo do contágio. Talvez queiram prolongar a briga indefinidamente. Para sempre, se pudessem. Talvez a façam perdurar como meio de fingir que ainda estão livres, como meio de se agarrar desesperadamente a um jeito de viver que acabou. Vejo o motociclista vigilante parar a moto para observar o tumulto. De longe. E ouço mais algumas vezes a pessoa que grita chorosamente: me solta, me solta, me solta. Desconfio que há algum tempo já a deixaram de segurar.


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