Livros do autor

1º de janeiro

 



Existe um dia de descanso para a cidade

Neste dia ela não tem que suportar as rodas dos veículos

Eles que lhe pisam tanto

São dispensadas de reverberar o grito das buzinas 

Seus prédios ganham exuberância

Suas vielas, avenidas, ruas se exibem nuas   

Os semáforos – sossegados, ociosos, prescindíveis – conversam entre si 

Estacione onde quiser

Há vagas, todas 

Há silêncio e beleza na cidade fantasma

Senta aqui no asfalto

Deita no cruzamento

Posso tirar uma foto sua 

Dessas que são improváveis 

É só hoje 

Amanhã tudo volta

As buzinas, o barulho, a pressa, o grito dos desesperados

E as pessoas

Elas vão chegar com a ilusão de que tudo vai mudar


Livros do autor

 

Zinga está no porão de um tumbeiro, privado de sua liberdade e partindo de seu continente para um mundo desconhecido do outro lado do Atlântico. Nesse novo mundo, onde tudo é estranho e hostil, entre tentativas de conquistar a liberdade e frustrações de toda a sorte, aprende técnicas de pintura com o mestre Jean-Baptiste Debret. O ofício que lhe trazia momentos de liberdade acaba por ampliar o controle sobre seu cárcere, mas talvez lhe entregue a chave para a liberdade.

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Viva Ludovico conta a improvável história de um açougueiro, que mesmo com os nervos tão acostumados ao abate e à brutal carnificina, subitamente é tomado por sentimento sensível em relação à existência de um boi, e por ela passa a lutar visceralmente. 

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O livro "A vida é um sorvete derretido", composto por 56 crônicas de Flávio Sanso, é um pequeno deleite em meio ao cotidiano, um ponto de alívio sobre a contemplação de um punhado de possibilidades sobre os rumos urbanos, esse bailado aleatório. As histórias são atalhos no tempo, e nós somos puxados como em um “barbante imaginário”, podendo olhar sem demora, degustando “prazer e percalços, euforia e incômodo”.

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Livro esgotado

Aguardando nova edição

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Padaria & Padaria


Passando pela calçada, olhei de relance para dentro do estabelecimento. Azulejos verdes-claros subiam até metade da parede. Havia um balcão de doces, uma mesa com xícaras e garrafa térmica. Em milésimos de segundo de trabalho conjunto, o cristalino, a retina e o cérebro formaram a imagem que me pareceu a mistura de Loja Granado com armazém de secos e molhados. Entrei.

A única pessoa lá dentro era um homem velho de cabelos inteiramente brancos e penteados à perfeição para o lado. Usava máscara. Achei estranho que estivesse sentado em um banquinho de madeira no centro da loja e não posicionado atrás do balcão. Assim que me viu entrar, baixou as sobrancelhas numa clara expressão de desgosto. Pedi um café. O velho aproximou do ouvido uma das mãos em forma de concha. Falei mais alto e ele então retirou da orelha uma das alças da máscara como se isso pudesse facilitar a compreensão do que eu falava. Nossa falta de entendimento já estava decretada. Eu podia ter desistido, algumas causas são compreensivelmente renunciáveis, mas eu insisti. Em determinado momento, o velho balançou o braço e a mão em sinal negativo, o que funcionou como uma expulsão. Saí incrédulo e com o tipo de ressentimento que só o consumidor enxovalhado é capaz de sentir.

Poucos dias de diferença, entrei numa padaria em busca do que fizesse as vezes da minha janta. Distraído com a análise das opções, levei um susto quando um dos funcionários me abordou aos gritos: “Tenho uma surpresa pra você.” Percebendo minha confusão, ele passou a falar ainda mais alto: “Você não vai resistir. Saiu agora do forno uma pizza de queijo e alho”. O funcionário se chamava Natan, conforme informado por ele mesmo. Enquanto falava, praticamente me levou pelo braço até uma mesa onde estava exposto o pedaço da pizza. Sem alterar a estridência com a qual se expressava, convocou os fregueses que estavam sentados às mesas a me convencer sobre a excelência degustativa daquela pizza. Todos me olharam simultaneamente, acenando em sinal positivo com a cabeça. Por algum momento me senti o centro das atenções de algum musical cômico. Poderia ser que a qualquer momento todos se levantassem e começassem a fazer alguma coreografia, cantando odes à fatia fumegante de pizza.

Não nego que o rapaz era bom no que fazia. O problema é que eu só queria preservar minha condição de cliente despercebido. Fiel ao cumprimento de um roteiro alucinado, ele prosseguiu com sua tática de marketing. Queria que cada um dos funcionários da padaria viesse até mim para reforçar sua propaganda. Enfim, abreviei o curso das coisas e aceitei comprar o pedaço de pizza. Natan, orgulhoso de seu sucesso, sacou do bolso o celular. Foi aí que me apressei em pegar o caminho do caixa e sair da padaria. Era bem provável que ele quisesse divulgar a venda pelo instagram ou, pior, gravar alguma dancinha da pizza no Tik Tok.

Com o pedaço de pizza a tira colo e no caminho de casa, tive vontade de voltar ao estabelecimento dos azulejos verdes-claros. Desta vez, pediria um doce de abóbora.


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A boa lição

     

Passeio, passagem

 

Da minha janela estava acostumado a ver o passeio que acontecia duas vezes por dia. No início da manhã e no fim da tarde, caminhavam devagar, sempre mantendo certa distância entre eles. Sempre a mesma distância. Parecia medida à régua.

À frente ia o dono. Atrás, carregando sobre as quatro patas o peso de uma longa vida canina, o cachorro de pelo cor de fogo exibia um desfile desengonçado. Um dos primeiros choques de realidade que tive na vida foi descobrir que o andar com oscilação das ancas é característica comum em cães em estado terminal. Os cachorros que já tive não viveram até a fase senil, no entanto me lembro bem que o Joli, um vira-lata do vizinho, em determinado estágio de sua velhice só conseguia se locomover arrastando as patas traseiras. Essas memórias eram despertadas assim que, há até bem pouco tempo, eu parava o que estava fazendo para observar a dupla passar.



Um bisbilhoteiro das coisas do cotidiano vira e mexe se vê transtornado ao se dar pela falta do que lhe ocupava habitualmente momentos de observação. Por dias estranhei o fim dos passeios. A sorte é que os dois são daqui da vizinhança e por isso não demorei a me atualizar sobre as condições do cachorro ao vê-los interagindo entre eles no pequeno gramado que fica na parte da frente do prédio onde moram. A debilidade do cão cor de fogo tem feito com que seu dono precise levantá-lo pelo quadril para movimentá-lo. Certo dia o vi sendo carregado no colo para dentro da portaria.



Hoje em dia, toda vez que saio de casa, altero meu percurso usual de maneira a passar em frente ao prédio do cachorro de pelo cor de fogo. Ao me deparar com sua coloração em contraste com o verde da grama, analiso se as pernas traseiras ainda conseguem ter alguma mínima firmeza no chão. Chama a atenção o quanto elas tremem, fraqueza de decrepitude.



Nessas ocasiões, fico esperando que me olhe de volta, olhos negros e profundos, língua arfante. Quando ele me encara, simulo perguntas, quero saber dele se tem noção de sua finitude, se está preparado, se sente medo. Sua reação é sempre a mesma: desvia o olhar e vai cheirar a flor mais próxima que encontra.


Livros do autor: Viva Ludovico e A vida é um sorvete derretido


Abordagem

 

— O que é que tá escondendo aí?

Corri para a janela e a primeira coisa que vi foi um rapaz com os braços para o alto depois de ter saído de trás da árvore. Enquanto descia um pequeno barranco, obedeceu às ordens para abrir bem a boca e suspender a camiseta, deixando a cintura à vista. A voz que me havia atiçado a curiosidade voltou a trovejar:

— Tem droga dentro dessa bolsa?

Quepe, óculos escuros, a farda vestindo um corpo avantajado. O dono da voz, policial que poderia se passar perfeitamente por personagem caricato de um esquete do Porta dos fundos, estava parado ao lado da porta do carona recém-aberta. O azul claro das viaturas da polícia militar fluminense não tem o tom do azul da Guanabara nem do azul do céu do Corcovado. Suas luzes agitadas eram dispensáveis sob o sol do meio-dia. De costas para onde eu avistava a cena, havia outro policial parado ao lado da porta do motorista.

Negro, magro, camiseta branca em que se lia Nike air, bermuda, chinelos de dedo, o rapaz falava baixo, mas ao mesmo tempo se empenhava em afirmar a inocência. Dizia ser andarilho e que na bolsa largada no chão só havia roupas. Pró-ativo, levou-a até o policial que estava parado ao lado da porta do motorista, não se descuidando dos movimentos executados com extrema precaução.

O policial colocou a bolsa em cima do capô da viatura, abriu-a e começou a retirar dela roupa por roupa. Estavam todas bem dobradas, não resistindo, porém, à bruta inspeção. Logo já eram um punhado de tecidos amarfanhados. De repente, um objeto se destacou entre a pequena bagagem.

Após ajeitar o fuzil no ombro, o policial da porta do motorista entregou seu achado ao colega. Por trás dos óculos escuros, os olhos fixaram-se na carteira de trabalho. A mão estabanada folheou página por página, tendo se detido em uma delas. Em seguida, o policial da porta do carona aproximou-se do rapaz e lhe mostrou a carteira de trabalho aberta.

— Tu é esse aqui?

— Sou eu.

— Mas esse aqui tá gordo e tu tá na capa do Batman — concluiu o policial sem esperar justificativa — Usa crack?

— Não, não — duplicou os nãos o rapaz na tentativa de ser convincente.

— Tem passagem?

Como se quisesse espantar de si uma maldição, o rapaz balançou a cabeça negativamente.

E enfim não havia mais razão para o procedimento continuar. Um alívio para o rapaz, para mim e, quem sabe, também para os próprios policiais, que, ao saírem com a viatura, deixaram uma advertência enigmática:

 — Vai pra casa. Não fica na rua, não.

O rapaz foi acometido pela sensação de alheamento que sucede um episódio de trauma. Sentou-se em uma mureta baixa e com a expressão perdida se pôs a arrumar as roupas dentro da bolsa. Por várias vezes precisou ajeitar o volume dentro dela, de maneira a fazer correr o zíper. Depois, improvisou as alças da bolsa nos ombros, transformando-a em uma mochila. Ele então se levantou, olhando para os lados. Já desperto da apatia e com as mãos desocupadas, escalou o pequeno barranco, foi para trás da árvore e pegou do chão uma áurea, bojuda e portentosa jaca.

Carregava a jaca como se tivesse nos braços um bebê. Tinha pressa. Escolheu um banco da Praça Noel Rosa e se sentou. Usou as unhas para tentar romper a casca da fruta. Contudo, interrompeu o que fazia. Voltou a olhar para os lados. Parecia avaliar se sua atitude era suspeita ou não.


Livros do autor: Viva Ludovico e A vida é um sorvete derretido


A etiqueta do cão cor de barro

  

Na lista repleta de opções rasuradas, escolhi um x-burguer e pedi que ele viesse sem maionese e presunto. O garçom titubeou, transparecendo certa recriminação por eu ter simplesmente desmontado a combinação de ingredientes que alguém um dia elaborara com o intuito de oferecer uma caprichada experiência de sabor e saciedade. A tempo de revisar mentalmente o postulado de que os clientes – incluindo os que preferem levar desvantagem – têm razão, o garçom recobrou os modos diligentes e saiu apressado enquanto abanava o rosto com o cardápio, papel grandão, plastificado e com mais emendas que a Constituição da nossa República.

Depois da primeira abocanhada, virei-me e vi um cão que me observava com as orelhas em riste. Duas coisinhas sobre ele: seu pelo era amarronzado, um marrom que só consigo comparar ao barro feito de lama de terra clara. E o mais importante é que mantinha de mim uma distância respeitosa. Ele sabia que se ultrapasse determinado perímetro poderia se passar por inconveniente.      

Segundo o profeta (e as camisetas de souvenir), gentileza gera gentileza. E eu ouso acrescentar que compostura gera recompensa. Arranquei um pedaço do x-burger e o deixei no chão, próximo ao pé da mesinha instalada no calçadão. O cão avaliou minha atitude e se aproximou devagar, vencendo a desconfiança natural que se deve ter com um espécime humano. Depois de levar o pedaço para o exato lugar onde estava, saboreou com gosto a generosa porção de queijo derretido, o pão de hamburguer, a carne, os cubinhos de tomate. Tínhamos então estabelecido um trato silencioso. Repeti o gesto por umas três vezes e ele também fez tudo igual, recolheu o pedaço, levou para o lugar de costume, mastigou suave. Não é exagero dizer que dividimos meio a meio a refeição.

Há quem teorize que os cães são bajuladores sagazes. Fazem de um tudo para agradar as pessoas que os alimentam, questão bem calculada de sobrevivência. Não sei, talvez sim, talvez não. Na prática, o fato é que quando me restava o último pedaço do x-burguer, pensei em deixá-lo para o cão, mas já não mais o vi no lugar em que ele, em conformidade de como se desenvolveu nosso acordo implícito, havia pacientemente aguardado que seus outros quinhões fossem depositados sobre o chão. Pouco depois, enquanto caminhava pela rua, voltei a encontrá-lo. Ele dormia, mas acordou repentinamente. Fizemos contato visual e ele me ignorou. Sua memória canina nem sequer fez questão de preservar a minha imagem por alguns minutos. Até nisso aquele cão se mostrou elegante, evitando que crescesse em mim a vaidade de pensar que ele me devia alguma coisa.


Livros do autor: Viva Ludovico e A vida é um sorvete derretido

          

Janelas


Sempre que limpo a casa, estendo os tapetes na janela dos fundos. É onde o sol se apresenta mais generoso (ou mais inclemente, a depender da época do ano). Em várias dessas ocasiões, costumava dar de cara com a moradora do prédio que fica atrás do meu. Quando me via da sua janela, ela invariavelmente desviava o olhar, fingindo que alguma coisa ao redor lhe havia despertado a atenção. Com o tempo, desenvolvi a mesma técnica. Era como se ela não me visse estendendo o tapete e era como se eu não a visse contemplando a agitação da paisagem.

Não quer dizer que eu tenha deixado de perceber algumas coisas. Às vezes, ela murmurava. A impressão era a de que conversava baixinho consigo mesma. Depois, concluí que na verdade rezava, e isso pode ou não ter a ver com um adesivo verde colado no canto da janela, nele havendo a seguinte recomendação: “O acaso não existe. Leia Kardec.” Ela usava como indumentária permanente uma bandana colorida que enfeitava os cabelos formados por cachos modelados com perfeição. Para mim, aquela bandana de cores vivas era uma espécie de símbolo, uma marca registrada. Certa vez vi um rapaz que, após sair do prédio, acenava para ela. Lá da janela, a resposta foi econômica, uma indisposição para a despedida.

Por esses dias, no grupo do prédio onde moro, noticiaram que alguém do prédio de trás havia falecido. De início, não identifiquei de quem se tratava e a partir de então passei a fazer suposições. Pensei na senhorinha que de vez em quando passeia com a cachorrinha no colo, sem nunca permitir que o bicho estique as perninhas. Pensei na mulher que, da janela do seu apartamento no terceiro andar, costuma se mostrar muito preocupada toda vez que o jardineiro se aproxima das suas plantas, advertindo lá de cima para que ele não as arranque do gramado. Em seguida, as suspeitas se reduziram a uma pessoa, por causa de outra mensagem postada no grupo: “Que Deus possa confortar seu filho.”

Já era noite quando fui até a janela dos fundos. À frente, avistei o quarto iluminado. A janela e as cortinas escancaradas deixavam à mostra o filho, o mesmo rapaz do aceno. Ele e algumas pessoas esvaziavam o armário e faziam a divisão das roupas. Em pouco tempo, a luz estaria apagada, a cortina esticada e a janela fechada. E permaneceria fechada, ainda que lá fora a paisagem se agitasse. Por força de uma epifania me dei conta de que os cabelos formados por cachos modelados com perfeição eram na realidade uma peruca. Tenho vontade de saber qual terá sido a destinação dada à bandana de cores vivas.



Ainda bem que foi sonho

 

Peças de dominó de pé e na horizontal, uma atrás da outra. Na falta de comparação melhor, vai essa mesmo. É uma imagem fuleira para ilustrar o formato e a disposição de dez prédios que entre si formam ruas onde, aos sábados e domingos, uma combinação de sons anuncia a passagem do sorveteiro. Um assobio com notas desengonçadas, o barulho da buzina acoplada ao carrinho e o que parece ser um grito de guerra em língua estrangeira, tudo misturado, são a sua marca registrada.

É estranho que eu, marmanjo, seja provavelmente o único por aqui a dominar informações sobre o itinerário do sorveteiro. Nunca vi criança alguma cercá-lo, persegui-lo, chamá-lo, nenhuma delas puxando a mãe ou o pai pela mão para ir ao encontro dele, nenhum flagrante de pirraça feita em razão do picolé negado, vai ver eu e o próprio sorveteiro somos tipos antiquados que já não dão conta das atualizações frenéticas destes tempos que correm. Correm tanto que já começam a tropeçar nas próprias pernas.

Tarde de domingo. Ouço ao longe o sinal de que ele se aproxima. Resolvo então tomar as ruas que cercam o bloco de prédios. Estou na esquina  entre uma delas e a perpendicular. Lá na outra extremidade vejo passar o sorveteiro. Conheço outro dos seus métodos de trabalho: ele percorre as ruas em zigue-zague. É por isso que me adianto pela perpendicular, caminho paralelamente à lateral de um dos prédios e viro à direita. A parafernália sonora que o antecede vai se avolumando. Avanço pela rua, no final da qual, se estou certo, ele surgirá daqui a pouco. É o que acontece. A máscara vermelha amarrotada no pescoço dá a ele aspecto de elegância involuntária. Pelos meus cálculos vamos nos encontrar bem no meio da rua.

– Tem de leite condensado?

Os olhos dele se acendem. Provavelmente sou o primeiro freguês depois de muito tempo. A satisfação com que responde que, sim, ele traz em seu carrinho picolés de leite condensado é a expressão do reencontro com sua autoestima. Reconhecendo-se necessário, sente-se à vontade para uma confidência.

– Sabe que tive um sonho estranho essa noite? – comenta ele, interrompendo o ato de levantar a tampa do carrinho.

Eu então o encarei atento. Nunca se deve deixar de ouvir o sonho de alguém.

– Rapaz, sonhei que os picolés tinham virado água. Todo o mundo ficava zangado comigo, porque quando eu ia pegar o picolé, tudo era só água, e a água ficava mudando de cor, cor de uva, cor de abacaxi, cor de chocolate. Nossa, que humilhação danada! Ainda bem que foi sonho. O bom de sonhar coisa ruim é que você acorda e desfaz o susto. Em compensação, sonhar coisa boa às vezes te ilude. Você acorda e a coisa boa era só sonho.

Ele abre a tampa do carrinho, não sem antes fazer um pequeno gesto de hesitação. Constata, enfim, que os picolés estão intactos e sorri um sorriso menos de zombaria e mais de alívio. Enquanto lhe entrego a nota de dois reais, uma baforada gélida escapa e nos envolve, trazendo à memória a imagem do menino que se debruçava no refrigerador da padaria e mergulhava meio corpo no recipiente gelado com a missão de escolher muito rapidamente qual sabor de picolé compraria.

O sorveteiro me deseja um bom domingo e imediatamente reinicia a emissão sonora que lhe é tão própria. Segue seu percurso, vai se afastando. Quando perto de virar a esquina, ele passa a compor uma imagem digna de registro. Atrapalhado, acumulo nas duas mãos o picolé e, na posição horizontal, o celular com o qual pretendo tirar uma foto do sorveteiro inserido na atmosfera alaranjada do entardecer de inverno. Permaneço imóvel e concentrado. Estou prestes a captar o momento exato em que um raio de sol incidirá no carrinho. Não vai derreter. Vai brilhar.




Livros do autor: A vida é um sorvete derretido  e  Viva Ludovico

Desentendidos

 

Alguém podia ajudar ela aqui?

A mulher apontou para um corpo imóvel deitado no chão. Velha, agasalhada, olhos fechados, barriga para cima sobre a qual as duas mãos entrelaçavam os dedos, pose de defunta. Criou-se logo um pequeno tumulto.

Senhora, senhora. A senhora tá bem?

Clamava uma adolescente, enquanto ao lado a mulher que a acompanhava, provavelmente sua mãe, digitava a tela do celular.

Pra chamar ambulância é 192?

Quando todos já se convenciam de que se tratava de um caso perdido, os olhos da velha se abriram assustados. Ela usava toca e máscara. O rosto quase todo tampado deixava o olhar confuso em evidência. Passou então a esfregar as mãos pelo corpo, debatia-se como um bebê inábil em coordenar os movimentos dos braços e das pernas.

O que a senhora tá sentindo?

A velha se levantou sem dar atenção às vozes que chamavam por ela. O que lhe interessava era mirar o alto. Talvez já fosse íntima do céu sem estrelas. As pessoas ao redor ficaram chateadas. Logicamente, a primeira impressão era a de que elas estavam contrariadas pela perda de tempo. Mas tenho pra mim que o aborrecimento delas se devia à frustração de não terem conseguido cada qual sua medalha de benevolência. Ser bom e ser melhor têm muito mais a ver com o comparativo de superioridade do que nos ensina a gramática.

Enquanto todos se dispersavam, a velha mantinha um animado bate papo com o céu escuro, talvez o único interlocutor que conseguia decifrar sua linguagem formada por grunhidos e gargalhadas.

Tempos depois, uma ambulância surgiu apressada, gritando e emitindo luzes que pareciam refletidas a partir de um estroboscópio de discoteca. Deu três voltas no entorno de onde não havia sinal de que alguém precisasse dela e, por fim, foi embora. Devagar, silenciosa, apagada, triste.


Livros do autor: A vida é um sorvete derretido  e  Viva Ludovico


Ressurreição

 



Antes árvore, agora sol na tua cara. É o que estava pichado em vermelho no muro branco. Vasculhei o arredor e me alegrei por ter entendido o sentido da frase, orgulho besta parecido ao de quem desvenda uma charada.

A julgar pelo calibre do tronco cortado quase ao rés do chão, a árvore tinha porte suficiente para sombrear um terço da rua, incluindo o muro pichado que agora, exposto, recebia a incidência do sol abrasador. No canteiro onde estavam os despojos da árvore, pequenas flores coloridas haviam se espalhado feito aqueles minúsculos insetos que orbitam a banana passada, e isso, associado ao que estava escrito no muro, legítimo e retumbante epitáfio, dava ao cenário contornos de funeral.

Por dias me auto pressionei com a pergunta intermitente: por que não fotografei? Pois então retornei à rua onde enquadrei com a tela do celular vários ângulos do que a partir de então estava devidamente registrado no catálogo de fenômenos da dinamicidade urbana. E foi sorte.

Digo sorte porque poucos dias depois, como se por efeito de um ato profanador de memórias, o muro foi pintado pela metade, restando do epitáfio as palavras “sol na tua cara”, que, remanescentes e desconexas com o contexto geral da cena, foram reduzidas a um grito incompleto sem força de eloquência. Quem quer que tenha pintado o muro também quis deixar algum recado: seja sobre estender um pouco mais o mísero pedaço da homenagem, seja simplesmente sobre dar mostra da incompetência da zeladoria pública. Ocorre que, na semana seguinte, o muro foi pintado por completo e as florezinhas que coloriam o sepulcro arbóreo foram todas elas ceifadas.

Quis a coincidência, dessas que nos iludem ou, o que talvez dê no mesmo, amenizam nossa desilusão, que neste domingo de Páscoa, 21 de abril de 2019 (os céticos do futuro conferirão no calendário), eu estivesse na rua em que tudo se passou. Não há nada mais que se refira ao memorial da árvore abatida. Só que, sobrevindo ao epitáfio, às flores e ao registro da fotografia de celular, há um ramo que eclodiu do meio do cotoco de tronco ressequido. É ainda fino, frágil, verde, mas aponta na direção do céu.



Outras crônicas do autor no livro A vida é um sorvete derretido